Opinião

Casa-Museu de Vieira Natividade: Lugar de Memória da Arqueologia Portuguesa

Considerando que se comemora o Ano Europeu do Património Cultural, no mesmo ano em que decorre o primeiro centenário da morte de Manuel Vieira Natividade, resta-nos deixar a seguinte questão: para quando a abertura da Casa-Museu de Vieira Natividade?

Em Ano Europeu do Património Cultural, e assinalando o primeiro centenário da morte de Manuel Vieira Natividade (1918-2018), importa memorar a acção do arqueólogo. Falamos de um dos mais notáveis homens da Ciência e da Cultura de Alcobaça, na transição do século XIX para o século XX. Diplomado em Farmácia pela Universidade de Coimbra em 1886, aí adquiriu um enorme pecúlio de conhecimentos arqueológicos, através do contacto com especialistas portugueses e estrangeiros. Destacou-se no domínio da Arqueologia e, nesta área, catapultou o nome de Alcobaça e, bem assim, o seu país para a esfera internacional. Vieira Natividade explorou laboriosamente a riqueza arqueológica da sua região. Deste trabalho resultou uma extensa e diversificada colecção de objectos, respeitantes ao quotidiano do homem da Pré-História e aos tempos posteriores, nomeadamente o período da presença romana. A Coleção integra peças que assumem especial relevo por serem as primeiras conhecidas em Portugal, como é caso da estatueta feminina em osso (Gruta da Casa da Génia), ou da placa de xisto antropomórfica – com características únicas no país (Gruta do Cabeço da Ministra), ou ainda dos bronzes figurativos romanos. Ao longo do tempo, o erudito foi reunindo um vasto acervo museológico que designou por “Colecção de Alcobaça”. A sua casa, situada no Rossio, em Alcobaça, estava aberta a todos quantos desejavam observar e estudar a Colecção, sendo conhecida entre os intelectuais da época como a “Caverna da Ciência”. Neste espaço, Manuel Vieira Natividade guardava todo o espólio que fora colecionando. Porém, o seu acervo não se limita exclusivamente à Coleção de Arqueologia, integrando também outras coleções no âmbito da etnografia, numismática, artes decorativas e artes plásticas. Neste último domínio, salienta-se uma peça de escultura que reproduz a “Roda da Vida / Roda da Fortuna”, inscrita na cabeceira do túmulo de D. Pedro. Uma peça única, feita em tamanho natural, que foi encomendada ao escultor António Augusto da Costa Motta (Sobrinho) por Manuel Vieira Natividade, no primeiro decénio de novecentos. O erudito encomendou esta peça com o objetivo de observar com detalhe as cenas da vida de D. Pedro e de D. Inês de Castro, registadas na cabeceira da arca tumular do rei. A peça de escultura serviu de base à investigação inédita do autor sobre a iconografia tumular, resultando a mesma na publicação do livro Inez de Castro e Pedro o Cru perante a iconographia dos seus tumulos, em 1910. A escultura encontra-se referenciada e identificada no espólio documental do arqueólogo; constituindo uma peça digna de integrar um futuro projecto museológico relativo à Casa-Museu de Vieira Natividade.

Também é de relevar que, numa época em que o estado de abandono e de ruína caracterizava a grande maioria dos monumentos portugueses, Vieira Natividade tivesse assumido uma função pioneira e crucial, relativamente ao estudo e divulgação do Património Cultural da região de Alcobaça. Senão vejamos: não fora Manuel Vieira Natividade que, depois dos cronistas monásticos, escrevera sobre o Mosteiro de Alcobaça, publicando o livro O Mosteiro de Alcobaça, Notas Históricas, em 1885? Não fora igualmente Natividade o primeiro a fazer a leitura iconográfica das arcas tumulares de D. Pedro e de D. Inês de Castro, numa época em que os túmulos - expoentes máximos da tumulária medieval -, se encontravam em estado de abandono no panteão escuro e húmido, onde proliferavam a humidade e os líquenes? Não fora também este homem que, tantas vezes, informara as entidades competentes para os diversos achados arqueológicos realizados nas terras de Alcobaça? Não fora igualmente o erudito que advertira para o avanço da ruína e decaimento da abadia alcobacense, apelando para a necessidade da salvaguarda do monumento?

Também a ideia da criação de um “Museu Municipal” remonta ao final do século XIX, e foi apresentada por Vieira Natividade, em 1885. Contudo, o projecto não se concretiza. Sabendo os seus herdeiros que era vontade de Manuel Vieira Natividade que toda a sua Coleção fosse doada a um futuro museu de Alcobaça, fizeram doação ao Estado Português da vasta Colecção do arqueólogo, através do antigo Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico (IPPAR). Por conseguinte, também a casa onde viveu Manuel Vieira Natividade foi doada por sua filha Leocádia Garcez Natividade para aí ser instalada a Casa-Museu de Vieira Natividade.

Considerando que se comemora o Ano Europeu do Património Cultural, no mesmo ano em que decorre o primeiro centenário da morte de Manuel Vieira Natividade, e, perfazendo 26 anos da data em o Estado assumiu a responsabilidade da abertura da Casa-Museu de Vieira Natividade, pelo Decreto-Lei 212/92, de 15 de Outubro, resta-nos deixar a seguinte questão: para quando a abertura da Casa-Museu de Vieira Natividade? Afinal, trata-se de um Alto Lugar de Memória da Arqueologia Portuguesa.