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Nuno Alvim é activista e presidente da Associação Vegetariana Portuguesa, um confesso idealista e também um nadinha realista

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Não vais mudar o mundo sozinho

“Mas tu achas que vais mesmo mudar o mundo sozinho?” é uma arma retórica com que não se aguarda uma resposta, mas se pretende aniquilar a motivação do outro para pensar e agir de forma diferente e oprimir-se a não conformidade

Podia argumentar-se que, em todas as épocas da humanidade, aqueles que tiveram e têm a irreverência de esbarrar nos costumes culturais de uma época — seja propondo uma ideia revolucionária e incompreendida ou opondo-se de algum modo aos costumes desse tempo — foram, em algum momento das suas vidas, confrontados com a sentença popular do pessimismo, com o prognóstico fatídico da impossibilidade de tudo a que se determinam.

Escutou-se, escuta-se e sempre se escutará, enquanto houver pessoas e sociedades, e valores e culturas que as regulam, os adágios intemporais do “Tu não vais mudar o mundo sozinho!” ou “Tu não fazes nenhuma diferença!”, que não são mais do que ecos de resistência, atritos numa engrenagem em constante movimento e transformação. Será porventura tão velho quanto a cultura em si, a resistência à sua mudança.

Os costumes e etiquetas que governam numa época e local são um mecanismo pelo qual estabelecemos uma conformidade às verdades morais dessa época e local, facilitando a integração de quem os segue e a marginalização do que se desvia em relação a eles. Quando há uma ausência desses valores reguladores, há aquilo que se chama anomia, conforme designou o sociólogo Émile Durkheim. Um rompimento com as normas e costumes de uma época ameaçam anomia e, por isso, são tão frequentemente olhados de esguelha, com desprezo e estigma.

À primeira vista, não parece haver lugar para o desvio, no entanto, uma sociedade saudável tem que acomodar a diferença, pois nenhuma cultura pode manter-se estática. Assim, faz sentido distinguir entre um desvio anómico, que conduz à desregulação ou ao caos moral, e o desvio nómico, que conduz à transformação edificante, em direcção a um novo padrão de cultura. Essa revisão da cultura inicia-se frequentemente com um único pensamento diferente. Como diria o músico e cinematógrafo Frank Zappa: “Sem o desvio à norma, o progresso não seria possível.” E a história das culturas humanas é a melhor evidência disso. O desvio permite-nos evoluir moralmente como civilização.

Henry David Thoreau insistia que devemos, acima de tudo, ter um compromisso com o que achamos ser moralmente correcto e não com a lei ou o que é considerado legal, que nem sempre exprime justiça, ou pode ser considerado aceitável.

Mas o desvio raras vezes é aceite e socialmente legitimado; é combatido e marginalizado. E embora se pregue idealisticamente que devemos ser a mudança que queremos ver no mundo, os agentes da transformação, com igual incentivo, também desencorajam a que sejamos os agentes da transformação. Somos exortados a mudar o mundo, menos, claro, quando mudar o mundo implica mudarmos hábitos a que nos conformamos colectivamente e dos quais retiramos prazer e conforto, mesmo que a custo do desconforto de outros.

Aí surge a necessidade de fazer uma desvalorização dos objectivos e posição do outro, ou o que se entende ser um apelo à realidade. “Mas tu achas que vais mesmo mudar o mundo sozinho?” é uma arma retórica com que não se aguarda uma resposta, mas se pretende aniquilar a motivação do outro para pensar e agir de forma diferente e oprimir-se a não conformidade. Utilizou-se, utiliza-se e será utilizado ainda muitas vezes por aqueles que, em dependência viciosa, desesperam por legitimar um hábito envelhecido, já a entrar em obsolescência.

A inevitabilidade que os nossos actos representam apenas a nós é evidente. Enquanto fazemos parte de uma sociedade, estamos integrados num colectivo de pessoas e a mudança activa das pessoas é uma pré-condição da mudança na sociedade. De um modo idêntico, democraticamente, cada um apenas pode votar uma vez, mas um indivíduo é eleito por um conjunto de votos individuais.

Não se caia no erro de pensar que a acção individual é irrelevante, pois é o limite do nosso espectro de comportamento. Pelo exemplo, influenciamos e somos agentes de mudança. E nunca o empenho de um só na mudança por uma causa justa será um retrocesso. O mundo não permanecerá estático mesmo havendo uma só pessoa determinada a revolucioná-lo, terá necessariamente que mudar, ainda que na mais pequena das medidas. E, para alguém, isso fará toda a diferença.