Francisco provoca terramoto na Igreja chilena devido a escândalo de pedofilia

Papa reuniu-se esta semana com os 34 bispos chilenos para discutir omissões e encobrimento de um escândalo de abusos sexuais de menores. Todos eles apresentaram a sua demissão.

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Os bispos Fernando Ramos Perez e Juan Ignacio Gonzalez antes do anúncio de demissão REUTERS/Max Rossi
Papa Francisco, Thomas Schirrmacher, cidade do Vaticano, papa
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Papa com todos os 34 bispos depois de uma das reuniões Reuters/OSSERVATORE ROMANO

O Papa Francisco havia prometido e começou a cumprir. Depois de garantir perante as vítimas que iria cerrar fileiras no combate aos escândalos de corrupção que abalaram a Igreja Católica mundial, e em particular a do Chile, o sumo pontífice reuniu-se durante três dias com os 34 bispos chilenos. Nesta sexta-feira, todos pediram a demissão e deram forma a uma limpeza sem precedentes.

“Pusemos as nossas posições nas mãos do Santo Padre e vamos deixá-lo decidir livremente sobre cada um de nós”, disseram os bispos num comunicado lido por dois deles no Vaticano, pedindo ainda desculpa ao Chile, às vítimas e a Francisco.

“Estamos no caminho, sabendo que estes dias de diálogo honesto foram um marco de um processo de mudança profunda (…) com o qual queremos restaurar a justiça e contribuir para a reparação dos danos causados”, afirmaram ainda os bispos.

A dúvida agora é saber se o Papa irá aceitar todas as demissões, apenas parte delas ou nenhuma. Se aceitar só algumas, Francisco dá um claro sinal que atribui um maior grau de culpabilidade no encobrimento dos casos de abusos sexuais de menores – o centro de todo o terramoto – a parte dos bispos. É incerto quanto tempo poderá demorar este processo.

Os casos de abusos sexuais tiveram como protagonista, num primeiro momento, o padre Fernando Karadima, acusado de violar pelo menos quatro jovens desde os anos 80. No entanto, desde 2015, o holofote passou para o bispo Juan Barros, que foi sendo acusado de ter encobrido propositadamente os crimes de Karadima.

Na sua visita ao Chile em Janeiro, Francisco defendeu Barros, afirmando que não existiam provas que incriminassem o bispo e falando mesmo em “calúnias”. Porém, depois de se encontrar com as vítimas dos abusos sexuais no Chile, o Papa enviou uma missão ao país, liderada pelo arcebispo de Malta, para investigar as alegações contra Barros. Mais tarde, em Abril, Francisco acabou por admitir que cometeu “erros graves” na condução deste processo, expressando “vergonha” e “dor”.

Depois de receber um relatório de 2300 páginas dos seus enviados, o sumo pontífice convocou os bispos chilenos ao Vaticano para um encontro entre os dias 15 e 17 de Maio.

No primeiro dia da reunião, Francisco entregou uma carta aos bispos, para que reflectissem. O documento acabou por ser obtido pela televisão chilena T13. Aí, o Papa fala de uma reforma da Igreja chilena e que teriam de ser tomadas medidas, entre as quais demissões, mesmo que isso não fosse suficiente para “restaurar a justiça e comunhão”. Diz ainda que o caso deixou uma “ferida aberta, dolorosa”, e que “foi tratada com um medicamento que, longe de curar, parece tê-la aprofundado mais na sua espessura e dor”.

 “Os problemas que hoje se vivem na comunidade eclesiástica não se solucionam apenas abordando os casos concretos e reduzindo-os à remoção de pessoas. Isto – e digo-vos claramente – deve ser feito, mas não é suficiente. Há que ir mais além”, escreveu.

No final do último dia de encontros, nesta sexta-feira, os bispos apresentaram então a sua renúncia em bloco. O Papa divulgou um comunicado agradecendo aos bispos a sua “plena disponibilidade” em colaborar “em todas as mudanças e resoluções que temos de implementar”.

Como explica o El País, este comunicado indica que será o próprio Papa Francisco que se encarregará pessoalmente das medidas de reforma da Igreja chilena a serem aplicadas a partir de agora.