Crítica

O que vemos sem saber para onde vamos?

Reencontrando o seu lugar na composição coreográfica e na metodologia que ele próprio desenvolveu, João Fiadeiro regressa com uma peça que nos recorda a necessária atenção para o escrutínio do presente.

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JOSÉ CALDEIRA
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Homo sapiens, Comportamento humano
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Sobre um espaço cénico abstracto que une palco e fundo, com desníveis que se desvendam ao longo da performance, a nova peça de João Fiadeiro inicia-se com a entrada progressiva de cinco performers, que habitam cinco universos cinematográficos diferentes, cada um activado por um dispositivo sonoro que lhes condiciona o movimento e os posiciona num determinado espaço e tempo. From afar it was an island (1972) é o título de um livro para crianças do designer italiano Bruno Munari que apela à atenção para as pequenas coisas e à capacidade da imaginação para expandir objectos banais, como as pedras, em ilhas, montanhas, oceanos ou selvas. Fiadeiro apropriou-se deste título para nomear a sua mais recente coreografia, que teve estreia no Festival DDD – Dias da Dança, introduzindo-lhe a temporalidade da atenção, e interpelando o espectador a implicar-se numa trama coreográfica estruturada a partir da montagem de imagens cinematográficas, simultaneamente relacionais e dissonantes no sentido, na linguagem e no movimento.

Trata-se de uma coreografia que opera em modo de jogo. As primeiras cinco jogadas lançam o mote para a montagem visual e performativa que se segue até ao final da peça, combinando excertos de mais de uma centena de filmes – uma montagem em que o último frame de uma cena constitui o primeiro frame da próxima, e em que os performers incorporam e atravessam diversos contextos, destabilizando a sua individualidade e a legibilidade do todo. Partindo da colaboração com o dramaturgo Leonardo Mouramateus, a selecção dos filmes pautou-se pela transversalidade geográfica, geracional e de género, citando obras mais icónicas, como as de João César Monteiro, Hitchcock ou Fassbinder, mas também outras de Claire Denis, Agnès Varda, Chantal Akerman ou de cineastas asiáticos e africanos.

Não obstante o facto de cada cena se relacionar com a antecedente, a linearidade narrativa do dispositivo teatral é desconstruída, a montagem torna-se um instrumento de abstracção de sentido, e o desenho sonoro de Jonathan Saldanha um agente meticuloso de amplificação de gestos que de outra forma seriam imperceptíveis. O espectador é convocado para um duplo movimento de distanciamento e aproximação, na tentativa de tecer as relações desconexas entre aquilo que observa e o amplo espectro de linguagem falada que vai do inglês ao espanhol, passando por francês, alemão, coreano, entre outros. Desta mimetização resulta um território estranho e fugitivo, entre dança, teatro e cinema, que embora fazendo referência a situações muito variáveis (conflito, disputa, amor ou sedução) não se fixa em estruturas de sentido consolidadas.

Figura proeminente da Nova Dança Portuguesa da década de 90, fundador da estrutura de criação e investigação RE.AL, a obra coreográfica de João Fiadeiro destacou-se pela singularidade da sua metodologia de Composição em Tempo Real (CTR), uma ferramenta teórico-prática de improvisação em performance que investiga os processos de reacção, decisão e composição, e que decorre de um encontro com o(s) outro(s) num determinado espaço e tempo. Entre 2011 e 2014, uma colaboração formal entre a estrutura RE.AL de Fiadeiro e a antropóloga Fernanda Eugénio e seu método AND (que emerge de modos de fazer da antropologia e performance e das inquietações sobre “como viver juntos?” e “como não ter uma ideia?”) teve expressão pública, nomeadamente, nas conferências-performance Secalharidade (2012) e O Jogo das Perguntas (2013).

Reencontrando o seu lugar na composição coreográfica e na metodologia do autor, ainda que com autoria partilhada, a CTR e as criações de Fiadeiro reiteram a contaminação estético-ética, e voltam a questionar nesta obra “como podemos estar juntos sem saber para onde vamos?”. Contudo, o processo criativo de From afar it was an island, ancorado na escolha criteriosa de imagens e na sua tradução em material coreográfico, não impede a cristalização do que observamos, e não se liberta da representação de estereótipos e da tendência para o reconhecimento que o espectador delas faz, limitando a potencialidade da especulação.

Interessante é a diluição da individualidade dos performers e suas personagens na porosidade da relação com os outros e na permeabilidade entre cenas. A fragmentação dramatúrgica que exige ao espectador um constante reposicionamento relacional sublinha a permanente instabilidade do real que nos chega de um modo incessante através de redes de imagens e de informação cuja veracidade é cada vez mais difícil de validar. Uma obra num tempo desconexo que nos recorda a necessária atenção para o escrutínio do presente.