Trump quer uma mulher à frente da CIA, mas Gina Haspel traz com ela o fantasma da tortura

Mais do que ser uma escolha do Presidente norte-americano, Gina Haspel representa um momento negro da história da agência. O Senado vai ouvi-la esta quarta-feira, e até a Casa Branca teme uma derrota.

Foto
Haspel foi agente clandestina durante três décadas Reuters/JONATHAN ERNST

Em mais de 30 anos na CIA, quase todos vividos como agente clandestina em zonas do globo marcadas pela violência e pela morte, a agente Gina Haspel foi muito mais do que uma operacional competente. Em certa medida, o passado da mulher que o Presidente norte-americano escolheu para ser a próxima directora da poderosa agência de espionagem representa a ideia de que não existem limites no combate armado contra os inimigos do país – e é por isso que a sua audição no Senado, esta quarta-feira, se tornou num dos combates políticos mais sensíveis na luta entre o Partido Republicano e o Partido Democrata na era de Donald Trump.

Pouco se sabe sobre as inúmeras campanhas em que a actual directora-adjunta da CIA participou em mais de três décadas como agente do serviço de operações clandestinas, mas há uma que ficou tão conhecida que deu origem a um relatório do Senado com mais de 6000 páginas, concluído ao fim de cinco anos de investigações e com um custo avaliado em 40 milhões de dólares – o famoso relatório da Comissão de Serviços Secretos do Senado sobre a prática de tortura pela CIA, aprovado em Dezembro de 2012 e parcialmente divulgado em Dezembro de 2014.

Mais de uma década antes, poucos meses depois dos atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 nos EUA, Gina Haspel estava colocada na Tailândia, onde coordenava uma das prisões secretas da CIA criadas por ordem da Administração Bush para deter e interrogar suspeitos de terrorismo.

E foi sob a supervisão de Haspel que pelo menos dois suspeitos foram torturados nessa prisão secreta da CIA na Tailândia – Zayn al-Abidin Muhammed Hussein, mais conhecido como Abu Zubaida, e Abd al-Rahim al-Nashiri.

As 525 páginas conhecidas do relatório do Senado detalham as "técnicas avançadas de interrogatório" que alguns agentes usaram para tentarem extrair informações de Zubaida e de al-Nashiri, e também as consequências para os suspeitos dessas técnicas, como o waterboarding (simulação de afogamento), a alimentação rectal forçada, o confinamento prolongado em caixas pouco maiores do que caixões ou a privação do sono até 96 horas consecutivas.

Mas a reacção a esses interrogatórios por parte de outros agentes da CIA, incomodados com a violência das técnicas, ilustra melhor a dimensão do que se passava na prisão gerida por Gina Haspel. A partir de e-mails e memorandos internos, o relatório diz que "vários [agentes] da equipa ficaram profundamente afectados (…), alguns deles ao ponto de terem chorado".

"Guerra ao Terrorismo"

A escolha de Haspel para liderar a CIA é criticada por organizações de defesa dos direitos humanos não só pelo seu envolvimento nos interrogatórios, mas também por um caso que aconteceu em 2005, quando a agente já tinha saído da Tailândia para chefiar o gabinete do responsável pelas operações clandestinas da CIA, Jose Rodriguez. Nesse ano, Haspel e Rodriguez ordenaram a destruição de filmagens de interrogatórios aos suspeitos de pertencerem à Al-Qaeda, impedindo que os métodos usados pudessem ser avaliados por comissões independentes.

Aqui há duas versões sobre os passos dessa decisão. De um lado, os defensores de Haspel apoiam-se numa investigação interna da CIA, de 2011, que retrata a agente como mera redactora de uma decisão do seu superior, Jose Rodriguez; do outro lado, os seus críticos apontam para um livro escrito por John Rizzo, antigo advogado da CIA, que retrata Haspel como uma voz fundamental para que essa decisão tivesse sido tomada: "Jose e a sua chefe de gabinete não paravam de vir falar comigo", escreveu Rizzo. Ainda assim, o antigo advogado diz que Haspel estaria convencida de que o seu superior iria pedir a aprovação do então director da CIA, Porter Goss, o que não aconteceu.

No auge do trauma provocado pelos atentados terroristas contra o World Trade Center e o Pentágono, que fizeram quase 3000 mortos, coube à CIA executar uma das três vertentes da política a que o então Presidente norte-americano chamou "Guerra ao Terrorismo": em casa, tentava-se facilitar a descoberta e detenção de suspeitos pelo FBI e outras forças de segurança através do Patriot Act; no estrangeiro, a CIA apanhava suspeitos e levava-os para várias prisões secretas espalhadas pelo mundo; no Afeganistão cabia às Forças Armadas esmagar a Al-Qaeda de Osama bin Laden e afastar do poder o movimento taliban, seu protector.

Durante anos, a maioria do povo norte-americano e dos congressistas de ambos os partidos foi resistindo a questionar o uso de tortura pela CIA, num ambiente em que qualquer crítica contra as autoridades do país era vista como uma atitude antipatriótica – só em 2014, com o relatório do Senado, começou a falar-se de tortura, não só de "técnicas avançadas de interrogatório".

E não foram só as palavras que mudaram: em Dezembro de 2014, no dia em que o relatório foi divulgado, jornais como o Washington Post titulavam que o programa da CIA, entre 2001 e 2006, tinha sido marcado por "brutalidade" e "desonestidade". Não só os métodos de interrogatório foram de uma violência extrema, como a informação extraída com base nesses interrogatórios não serviu para travar a execução de um único atentado terrorista, nem para deter importantes líderes da Al-Qaeda – quando isso aconteceu, a CIA obteve as informações necessárias por outros meios.

Feridas abertas

Quase uma década depois de o Presidente Barack Obama ter ilegalizado as "técnicas avançadas de interrogatório" usadas pela CIA entre 2001 e 2006, esse passado com muitas feridas abertas voltou no dia 13 de Março para agitar o Congresso, quando Trump anunciou a nomeação de Gina Haspel para chefiar a CIA.

Apesar de Haspel ser directora-adjunta da agência há mais de um ano, e de ser reconhecida pelos seus colegas como a pessoa mais bem preparada para suceder no cargo ao novo secretário de Estado, Mike Pompeo, a escolha de uma figura tão intimamente ligada aos casos de tortura é difícil de engolir pelo Partido Democrata. Mais do que uma simples decisão sobre se devem ou não apoiar uma escolha do Presidente Trump, os senadores democratas estão a ser pressionados para não colaborarem com "um regresso ao futuro ou um avanço em direcção ao passado", nas palavras de Maya Foa, directora da organização não-governamental Reprieve.

O que vai acontecer esta quarta-feira é o primeiro passo no caminho de Gina Haspel até ao topo da CIA – depois da audição, onde será confrontada pelo Partido Democrata com o seu passado ligado ao programa de tortura da CIA, Haspel terá ainda de ser aprovada no plenário do Senado.

Se todos os senadores do Partido Democrata votarem contra Haspel, isso poderá não ser suficiente para travar a escolha do Presidente para a liderança da CIA. Como o Partido Democrata só pode contar com um máximo de 49 votos (47 mais dois independentes) e o Partido Republicano tem uma maioria de 51 senadores, a votação parece estar decidida à partida.

Só que no lado do Partido Republicano estão John McCain e Rand Paul, dois senadores que têm verbalizado o seu repúdio pelo uso de tortura em qualquer situação – McCain é mesmo um conhecido activista anti-tortura, tendo sido torturado durante o seu cativeiro na guerra do Vietname.

À partida, McCain não participará na votação no Senado devido ao seu afastamento por doença, o que não deixa aos republicanos muito espaço para perderem o voto de Rand Paul – se isso acontecer, terá de ser o vice-presidente, Mike Pence, a desempatar a votação na qualidade de presidente do Senado por inerência.

Em Março, Rand Paul escreveu um artigo sobre a nomeação de Gina Haspel que deixaria poucas dúvidas sobre o sentido do seu voto, não tivesse o senador do Kentucky mudado de opinião em poucas horas no caso da nomeação de Mike Pompeo para secretário de Estado, em Abril – nessa altura, depois de quase ter garantido que iria reprovar a nomeação de Pompeo, Paul acabou por dar o seu voto positivo em cima da hora, depois de ter ouvido do Presidente Trump que a guerra no Iraque "foi um erro", que "a mudança de regime desestabilizou a região" e que "o envolvimento dos EUA na guerra no Afeganistão tem de acabar".

Naquele artigo sobre Gina Haspel, publicano no site da revista Politico, Paul cita uma passagem do discurso de McCain em Dezembro de 2014, após a divulgação do relatório do Senado sobre a tortura na CIA: "Os nossos inimigos agem sem consciência. Este sumário do relatório deixa claro que agir sem consciência não é necessário, e não é sequer útil, nesta estranha e longa guerra que travamos."

No final, o senador republicano exige que a CIA divulgue publicamente toda a história de Gina Haspel no auge da chamada "Guerra ao Terrorismo", algo que ainda não aconteceu, a poucas horas da audição. "O que se sabe é que Haspel participou num programa que viola os ideais deste país. Destruiu provas em desafio dos nossos ideais. Simplesmente não acho que ela deva representar a função para a qual foi nomeada", disse Rand Paul.

Dúvidas na Casa Branca

Num sinal de que a confirmação de Gina Haspel como directora da CIA pode mesmo estar em perigo, a actual directora-adjunta da agência de espionagem ofereceu-se para desistir do processo de nomeação na passada sexta-feira. De acordo com o jornal Washington Post, Haspel ficou incomodada com algumas das perguntas adicionais da Casa Branca sobre o seu passado – e o facto de a Casa Branca estar interessada em esclarecer mais questões indica que ainda há senadores suficientes no Partido Republicano com dúvidas sobre o seu voto.

Mas no sábado, Gina Haspel já tinha decidido manter-se na corrida pela chefia da CIA, depois de ter sido visitada pela porta-voz da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders. E o Presidente manifestou-lhe o seu apoio, depois de ter afirmado, num primeiro momento, que iria respeitar qualquer que fosse a sua decisão, segundo a CNN – uma hesitação que não é comum em Trump.

Esta segunda-feira, Trump defendeu Haspel no Twitter, com uma escolha de palavras que provocou uma onda de críticas do Partido Democrata e de várias organizações de defesa dos direitos humanos: "A minha muito respeitada nomeada para directora da CIA, Gina Haspel, está debaixo de fogo porque foi muito dura com terroristas. Pensem nisso: nestes tempos tão perigosos, temos a pessoa mais qualificada, uma mulher, que os democratas querem afastar porque é muito dura com o terrorismo."