Opinião

Maio 68-Primavera 2018: o mesmo combate?

Muitas revoluções e movimentos sociais se perderam ao tentar imitar o passado. Invocar Maio 68 a propósito das actuais contestações francesas é uma ideia peregrina. Revela ignorância sobre Maio e sobre os problemas da Europa contemporânea.

Há ideias e nostalgias que revelam que muitos contemporâneos não têm a noção das sociedades em que vivem. No 50.º aniversário do Maio 68, há franceses que não resistem à sedução das repetições da História, mesmo que em versão de farsa. “50 anos depois, vão os estudantes refazer o Maio 68?”, interrogava-se o site da cadeia de televisão LCI, a 13 de Abril. E respondia: “Não podemos deixar de pensar nisso.” O mês de Abril foi marcado por uma vaga de contestação estudantil centrada no tema da “selecção” e do acesso ao ensino superior. Foram ocupadas universidades. O movimento ainda se mantém, embora crescentemente isolado.

Argumentava a LCI que o relativo desconhecimento dos acontecimentos de há 50 anos não impedia que Maio não tivesse novos herdeiros: “Uma analogia tentadora, tanto mais que, como em Maio 68, os estudantes estão em cólera e que, como na época, emergem outros movimentos de descontentamento social: ontem os operários, hoje os SNCF e a função pública.”

A par dos estudantes, os trabalhadores dos SNCF (caminhos-de-ferro franceses) lutam contra a reforma da empresa. Em vez de greve geral, fazem a chamada grève perlé, paragens irregulares e acções para baixar a produtividade. É mais económico para os sindicatos. O 1.º de Maio deste ano foi marcado pela divisão dos sindicatos e pela irrupção de 1200 “black-blocs” que fizeram os estragos do costume, destruindo lojas e mobiliário urbano. Está marcada para hoje uma “Festa de Macron”, lançada pelos adeptos de Mélenchon, para comemorar em estilo carnavalesco o aniversário da eleição do Presidente (7 de Maio), com bonecos de “Macron-Júpiter” e “Macron-Drácula”. O objectivo, proclamam, é unir estudantes, ferroviários e funcionários públicos numa frente comum.

“Pequenas” diferenças

Esta história francesa não mereceria qualquer reflexão se não revelasse, mais do que ignorância do passado, a inconsciência perante os problemas das sociedades contemporâneas europeias. Não é uma questão quantitativa. Comparar as mobilizações de hoje com os “números” de Maio 68 seria ridículo: durante semanas centenas de milhares de pessoas desceram à rua em Paris — mais de um milhão nas cidades francesas. Estudantes desfilavam ao lado de operários e cidadãos em geral. Os intelectuais seguiram-nos. A revolta estudantil “coincidiu” com a maior vaga grevista da História francesa — 9 milhões de trabalhadores — na maior parte dos casos em greves de ocupação das empresas.

Há outra realidade mais importante: o movimento de Maio só é concebível numa sociedade de abundância e em crescimento — o auge dos “Trinta Gloriosos”. É um movimento ofensivo, de conquista, cujas reivindicações poderiam ter o céu como limite. Ao contrário, a generalidade das lutas de hoje na Europa são defensivas, visam manter o statu quo, defender “direitos adquiridos” ou identidades, contra coisas como a globalização e as reformas de resposta à mesma globalização. E o sindicalismo francês está mergulhado num perigoso declínio.

Maio 68 terminou em dois momentos. Primeiro com os acordos de Grenelle, negociados a 25 e 26 de Maio, entre o Governo e os sindicatos, em que os trabalhadores obtiveram uma inimaginável vitória, em termos salariais e de horário, mas também de liberdades: foi consagrada a criação dos comités sindicais de empresa. Com Grenelle, termina progressivamente a greve geral. Politicamente, Maio 68 termina com esmagadora vitória gaullista nas eleições de 23 e 30 de Junho. O derradeiro eco de Maio na classe operária será a ocupação e autogestão da Lip (fábrica de relógios) em 1973.

Um fenómeno mundial

Em segundo lugar, Maio 68 não é um fenómeno francês, ainda que, por muitas razões, tenha sido o mais célebre e influente. Foi um fenómeno internacional e que teve um eco mundial. Podemos encontrar uma origem na América, nos protestos dos estudantes de Berkeley, o Free Speech Movement de 1964, pela liberdade de acção política, designadamente em relação à Guerra do Vietname ou à luta pelos direitos cívicos.

O contexto internacional motivava os jovens. A Alemanha e a Itália foram palcos privilegiados da contestação estudantil. Na Alemanha, em torno dos protestos contra a Guerra do Vietname ou de solidariedade com os palestinianos: mas o movimento foi rapidamente destruído pela tragédia do terrorismo. O mesmo sucedeu na Itália, em que também o terrorismo acabou por liquidar o movimento. No México, dezenas de estudantes foram massacrados na véspera do Jogos Olímpicos de 1968. Na Polónia, sob regime comunista, houve um vigoroso movimento estudantil pela liberdade de expressão. Sem falar na Checoslováquia, onde a experiência de liberalização do regime comunista foi esmagada pelos tanques soviéticos.

A irrupção da juventude no espaço público é um factor comum a todos estes movimentos, marcados por uma contestação sobretudo cultural. Como frisou o sociólogo Alain Touraine, os movimentos sociais vão deslocar-se “do social para o cultural”. Sublinha ainda que o Maio 68 francês “nunca foi, em si mesmo, um movimento político.” Nem teve uma verdadeira unidade, antes diversidade. “A unidade estava no imaginário e na cultura, não num projecto político. (...) O impacto político de Maio 68 foi nulo. A sua influência intelectual foi negativa: inversamente, em matéria social e cultural foi, e permanece, extremamente importante.” Deixou uma marca profunda na sociedade e nas mentalidades, tema polémico que não cabe aqui abordar.

A contestação a Macron

Voltando ao princípio. Macron tem um programa de modernização da França. As reformas económicas e sociais são as mais difíceis. A cultura dos “direitos adquiridos” está profundamente enraizada. Para a “esquerda da esquerda”, para os sindicatos de contestação e para numerosos grupos de pressão, “é uma questão de vida ou de morte”. Têm uma elevada tradição de bloqueio e está em jogo o seu poder.

Apesar da solidez da sua posição política, Macron está confrontado com a “cólera” dos perdedores da globalização e do progresso tecnológico. Resumiu o economista Charles Wyplosz: “Para Mélenchon (...) o inimigo nunca foi a Frente Nacional, mas Macron. A sua política toca dois domínios que atingem o coração do programa da ‘esquerda da esquerda’: a imperiosa necessidade de reformar a economia e a relação com a Europa.”

Muitas revoluções e movimentos sociais se perderam ao tentar imitar o passado. Neste confronto das reformas, invocar Maio 68 é uma ideia peregrina.