Tesoureiro do Vaticano enfrenta julgamento histórico por abusos sexuais

O cardeal australiano George Pell, conselheiro do Papa Francisco, é o católico mais graduado até agora a ter de responder em tribunal por crimes sexuais. Pell vai declarar-se inocente de todas as acusações. O Vaticano não faz comentários, lembrando apenas que o cardeal se encontra de licença para se defender.

George Pell à saàda do tribunal, depois de ver confirmada a acusação
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George Pell à saàda do tribunal, depois de ver confirmada a acusação LUSA/JOE CASTRO

O cardeal George Pell, o católico mais graduado da Austrália e o tesoureiro do Vaticano em Roma, viu nesta terça-feira algumas acusações de abusos sexuais serem confirmadas pelo tribunal de Melbourne (Austrália), que declarou o prosseguimento do caso para julgamento. No final da audiência onde ouviu esta decisão, Pell declarou-se inocente de todas as acusações.

A decisão de enviar o caso de Pell para julgamento será um choque para a Igreja Católica, que há décadas enfrenta acusações de abuso dentro do seu clero, com milhares de casos revelados em todo o mundo que já levaram a investigações e condenações em países como Estados Unidos, Canadá, Irlanda e Austrália. Agora, com esta acusação formal, chega à cúpula do Vaticano. O cardeal australiano, de 76 anos, é um dos nove membros do Conselho dos Cardeais dirigentes da Igreja Católica, escolhido pelo Papa Francisco, e considerado o número três da Igreja Católica.

George Pell foi acusado em Junho passado e recebeu permissão do Papa Francisco para contestar as acusações no seu país natal. Quando as primeiras notícias sobre os abusos sexuais apareceram em 2016, o Papa enfatizou que “devemos evitar veredictos da imprensa baseado em rumores”. “O caso está nas mãos do sistema de justiça e não se pode julgar antes do sistema de justiça. Depois do sistema de justiça falar, falarei”, afirmou então.

Nesta terça-feira, o Vaticano lembrou que ainda decorre a licença de um ano concedida ao cardeal para que se possa defender, na sequência das acusações de abusos sexuais. “A Santa Sé tomou nota da decisão emitida pelas autoridades judiciais na Austrália a respeito de Sua Eminência, o cardeal George Pell. No ano passado, o Santo Padre concedeu ao cardeal Pell uma licença para que se pudesse defender das acusações. A licença ainda está em vigor”, refere o Vaticano numa nota publicada no seu site, segundo a Lusa.

A data de julgamento ainda não foi marcada. Um comunicado divulgado pelo escritório de advocacia Galbally e O'Bryan nesta terça-feira disse que Pell gostaria de agradecer aos seus apoiantes o seu “apoio contínuo e orações”. “Ele vai defender-se de todas as acusações restantes”, diz o comunicado, citado pela CNN.

As acusações diziam respeito a alegados abusos sexuais a várias vítimas ao longo de três décadas na Austrália e incluíam episódios que supostamente aconteceram numa piscina na área rural de Victoria nos anos 1970 e na Catedral de St. Patrick, durante o tempo de Pell como Arcebispo de Melbourne na década de 1990.

Muitas acusações ficaram pelo caminho

A magistrada Belinda Wallington proferiu a decisão de enviar o caso para julgamento após uma audiência que durou quase um mês, entre Março e Abril. Muitas das alegações mais graves foram rejeitadas, por terem sido sustentadas por testemunhas descritas como não confiáveis e sem credibilidade. Mas várias acusações foram confirmadas, embora não sejam conhecidos os seus contornos por motivos legais.

De acordo com o jornal britânico The Guardian, durante as audições, a juíza tinha dito que, se as provas não tivessem peso suficiente para apoiar uma condenação, esta não iria acontecer. Se a credibilidade de uma testemunha fosse destruída durante uma denúncia, a sua alegação não poderia ir a julgamento, afirmou. Várias acusações foram retiradas durante a audiência.

Um grupo de acusações relacionadas com um único queixoso caiu, quando o tribunal descobriu fragilidades no relato da testemunha. As infracções teriam ocorrido por mais de 12 meses e o queixoso alegou ter sido retirado da casa dos meninos de St. Joseph e do seu dormitório, e levado para os locais onde alegava que os abusos tinham ocorrido. Mas a juíza descobriu que essa série de delitos não poderia ter ocorrido no período referido, a partir do final de Setembro de 1978, porque os registos mostravam que o queixoso não morava naquela casa durante esse período.

A sua própria mãe adoptiva sustentou que o queixoso não morava na casa dos meninos durante esse período. "Neste caso, as inconsistências devem ser examinadas como um defeito fundamental na prova", afirmou a magistrada, que considerou prejudicada a fiabilidade do queixoso.

Outra alegação apresentada por outra suposta vítima também foi rejeitada por Wallington. O autor da denúncia tinha uma "atitude arrogante" em relação ao tribunal, considerou a juíza, apontado a aparente falta de memória do queixoso, que às vezes evitava responder a perguntas. “Será muito difícil a um júri condenar o arguido com base no depoimento de um homem que não se consegue lembrar do que disse há um minuto", disse a magistrada, mesmo tendo em conta o nervosismo inerente à presença em tribunal.

Mas foram várias as queixas consideradas pelo tribunal como sustentáveis em julgamento. Trata-se de um conjunto de acusações de abusos sexuais relacionados com supostos delitos cometidos contra duas vítimas entre Julho de 1996 e Dezembro de 1997, que a imprensa não pode divulgar por imposição da lei australiana.

Durante todas as sessões da audiência preliminar, Pell sentava-se todos os dias no mesmo lugar do tribunal, com a cabeça baixa, às vezes tomando notas, e sempre com a mesma roupa: calças pretas, camisa preta e um casaco bege. Os primeiros dias desta audiência, enquanto os queixosos apresentaram provas, decorreram à porta fechada - um procedimento padrão para casos envolvendo alegações de crimes sexuais.

Quando a audiência foi reaberta à imprensa e ao público, o advogado de defesa de Pell, Robert Richter, interrogou ex-meninos de coro e funcionários da catedral de St Patrick em Melbourne, polícias graduados, familiares de queixosos e funcionários de outros locais onde alegadamente foram cometidos abusos.