A menina que cresceu num jardim de 12 hectares

Carina Costa, 32 anos, engenheira agrónoma, é responsável pela classificação das plantas no Parque Terra Nostra, em São Miguel, nos Açores. Ter crescido ali, de janela aberta para aquele verde imenso, moldou-lhe o futuro.

Fotografia, fotografia de retrato
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Rui Soares

Ouve-se o grasnar dos patos e o chilrear dos pássaros ao longe. Serão priolos, as aves típicas dos Açores? “Não dá para ver”, responde Carina Costa, tesoura de poda numa mão e telemóvel na outra, pronta a fotografar plantas e flores, pinceladas com as mais variadas cores e feitios. Aos 32 anos, a engenheira agrónoma é responsável pela classificação destas plantas e flores. E cria muitos dos jardins que deixam os visitantes de boca aberta nas visitas guiadas que faz ao Parque Terra Nostra, um ex-líbris da ilha de São Miguel, nos Açores, com 12,5 hectares.

O último jardim que Carina fez foi o das flores cinerárias rosas e roxas, que lhe demorou mais de dois meses a desenhar. Também criou o novo Jardim da Flora Endémica e Nativa dos Açores “para dar a conhecer às milhares de pessoas que visitam o parque a flora endémica deste arquipélago”, conta, olhos grandes brilhantes de entusiasmo fixos na paradisíaca paisagem montanhosa do Vale das Furnas. Conta no currículo ainda com a reconstrução, em 2015, do Jardim de Flores que é constituído por plantas anuais. “O pico da floração é o Verão, tornando-se uma das maiores atracções do parque”, explica, enquanto segue pela alameda de ginkgo biloba, uma das mais bonitas do parque.

O projecto de remodelação dos viveiros, em 2017, também teve a sua assinatura. “É uma área de desenvolvimento do parque, onde são produzidas novas plantas para o jardim e também aromáticas e hortaliças para consumo do restaurante e bar do Terra Nostra Garden Hotel”, onde o parque está integrado. A planta milenar ginkgo biloba, por exemplo, é utilizada num dos tratamentos com assinatura própria do spa do hotel: o ritual de recepção com as mãos mergulhadas em água e óleo essencial. (O Terra Nostra Garden foi considerado o melhor Hotel Boutique português nos World Travel Awards, os “óscares” do turismo mundial, em 2014 e 2016.)

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Um dos jardins desenhados por Carina no Parque Terra Nostra DR

Entre a classificação das plantas e jardinagem do parque, a engenheira ainda arranja tempo para criar o site deste parque botânico e lá colocar roteiros e textos científicos. Um dia normal de Carina é passado entre “trabalhos científicos” a escrever e a classificar as muitas árvores, arbustos e herbáceas, e consequente criação de uma base de dados com informações sobre as diferentes espécies. “Esse foi um trabalho moroso, que até então nunca tinha sido feito, e que continua a ser desenvolvido”, conta, entusiasmada. Também introduz novas espécies no parque, como “o eucalipto de arco-íris, que é muito interessante, porque, quando ele atinge os 14 anos, se consegue ver as cores do arco-íris”. “É mesmo muito bonito.” E quais são as plantas típicas dos Açores? “A uva-da-serra, a erica azorica e o louro-da-terra, por exemplo”, elucida, de olhos fixos no último jardim que desenhou. “Dou especial atenção e estudo as colecções de plantas existentes, como as camélias, cicadales, fetos e bromeliáceas”, acrescenta.

Carina licenciou-se em 2010 e tornou-se parte da equipa do Parque Terra Nostra em 2011, mas dois anos depois foi estagiar no Ventnor Botanic Garden, em Isle of Wight, Inglaterra. Em 2014, concluiu o mestrado em Engenharia Agronómica, que resultou no livro Problemas fitossanitários nas cameleiras da Ilha de São Miguel.

Quase tudo o que sabe de plantas, Carina aprendeu-o com o pai, Fernando Costa, que é jardineiro-chefe há três décadas neste parque botânico que conta já com 200 anos. “Em pequena via-o a fazer os muitos jardins, como o da colecção de fetos e de camélias”, lembra. “E ainda de bromeliáceas, que já são cerca de uma centena. O ananás, por exemplo, que é muito produzido cá, é uma bromélia”, explica Carina. Nessa altura, só queria correr pelo parque com os amigos e brincar no seu “jardim particular”, porque morava ali mesmo. Nem lhe passava pela cabeça que, um dia, iria seguir as pisadas do pai e herdar dele o gosto pela arte de jardineiro. Hoje, não se imagina “a trabalhar noutro local”.

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Carina teve uma infância feliz rodeada daquilo de que mais gosta: plantas e flores. “Sei bem a felizarda que sou por trabalhar aqui num dos jardins mais bonitos e ricos do mundo”, diz, sorriso de lés-a-lés, enquanto mostra uma camélia amarela, das poucas que restam nesta época, que já não é a delas. “Já não estão a dar flor. Mas costumamos ter cerca de 800 camélias cultivares”, elucida, referindo que já valeram ao parque o prémio Jardim de Camélias de Excelência, pela International Camellia Society (ICS).

Carina já não vive na casa dos pais desde os 29 anos. Mas tem saudades de acordar com as janelas abertas para um parque com 1800 plantas diferentes classificadas. Ou de, manhã cedo, ainda com a neblina no ar, tomar banho no tanque de água termal, a uma temperatura entre os 38 e 40 graus. E com a paradisíaca paisagem montanhosa do Vale das Furnas como pano de fundo. A engenheira agrónoma ainda se lembra de levar os amigos a banhos “naquela água quente de cor amarelada, com ferro, que tem propriedades terapêuticas”. Por essa altura, era quase um ídolo na freguesia. Conseguia entradas à borla para os amigos. Era o jardim de Carina, que bem lhes fazia lembrar a canção: “Fui ao jardim da Celeste, giroflé, giroflá. (...) o que foste lá fazer? (...) Fui lá buscar uma rosa giroflé, giroflá (...).”

Carina não só foi buscar uma rosa, como já plantou centenas de flores com ou sem a ajuda do pai. E vai desfiando memórias das escondidinhas atrás das árvores e das cabanas de paus de madeira que fazia com os amigos. Das traquinices de miúda, lembra-se ainda da vez em que tanto queria mostrar aos colegas que conhecia bem “o jardim pessoal”, que acabaram por se perder e teve de pedir ajuda a um turista. “Hoje isso nunca aconteceria”, garante, enquanto solta uma gargalhada só de se lembrar do episódio que a “deixou ficar mal com os colegas”. “Conheço o parque como as palmas da minha mão.” A paixão de Carina pelo jardim não se mede. Sente-se só de a ouvir falar como gosta de por ali estar.