Demissões em bloco contra falta de condições no centro hospitalar Tondela-Viseu

Em causa estão mais de 30 directores e coordenadores de serviço. Administração diz que irá trabalhar para resolver os problemas. Uma das situações mais graves está relacionada com a oncologia.

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SÉRGIO AZENHA

Mais de 30 directores e coordenadores de serviço do Centro Hospitalar Tondela-Viseu (CHTV) apresentaram demissão dessas funções esta segunda-feira contra a falta de recursos humanos e de investimento que limitam a resposta a dar aos utentes. Uma das situações mais graves está relacionada com a oncologia, serviço que ficará sem um médico a partir de Julho, o que limitará a aceitação de novos doentes.

A administração já reuniu com uma delegação dos médicos demissionários e garantiu que “irá trabalhar para que haja uma resolução das situações apontadas como geradoras de insatisfação”.

Na declaração entregue esta segunda-feira ao conselho de administração, os 33 directores e coordenadores de serviço apontam os principais problemas que os levaram a tomar esta decisão. Falam na degradação progressiva de vários serviços que consideram que “terá uma repercussão irreparável no tratamento e orientação de muitos doentes” que diariamente recorrem ao centro hospitalar, na “contínua ausência de uma política, regras ou orientação, que não seja o desesperado desinvestimento cego e desordenado, a todos os níveis, tecnológico e humano, levando a um descontentamento generalizado” e do desaparecimento da actividade do director clínico que neste caso acumula as funções de presidente do conselho de administração.

Recordando que a insatisfação já tinha sido anteriormente comunicada à administração e considerando que a curto prazo a resposta aos doentes se irá agravar, dizem não poder continuar a assistir “de forma passiva a esta degradação sem precedentes”. O que os levou a apresentar de “forma formal a suspensão imediata das nossas funções na direcção dos serviços”.

O CHTV, através do gabinete de comunicação, confirmou que o conselho de administração, presidido por Cílio Correia, recebeu uma carta “onde muitos directores de serviço e coordenadores mostram preocupação com assuntos relacionados com a dinâmica do hospital”. A mesma fonte adiantou que durante a tarde desta terça-feira a administração reuniu com uma delegação representante do grupo demissionário. Nesse encontro, a administração “demonstrou o seu empenho e irá trabalhar para que haja uma resolução das situações apontadas como geradoras de insatisfação”.

Sindicatos e Ordem apoiam decisão

Em Abril, o Sindicato dos Médicos da Zona Centro (SMZC) e a secção regional do centro da Ordem dos Médicos visitaram o hospital. Em comunicado, as duas entidades denunciaram que o equipamento para a realização de mamografia, com 21 anos, deveria ter sido desactivado há mais de uma década e que os médicos se recusam a usá-lo por essa razão e que a lista de espera para ressonâncias magnéticas tinha inscritos mais de dois mil doentes, “metade há quase dois anos” à espera.

Noel Carrilho, presidente do SMZC, fala num “constrangimento económico importante por parte da administração até nas decisões de cariz clínico” que acaba por ter repercussões na organização dos serviços. “A oncologia médica está incapaz de dar assistência a novos doentes por serem poucos os profissionais. A partir de Julho passam a ser dois, quando deveriam ser cinco ou seis para a dimensão do serviço”, diz. “O sindicato exige que haja uma renomeação do director clínico e que o Ministério da Saúde olhe para o hospital e para o SNS de forma integral e acabe com esta política de recursos humanos desastrosa.”

O presidente da secção centro da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, admite que esta decisão dos directores de serviço não é uma surpresa. “Houve uma reunião em Abril a alertar para a situação e nada mudou. Sentimos que a governação clínica desapareceu e o que dita a actividade do hospital é uma visão economicista. A questão de oncologia foi completamente ignorada. O que os médicos fizeram foi um acto de enorme responsabilidade e um grito enorme de alerta para a situação do hospital”, afirmou.

Também Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, diz estar solidário e compreender a decisão dos colegas “dada a falta de recursos humanos e de investimento”. “Achamos lamentável a acumulação da direcção do hospital com a direcção clínica e esperamos que o Ministério da Saúde ultrapasse rapidamente esta situação”, acrescenta Roque da Cunha.