Pais usam crianças em onda de atentados suicidas na Indonésia

Uma criança de oito anos ia sentada entre o pai e a mãe numa motorizada. Outras duas, de nove e 12 anos, fizeram-se explodir numa igreja. O país está chocado: "Isto é desolador."

Surabaya, Joko Widodo, Igreja, Igreja Cristã
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Soldado guarda uma das igrejas atacadas em Surabaya,Soldado guarda uma das igrejas atacadas em Surabaya ROBERT RIZKY/EPA,ROBERT RIZKY/EPA

As imagens foram captadas pelas câmaras de segurança da esquadra da polícia de Surabaya, a segunda maior cidade da Indonésia: segundos depois de uma explosão, uma criança levanta-se do chão, atordoada, e dá alguns passos sem direcção certa por entre os corpos dos pais. O seu nome não foi divulgado, mas sabe-se que tem oito anos e que ia sentada entre o pai e a mãe na motorizada que o casal usou para cometer um atentado bombista à entrada da esquadra.

A explosão em Surabaya aconteceu às 8h50 desta segunda-feira, e foi a quinta provocada por três famílias com crianças em apenas dois dias. É um método de actuação nunca antes visto na Indonésia e que coloca uma pressão maior sobre a polícia para identificar e travar ameaças entre as multidões.

Ao todo, os ataques de domingo e segunda-feira fizeram 31 mortos, e 13 deles eram atacantes. A polícia aponta o dedo ao Jamaah Ansharut Daulah, uma coligação de vários grupos terroristas formada em 2015, que jurou fidelidade ao líder do Daesh, Abu Bakr al-Baghdadi. Um dos responsáveis pelos ataques de domingo e segunda-feira era um conhecido líder do Jamaah Ansharut Daulah em Java Oriental.

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Ataque à Igreja Católica de Santa Maria M Risyal Hidayat/Antara/REUTERS

"Esta manhã, uma família de cinco pessoas atacou a esquadra da polícia de Surabaya. Levavam uma menina com eles numa motorizada. Isto é desolador", disse o inspector-geral Machfud Arifin, citado pelo jornal indonésio Jakarta Post.

Colada à motorizada em que seguiam o casal e a menina de oito anos estava uma segunda motorizada, com outros dois filhos, ambos maiores de idade. A criança de oito anos foi a única sobrevivente da família, numa explosão que fez dez feridos, entre polícias e civis.

"Esperamos que a criança recupere", disse Frans Barung Mangera, porta-voz da polícia local. "Ela foi atirada ao ar cerca de três metros pelo impacto da explosão e depois caiu ao chão."

Nas imagens captadas pelas câmaras de segurança vê-se um homem a correr em direcção à criança, assim que ela se levanta, e a levá-la ao colo para longe do local da explosão.

Ataques contra igrejas

A onda de explosões provocadas por famílias em Surabaya e arredores começou na manhã de domingo. Os alvos foram três templos cristãos, numa cidade com 3,5 milhões de habitantes, onde as minorias religiosas têm muito peso: 85% são muçulmanos e 13% são cristãos.

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Parque de estacionamento de bicicletas destruído no ataque a uma das igreja Beawiharta/REUTERS

Por volta das 7h30, quando os fiéis começavam a sair da Igreja Católica de Santa Maria no final da primeira missa do dia, dois rapazes de 16 e 18 anos que circulavam numa motorizada tentaram forçar a entrada no parque de estacionamento, mas foram travados por um segurança. A explosão aconteceu poucos segundos depois e fez sete mortos – os dois atacantes, o segurança e outras quatro pessoas, entre elas uma criança.

Cinco minutos depois, e a cinco quilómetros de distância, num local de culto da Igreja Cristã Indonésia, a mãe e as duas irmãs dos autores do ataque na Igreja Católica de Santa Maria provocaram outro atentado. Segundo testemunhas, a primeira explosão aconteceu quando a mulher abraçou o segurança que tentava barrar-lhe a entrada. Poucos segundos depois, as suas duas filhas, de apenas nove e 12 anos, accionaram os explosivos que levavam escondidos debaixo das roupas. Neste caso, as únicas vítimas mortais foram as atacantes – o segurança da igreja ficou com ferimentos muito graves e continua hospitalizado em estado crítico.

Finalmente, às 7h53, a pouco mais de um quilómetro do local onde a mulher e as duas filhas se fizeram explodir, um automóvel entrou a alta velocidade no parque de estacionamento da Igreja Pentecostal de Surabaya. A primeira explosão matou duas pessoas, uma delas o atacante, e uma segunda explosão matou outras cinco. Segundo a polícia, o responsável por este ataque é o pai das crianças envolvidas nos dois ataques anteriores.

Ligações ao Daesh

As investigações ainda estão a decorrer, mas a polícia indonésia já estabeleceu uma ligação entre os responsáveis pelos ataques e os terroristas do Jamaah Ansharut Daulah – o homem que participou nos ataques contra igrejas no domingo era o líder dos extremistas em Java Oriental e amigo do homem que se fez explodir com a mulher e a filha de oito anos na manhã de segunda-feira, à entrada da esquadra de polícia de Surabaya.

Esta segunda-feira, o Daesh reivindicou o ataque terrorista na esquadra, tal como já tinha feito no domingo em relação aos atentados contra igrejas na mesma cidade. Como é habitual, o grupo terrorista não apresenta provas de que teve algum envolvimento na preparação ou execução destes ataques em particular, mas assume a responsabilidade, por entender que é o seu apelo a uma guerra global pela instauração de um califado que desencadeia os ataques dos grupos que lhe juram fidelidade.

Entre os dois atentados terroristas em Surabaya, na manhã de domingo e na manhã de segunda-feira, registou-se uma outra explosão nos arredores da cidade, no domingo à noite. Mas, em vez de um ataque, o que aconteceu na região de Sidoarjo foi uma explosão não planeada que matou uma mãe e a sua filha de 17 anos – a polícia viria a matar o pai, que segurava nas mãos um detonador, e três crianças da mesma família escaparam ilesas.

"Cenário de pesadelo"

Esta onda de ataques pode também estar ligada a um motim organizado por militantes extremistas numa prisão de Jacarta, na semana passada, que fez seis mortos entre o corpo de intervenção da polícia. Alguns analistas consideram que essa revolta, promovida em resposta à prisão de vários líderes do Jamaah Ansharut Daulah, serviu para marcar o início de uma onda de ataques, de que os atentados em Surabaya podem ter sido apenas o início.

"É preciso recuar uma década para encontrarmos este nível de coordenação e de intensidade. O facto de os ataques estarem ligados ao Jamaah Ansharut Daulah e ao Daesh é muito significativo", disse à Bloomberg News Greg Barton, especialista em contraterrorismo e professor na Universidade de Deakin, na Austrália.

O que pode estar em causa, segundo Barton, é "um cenário de pesadelo" para a Indonésia, com o regresso ao país de centenas de combatentes indonésios do Daesh.

Perante esta onda de atentados cometidos por famílias, com várias crianças usadas como atacantes, o Presidente da Indonésia, Joko Widodo, chamou "covardes" aos responsáveis e prometeu fazer aprovar uma nova lei antiterrorista que está parada no Parlamento desde 2016 devido às críticas de organizações de defesa dos direitos humanos e da privacidade.

Quando essa lei entrar em vigor, a polícia terá mais poder para deter suspeitos e para mantê-los na prisão até seis meses sem qualquer acusação, por exemplo. Mas também há propostas mais consensuais na sociedade indonésia – o Governo quer criminalizar a ida de indonésios para o estrangeiro com o objectivo de se juntarem a organizações terroristas.

"Estamos a falar de uma cobertura essencial para que a polícia possa desenvolver acções firmes em termos de prevenção. Se isso não for aprovado até Junho, serei eu a decretar a entrada em vigor da nova lei", disse Widodo.