Arcebispo é o católico mais graduado a ser condenado em caso de pedofilia

Philip Wilson foi condenado por ter encoberto vários casos de abuso sexual de menores nos anos 1970. A Austrália continua a enfrentar a epidemia no seio do clero.

O arcebispo Philip Wilson pode ser condenado a uma pena de dois anos de prisão
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O arcebispo Philip Wilson pode ser condenado a uma pena de dois anos de prisão EPA/PETER LORIMER

Um tribunal australiano condenou o arcebispo de Adelaide, Philip Wilson, por ter encoberto crimes de abuso sexual de menores cometidos por outro padre nos anos 1970. Wilson é o mais alto responsável na hierarquia da Igreja Católica a ser condenado judicialmente por envolvimento num caso de pedofilia.

Os juízes do tribunal de Newcastle, 170 quilómetros a norte de Sydney, consideraram Wilson culpado por ter permanecido em silêncio depois de ter tido conhecimento de vários casos de abuso sexual cometidos pelo padre James Fletcher. Em tribunal, as vítimas disseram que contaram ao então padre assistente da paróquia de Maitland, perto de Newcastle, que foram alvo de abusos por Fletcher há mais de 40 anos.

Um dos casos é o de Peter Creigh que em 1976, com 15 anos, contou a Wilson pormenorizadamente como tinha sido abusado por Fletcher cinco anos antes. Outra vítima, que permanece sob anonimato, disse ter falado dos abusos de Fletcher a Wilson no confessionário. O padre disse à criança de 11 anos que estava a mentir e mandou-o rezar dez vezes a Avé Maria.

Fletcher foi condenado em 2004 por quatro crimes de abuso sexual de menores e acabou por morrer na prisão dois anos depois.

A defesa de Wilson argumentou que o arcebispo não se recordava das conversas que tinha tido com as vítimas e tentou por quatro vezes invalidar o caso por causa de um diagnóstico de Alzheimer – embora a doença não o tenha impedido de continuar a exercer o cargo.

Os juízes consideraram que os testemunhos das vítimas são credíveis e que há uma grande improbabilidade de Wilson não se recordar das conversas. “A possibilidade de dois jovens rapazes contarem ao acusado, individualmente, actos de má conduta sexual por parte de outro padre que o acusado conhece são assuntos que, estou certo, seriam recordados durante muito tempo”, afirmou o magistrado Roger Stone, citado pelo Guardian.

Wilson sabia “que aquilo que estava a ouvir era uma acusação credível e o acusado quis proteger a Igreja e a sua reputação”, concluiu Stone.

"Alívio" entre as vítimas

À saída do tribunal, Creigh disse aos jornalistas que a condenação lhe deu “uma grande sensação de alívio” e espera que “a decisão revele a hipocrisia, a mentira e o abuso de poder e de confiança que a Igreja tem demonstrado”.

Wilson, que pode ser condenado a um máximo de dois anos de prisão, emitiu um comunicado em que disse estar “obviamente desapontado” e irá ponderar quais serão os “próximos passos” que a sua defesa dará.

Nos últimos anos, a Igreja Católica australiana tem estado sob forte pressão por causa da revelação de inúmeros casos de pedofilia que envolvem sacerdotes. Uma investigação divulgada no ano passado mostrou um cenário de quase epidemia: mais de 4400 pessoas disseram ter sido vítimas de abuso sexual entre 1980 e 2015, e 7% dos padres católicos do país estão de alguma forma envolvidos em casos destes.

A condenação de Wilson mostra que os casos atingem o topo da hierarquia do clero, mas é possível que não se fique por aqui. No início do mês, o cardeal George Pell começou a ser julgado por acusações de pedofilia que terão ocorrido ao longo de três décadas. Uma potencial condenação do tesoureiro da Santa Sé e terceira figura da cúpula da Igreja Católica terá implicações profundas que deverão ir muito além da Austrália.