Entrevista

Regresso à Ray Gun e aos anos 1990: “As pessoas estão cansadas de 20 anos de Photoshop perfeito”

David Carson é o designer gráfico que irritou ou apaixonou com as suas capas e páginas na revista Ray Gun, farol alternativo fundado em 1992. O seu uso transformador das letras e das imagens trouxe-o a Lisboa para uma palestra no IADE.

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David Carson: "Depois de ler um artigo tentava perceber o seu feeling, o que ele me transmitia e que aspecto é que isso teria" RUI GAUDÊNCIO

Era uma vez uma revista chamada Ray Gun, tão conhecida pela música que divulgava quanto pelo estilo de design que publicava. Nasceu em 1992 e, além de acompanhar a cena da música indie e alternativa do momento, lançava uma carreira de um designer que, anos depois, teria ali o seu momento charneira – o público descobria o californiano David Carson, o design irritava-se com ele e depois reconhecia a sua influência. Disseram que mudou o paradigma do design gráfico. Vinte e seis anos depois, Carson voltou a Portugal para um workshop e uma conferência em Lisboa como convidado-estrela da 2.ª edição do Bold Creative Festival, organizado pelo IADE com a EDP e a agência Departamento.

David Carson tem 62 anos e usa dois relógios, um com a hora de Lisboa e outro com a hora californiana. Foi lá que nasceu a sua revista Beach Culture, ligada ao surf, desporto que o trouxe algumas vezes a Portugal – nomeadamente para desenhar a edição de 25 anos da revista Surf Portugal. Seria lá que fundaria a Ray Gun, revista imediatamente reconhecível pelas suas capas e pelas páginas sempre diferentes, desafiantes e cheias de letras que dançavam e se sobrepunham ao som das bandas que retratavam. Fundada com Marvin Scott Jarrett (também publisher da Creem ou da Nylon), a primeira capa foi com Henry Rollins, e seguir-se-iam PJ Harvey, Sonic Youth ou Teenage Fanclub — nunca tiveram os Nirvana na capa, mas Carson paginou toda uma entrevista de Bryan Ferry em Dingbats, o tipo de letra que são só símbolos e desenhos, porque era “chata”. Ilegível? Sim. Histórica? Claro.

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Veio falar sobre o seu trabalho sem regras, que vai desde esse momento emblemático no mundo das revistas até identidades gráficas para marcas de fatos de surf e museus, publicidade para a Audi, uma interpretação gráfica de Obama para o jornal The Guardian, pranchas para a Quiksilver ou a capa de And All That Could Have Been, dos Nine Inch Nails. A capa de Probes, de Marshall McLuhan, é sua, e a medalha de ouro do American Institute of Graphic Arts, também. Porém, reconhece que se a Ray Gun “teve um grande impacto” na sua carreira e no meio, o facto de o ter colado ao infame rótulo “design grunge” foi o seu efeito secundário indesejado.

O design tornou-se uma parte essencial da identidade da Ray Gun, misturado com a música e a arte da época. O seu traço acabou por definir essa estética – como é que se relacionou com a atmosfera da década?
A revista começou tendo por base [a constatação de] que a música estava a mudar muito e que devia haver uma revista diferente que a representasse em vez da Rolling Stone ou da Spin. Mas essa diferença não era forçada. Sou um produto daqueles tempos, ainda estava a crescer como designer e havia a música que eu ouvia antes de desenhar algo, tudo o que se passava na cultura, as novidades nos computadores. Tudo se conjugou e voilá, eis a revista. Como designers temos a responsabilidade de nos dirigirmos ao nosso público, e temos de fazer o que faz sentido para nós, mas com isso em mente. Se fosse uma revista de golfe, não teria um aspecto diferente. Via muitas fontes [tipos de letra] experimentais, as pessoas mandavam-me fontes esquisitas de todo o mundo e de vez em quando aparecia uma coisa boa. O mesmo acontecia com os ilustradores e com os fotógrafos.

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A Ray Gun era uma revista bastante flexível, sem uma grelha – não se esperava um formato quando se abria. Era invulgar na altura, mas também libertador para o designer?
Nunca conheci outra coisa. Não tenho treino formal em design gráfico, sou licenciado em Sociologia e ensinei uns anos no liceu. Depois descobri o design gráfico. Nunca aprendi nada sobre sistemas ou grelhas, e quando o fiz não via razão para os usar – percebo que sejam úteis, mas não me dizem nada. Depois de ler um artigo tentava perceber o seu feeling, o que ele me transmitia e que aspecto é que isso teria. Eu lia um artigo, a Ray Gun mandava-me a música e via fotografias. “Como é que posso representar isto? É raiva, é triste, é feliz?” Cada página era um trabalho de design diferente, não havia duas páginas iguais. Dava muito mais trabalho mas era muito mais divertido, e no fim tínhamos algo muito mais interessante.  

Há páginas ou capas que recorde especialmente?
Não consigo escolher uma. Normalmente, os melhores são os mais extremos em qualquer direcção – acho que o meu trabalho é mais bem sucedido quando é muito complicado ou muito, muito simples. Os que ficam no meio são os mais olvidáveis. As pessoas tendem a lembrar-se mais dos mais complicados (risos). As coisas extremamente simples são as mais difíceis, porque a fronteira é muito ténue entre o simples e entediante e o simples e poderoso. O trabalho mais complexo é muito subjectivo, intuitivo, e é mais difícil de ensinar. Se eu googlar o meu trabalho, o que não faço muitas vezes, metade das coisas que aparecem supostamente minhas não é minha, são coisas que outros fizeram.

Inspirados por si?
Bom, puseram letras em cima de letras e “olha, lá está aquela coisa grunge, aquela coisa David Carson”. Mas não funcionam...

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A sua abordagem tipográfica e de layout foi apelidada de “estética grunge”. Claramente não se revê nessa descrição.
Não, não é de todo confortável (risos).

A chamada “cena grunge” também nunca gostou desse rótulo.
De facto, na música era muito parecido. Odeio essa palavra. Não conheço um único designer que faça “design grunge”, eu incluído, nem um designer que se refira a ele assim. É um rótulo que pegou porque era algo feito na revista Ray Gun no início dos anos 1990, mas não significa nada para mim.  Infelizmente, nunca se encontrou uma palavra melhor. Em 2014 fui escolhido como um dos “30 utilizadores mais inovadores” pela Apple, e escreveram sobre mim “famoso pelo grunge” e mudaram-no a meu pedido... mas para “grafismo sujo”. É um bocadinho melhor, mas não muito.

A sua abordagem não era unânime e a sua inteligibilidade era contestada. Havia um esforço para desafiar o leitor, não o subestimando?
Nunca quis desafiar o receptor, tornar a coisa difícil. Houve quem dissesse que era uma falta de respeito para com a escrita e eu acho que era o oposto, porque chamava mais atenção para o artigo. Ainda é difícil atrair as pessoas para uma óptima página escrita, e acho que os leitores ficavam intrigados, a apresentação prometia que podia valer a pena. Mas alguns eram mais difíceis de ler para algumas pessoas, e eu não tinha problemas com isso (risos). Disseram-me uma vez que isso também passava a fazer parte da mensagem. Se eu tivesse um artigo sobre uma banda de metal, seria diferente de um sobre um poeta cantautor, eles ditam uma abordagem diferente.

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Era um tempo em que as revistas prosperavam. Em 2000 publicou um livro sintomaticamente intitulado The End of Print. O que acha do meio hoje? As revistas ainda têm o mesmo impacto?
Não. O campo do design gráfico e das revistas em particular tornou-se muito gentrificado, homogeneizado e enfadonho. Provavelmente tem algo que ver com a tecnologia, porque toda a gente tem o mesmo software, e com um botão tem-se uma newsletter com um ar razoável ou um logótipo por 25 euros. Este movimento gentrificou o meio e tornou-o menos pessoal, menos expressivo. No que toca às revistas, embora haja muitas a fechar, e também haja muita coisa nova, são todas “revistas B” – são sólidas, profissionais, bem feitas, mas são extremamente olvidáveis. Não há uma revista em relação à qual mal possamos esperar para ver o que vai fazer a seguir. E isso existia no início dos anos 1990.

Há excepções, algumas boas capas... Mas o outro lado disso é que cada vez que publico algo um pouco mais feito à mão, menos perfeito, sinto uma reacção. Acho que as pessoas estão cansadas da perfeição, de dez, 20 anos de Photoshop perfeito e, quando faço algo mais solto... Sinto uma mudança, talvez seja outra vez uma boa altura para se ser designer, desde que se traga algo único, algo que ninguém pode copiar vindo da nossa experiência de vida.

Diz-se que foi responsável por uma mudança de paradigma no design gráfico. Acha que há um antes e um depois de David Carson?
Não percebi por que é que tantas pessoas ficaram incomodadas com o meu trabalho inicial. Os designers gráficos, especialmente os mais velhos – como vim a saber mais tarde –, tinham ganho o papel de, perante uma confusão, chegar e compor as coisas com a aplicação de um sistema. E sentiram que eu cheguei e mandei tudo fora outra vez (risos).

Acho que não há uma mudança cultural de monta que eu tenha afectado, mas espero ter contribuído para relaxar as coisas e ter ajudado os profissionais a tornarem-se mais pessoais. O designer Neville Brody disse-me, com a Ray Gun na mão: “Levámos a imprensa o mais longe que podíamos. Isto é o fim, está na altura de passarmos a um novo meio. Esta revista representa o fim da imprensa. Já tentámos tudo.” Nunca acreditei nisso, mas pareceu-me um bom título para o livro [The End of Print]. Agora voltei a pensar que, se não foi o fim da imprensa, foi o canto de cisne da imprensa, porque não houve nada a criar o amor, o ódio, a discussão, as palestras e os artigos que ela gerou desde então, e já passou muito tempo.