No terceiro dia as manifestações contra sentença de La Manada juntaram 32 mil pessoas em Pamplona

A manifestação foi convocada por vários colectivos feministas. Entre os 32 mil manifestantes, estiveram representantes dos partidos de esquerda e centro-esquerda bascos Geroa Bai, EH Bildu, Podemos, Partido Socialista Navarro e Izquierda-Ezkerra.

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A manifestação de quinta-feira
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A manifestação de quinta-feira LUSA/JESUS DIGES

Ao terceiro dia consecutivo de manifestações, a população de Pamplona, Navarra, continuou a sair à rua em massa. No sábado, juntaram-se 32 mil pessoas, de acordo com os números das autoridades locais, sob o mote “Não é abuso sexual, é violação: nós acreditamos em ti”, em referência à raapriga de 18 anos que foi abusada sexualmente por cinco homens durante as festas de San Fermín, em 2016.

A manifestação de sábado foi convocada por vários colectivos feministas, que pretendiam mostrar a sua desaprovação em relação ao texto actual do Código Penal, à interpretação que dele fizeram os juízes que julgaram o caso e à sociedade patriarcal. Em causa está a sentença do colectivo de juízes navarros, que entenderam que os crimes praticados por cinco homens, acusados de violar a jovem de Madrid, nas festas de San Fermín em Pamplona, em 2016, não contemplam a violação, mas apenas um “abuso sexual continuado”, por não ter havido intimidação nem violência. Os cinco homens foram condenados a nove anos de prisão, mas foram ilibados da acusação de violação. O Ministério Público já anunciou que vai recorrer da sentença.

Partindo do Palácio da Justiça de Navarra, onde a sentença foi lida na passada quinta-feira, e percorrendo um percurso com pouco mais de um quilómetro e meio, as ruas da cidade basca encheram-se de negro, cor predominante das roupas dos manifestantes. “Aqui está a tua manada”, “Se tocam numa, respondemos todas”, ou “Não estamos todas, falta Nagore”, em referência à jovem basca Nagore Laffage, morta em Pamplona em Julho de 2008 por recusar-se a ter relações sexuais com Diego Yallanes, foram as palavras de ordem da tarde. A manifestação contou com responsáveis de partidos de esquerda e centro-esquerda bascos, como o Geroa Bai, o EH Bildu, o Podemos, o Partido Socialista Navarro e o Izquierda-Ezkerra.

Uxua Álvarez, do movimento feminista de Iruña, no País Basco, disse ao El País que esta manifestação era uma resposta à sentença do colectivo de juízes, mas também de reprovação à “violência patriarcal de que sofrem as mulheres”. “Não há que colocar o foco nesta agressão porque acontece todos os dias e invisibiliza-se”. No caso específico da Manada, a responsável pelo movimento argumenta que “há muitas incoerências” na sentença, e que decisões como esta “culpabilizam e desprotegem” a mulher.

“A profunda rejeição” da direita e da esquerda

Também neste sábado, os adeptos do Osasuna, clube de Pamplona que jogou em casa contra o Lugo, entoaram, por duas vezes o cântico “não é abuso, é violação”.

Apesar de não terem estado presentes nas demonstrações de Pamplona, várias outras figuras políticas manifestaram-se sobre o caso. Javier Maroto do Partido Popular manifestou a sua “profunda rejeição” e Albert Rivera, líder do Ciudadanos, escreveu no Twitter que como cidadão e pai lhe custava “assumir” a falha da Justiça espanhola. À esquerda, Pedro Sanchéz questionou o que se “entende, então, por violação” e Pablo Iglesias, do Podemos, disse que a decisão lhe provocava “vergonha e nojo”. Adriana Lastra, vice-secretária-geral do PSOE, considerou “lamentável” a decisão dos juízes. “É o produto de uma cultura patriarcal e machista".

Nas redes sociais, começaram a partilhar-se histórias de agressões. Nasceu a hashtag #Cuentalo (ou “conta-o”, em português), onde se leem maioritariamente relatos na primeira pessoa de casos que dominaram a esfera mediática espanhola porque as protagonistas dessas histórias “já não podem contá-las”. Entre elas, a história de Diana Quer, sequestrada e assassinada em 2016

Ana Botín, presidente executiva do Banco Santander Espanha, usou o Twitter para avaliar a sentença judicial como “um passo atrás na segurança das mulheres”. Manuela Carmena, presidente da Câmara de Madrid também usou a rede social para criticar a decisão: “Não vai ao encontro dos pedidos das mulheres por mais justiça”. Carmena espera que a decisão seja revogada pelo Supremo Tribunal Espanhol.

Já as palavras de Patricia Plaja, responsável de comunicação dos Mossos D'Esquadra, valeram-lhe uma demissão. Por ter usado a sua conta de Twitter pessoal onde criticava a falha do "poder judicial, mais uma vez", a jornalista foi despedida do cargo que ocupava. Um porta-voz dos Mossos explicou que a decisão se deveu à perda de "confiança em Plaja por ter posto em causa o poder judicial espanhol", cita o La Vanguardia

A defesa da Associação de Procuradores

Numa nota, a Associação de Procuradores espanhola lamentou “a facilidade com que, em tantas ocasiões, se despreza o trabalho de juízes e procuradores e se fazem juízos paralelos”. A entidade criticou ainda a realização de “manifestações que carecem de rigor”. A associação aponta também o dedo à forma como o Governo e outras forças políticas anunciaram a revisão do Código Penal, com o objectivo de clarificar a tipificação de delitos contra a liberdade sexual. “Há sempre a tentação de se legislar sobre notícias”, escreveu a associação.

Também a Associação Profissional da Magistratura, a Associação Francisco de Vitoria e o Fórum Judicial Independente, associações de juízes espanholas, emitiram um comunicado na sexta-feira onde salientavam a “necessidade de respeitar” a sentença e o “trabalho dos três magistrados” e dos juízes que podem julgar o recurso.