Granito, silêncio e sossego numa aldeia ajuizada

Nas Casas do Juízo é o silêncio que manda, de dia e de noite. Há décadas, viviam na aldeia cerca de três centenas de habitantes, hoje são 17. Há um forno comunitário e muitas histórias para contar.

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Assim que abandonamos a auto-estrada e entramos na nacional passamos pelas aldeias a uma velocidade inferior a 50km/h, o que nos permite ver as casas com tempo, assim como os poucos habitantes que por ali param, nas soleiras das portas. O interior do país está abandonado. É um facto confirmado pelas casas fechadas, pelos velhos que se vêem aqui e ali e que cumprimentamos com alegria. “Boa tarde”, acenamos de dentro do carro e retribuem-nos com saudações semelhantes e um olhar curioso.

Somos só uns turistas de ocasião que, por vezes, se deixam enganar pelo GPS e surpreendem-se com o interior das aldeias, aquele que não se vê da estrada. Equivocados, entramos em Souropires — em tempos Soeiro Peres, o nome do senhor daquelas terras. O telefone toca. Há uma hora que deveríamos ter chegado a Juízo e José Pinto Guerra, o empresário que reconstruiu e gere as Casas do Juízo, mostra-se preocupado. “Onde está? Vá em direcção à igreja, do seu lado direito tem o solar dos Távoras, desça, vire à esquerda…”

Deixamos de ouvir e ficamos presos à frase “o solar dos Távoras”. Entramos assim numa breve lição de história para contar quem são os Távoras, como caíram em desgraça, embora não saibamos bem se estes serão os mesmos do Marquês de Pombal. Mas o edifício é imponente, monumento nacional, descobrimos depois, e faz-nos atrasar um pouco a chegada à aldeia que fica no Vale do Côa, no concelho de Pinhel, a poucos quilómetros dali.

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Entramos no Juízo e é fácil dar com o complexo, uma vez que está tudo devidamente identificado; além disso, José Pinto Guerra espera-nos na estrada empedrada, ajudando-nos a estacionar perto da Taberna do Juiz, o espaço de restauração que abriu para servir quer quem fica nas casas, quer quem vem de fora para petiscar.

Comecemos do princípio. José Pinto Guerra é do Juízo, saiu para estudar na Guarda, fez engenharia no Instituto Superior Técnico nos anos quentes da revolução — então, pensou estudar fora, mas terminou o curso e trabalhou na Marinha Grande. O tempo passou e recuperou, há 20 anos, uma casa na aldeia. Em 2014, o engenheiro e a mulher regressaram à terra com a ideia de fazer um turismo rural. Foram comprando as casas que pertenciam à família, “aos primos e assim”. A rua separa os dois espaços: de um lado, a casa onde tudo começou, aquela que o casal habita quando está na aldeia, assim como quatro casas que podem ser arrendadas em qualquer altura do ano; do outro lado da rua, está o complexo construído mais recentemente, com mais quatro casas e a Taberna do Juiz, que rodeiam a capela, com um forte Cristo de pedra. “Tentaram roubá-lo partindo-lhe as pernas, mas não conseguiram porque é de granito, muito pesado”, recorda José Pinto Guerra enquanto mostra, orgulhoso, a capela que a família ofereceu à freguesia e onde só se reza missa com autorização do bispo.

O granito domina a aldeia e as casas reconstruídas, por dentro e por fora. “Estava tudo muito degradado, os pátios cheios de silvas. Inicialmente, pensámos só pôr telhados e portas, mas depois tivemos de fazer tudo”, descreve. As oito casas ganharam os nomes dos espaços que antes ali ficavam, como a Casa da Capela, paredes-meias com o recinto religioso; a Casa do Museu, um pequeno T0 construído em torno do engenho de um lagar; a Casa do Telheiro, ao lado de um espaço coberto onde várias mesas e cadeiras convidam a ficar; ou a Casa do Juiz, com grades nas janelas e que se crê terá sido uma pequena cadeia — a aldeia deve o seu nome à possível existência de um juiz na localidade, conjectura o proprietário. Ao todo, as casas, com diferentes tipologias (do T0 ao T4) comportam 30 pessoas.

As casas estão apetrechadas com tudo o que precisa para cozinhar no local, do fogão ao frigorífico, e na Taberna do Juiz pode comprar alguns ingredientes para a receita que quer fazer, caso se tenha esquecido de a adquirir na mercearia mais próxima, que não fica na aldeia, mas nas localidades vizinhas. Se quiser ir ao supermercado, deverá ir a Pinhel ou a Trancoso. O empreendimento tem ainda uma piscina coberta, uma estufa e uma quintinha com animais.

Quem não quiser cozinhar pode sempre tomar as refeições — o pequeno-almoço (8€/pessoa) ou uma refeição (entre 10 e 15€/pessoa) — na Taberna do Juiz. É lá que tomamos um pequeno-almoço muito completo: do sumo natural aos batidos, dos iogurtes aos cereais, dos pães de sementes à bola de carne, passando pelos biscoitos de manteiga e o bolo mármore caseiro. E também um jantar composto por uma tábua de enchidos e de queijos, uma sopa fantástica de favas (com a casca da leguminosa incluída), alguns petiscos e sobremesa.

E o que fazer lá fora?

O silêncio domina a aldeia, de dia e de noite. Há décadas eram cerca de três centenas os habitantes, hoje são 17. Há um forno comunitário, um espaço onde antigamente se punham as ferraduras ao gado, vários poços e muitas histórias para contar com algumas curiosidades como uma oliveira milenar ou vestígios romanos, enumera José Pinto Guerra, que gosta de mostrar o Juízo com tempo e, com a mulher, Isabel, imagina novas actividades para promover a terra. Há tempos recriaram uma merenda como a que os trabalhadores do campo faziam, carregada numa burra; agora já estão a planear a apanha da amêndoa. Isabel é a criadora dos ajuizados, uns bolinhos com amêndoas da propriedade, e da Pinga do Juízo, um licor de figo. O casal não revela o segredo de um e de outro, mas Isabel já anda a magicar uma receita nova para uns biscoitos que possa partilhar com os mais curiosos.

De manhã, André e Daniela abrem a Taberna para tomarmos o pequeno-almoço. No final, juntam uma série de panfletos — da Grande Rota das Aldeias Históricas de Portugal, de Pinhel, da Grande Rota do Vale do Côa, do Parque Arqueológico do Vale do Côa. O Juízo fica bem localizado, no cruzamento das rotas das Aldeias Históricas e do Vale do Côa, e Daniela dá uma sugestão de como fazer o melhor percurso para aproveitar bem o fim-de-semana. Obedientes, cumprimos o percurso sugerido. Começamos por Marialva e subimos até ao castelo, continuamos para Vila Nova de Foz Côa e almoçamos doses generosas no restaurante do museu. Aproveitamos para ficar e usufruir da vista sobre o vale do Côa, assim como para visitar o museu, já que para ver as gravuras in loco é preciso marcar com antecedência. “Se quiserem muito ir, também se arranja, mas sugiro voltarem”, diz José Pinto Guerra. Daniela é da mesma opinião e estabelece em que altura deveremos regressar — no Inverno, quando está frio e as casas são muito quentinhas com as mantas e a lareira.

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O nosso percurso continua em direcção a Castelo Rodrigo, mais uma aldeia histórica, mas antes fazemos um desvio até à serra da Marofa, onde, do alto dos seus mais de 900 metros, há antenas retransmissoras, mas também um Cristo Rei de braços abertos, desde 1956, a olhar para Espanha, lá ao fundo.

Depois de Castelo Rodrigo, chegamos a Almeida, seguimos para Castelo Bom e depois Castelo Mendo — tudo na rota das aldeias históricas. Há sugestões para fazer estas rotas caminhando, em BTT ou mesmo em todo-o-terreno. No Verão, além da piscina das Casas do Juízo, existem praias fluviais para descobrir na região. E, com tempo, é possível planear uma viagem de barco ou de comboio pelo Douro.

Terminado o fim-de-semana, concluímos que José Pinto Guerra tem razão, falta tempo para explorar a zona com calma. “Quando precisarem de juízo, venham até ao Juízo”, brinca.

A Fugas esteve alojada a convite das Casas do Juízo