Crítica

Eduardo Lourenço na Disneylândia

Miguel Gonçalves Mendes traduz certeiramente o pensamento de Eduardo Lourenço, mas fá-lo pelo meio de uma parafernália digital que corre o risco de o trair.

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Caso estranho, este de um filme que, em pouco mais de uma hora, dá tantos tiros no pé e ao mesmo tempo acerta na mouche no essencial. À imagem do que fizera com Mário Cesariny em Autografia (2004) e com José Saramago em José e Pilar (2010), Miguel Gonçalves Mendes volta a contornar a lógica tradicional do documentário hagiográfico. Em O Labirinto da Saudade, é o próprio filósofo e ensaísta Eduardo Lourenço, que completa 95 anos esta quarta-feira, a conduzir-nos por uma “encenação onírica” das ideias do livro que publicou pela primeira vez em 1978, assim protagonizando este projecto encomendado por um colectivo de amigos e admiradores (alguns dos quais participam no filme).

A ideia terá parecido irresistível a Gonçalves Mendes, cineasta que gosta de inventar e brincar com as formas, mas O Labirinto da Saudade quer ser demasiadas coisas para demasiada gente. Adaptação mais ou menos livre de um ensaio seminal sobre a identidade portuguesa, pequena introdução a uma das figuras seminais da cultura nacional do último século, celebração da sua vida, o filme acaba por ser melhor quando se concentra apenas em Lourenço e nas suas ideias.

Nas suas próprias palavras, o ensaísta é “um ser terrivelmente abstracto”, sem o magnetismo físico, performativo, de um Cesariny. A solução encontrada para contornar essa modéstia é o grande calcanhar de Aquiles do filme. Gonçalves Mendes coloca Lourenço a debater as suas ideias em diálogos “socráticos”, pedagógicos, com figuras públicas ali presentes como amigos ou admiradores do pensador mas também em representação de arquétipos referenciados no livro (“o escritor” Gonçalo M. Tavares, “a espanhola” Pilar del Río, “o psiquiatra” Tiago Marques, “o brasileiro” Gregório Duvivier, “o africano” José Nafafe...). Essa incapacidade de delimitar fronteiras entre personalidade e personagem abre as portas ao equívoco de uma récita amadora cheia de boas intenções mas algo canhestra, e que não é ajudada pelo recurso recorrente ao efeito de imagem. Algures entre o Darren Aronofsky de O Último Capítulo e um Terry Gilliam digital, fica a sensação de que Gonçalves Mendes está a criar uma “Disneylândia visual”, cujo barroquismo ostentatório parece espelhar (talvez inadvertidamente?) a descrição que Lourenço faz do Portugal “virtual” e idílico que Salazar criou.

A verdade é que esse “papel de embrulho” não era preciso. Bastaria a voz e a presença de espírito que Eduardo Lourenço (muito menos abstracto do que diz ser) ainda respira. Sempre que tudo se concentra no seu pensamento, na sua (brilhante) “psicanálise mítica” da portugalidade, no modo como a sua obra e a sua vida se ligam, o filme descola para lá do lastro institucional das expectativas, deixa antever o que O Labirinto da Saudade podia ter sido. Assim, fica aquém daquilo que Miguel Gonçalves Mendes já provou saber fazer — ao mesmo tempo que faz inteira justiça ao que Eduardo Lourenço é e representa. Parece contraditório, sim, mas faz todo o sentido pelo meio deste labirinto.