Um hotel com (um) café no coração

De uma só vez, o Porto reencontra-se com um dos seus cafés históricos e ganha um novo hotel. O novo Pestana Porto - A Brasileira carrega o peso de um dos símbolos da cidade e perfuma-o com os cheiros dos descobrimentos.

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Nelson Garrido
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Mesmo quem nunca tomou o café original ainda poderá recordar-se do slogan “O melhor café é o da Brasileira”. A publicidade resistiu mais do que o café original: inaugurado em 1903 passou por convulsões e nos últimos tempos até era um Il Caffe di Roma. Mas tudo mudou. Novamente ostenta o nome A Brasileira, novamente se voltou às origens. Que é como quem diz a Minas Gerais, de onde Adriano Telles, o fundador, trazia os grãos de café que, pela primeira vez em Portugal, começou a ser servido em chávena.

Não vem exactamente do mesmo local, contudo, sendo o grande desafio respeitar (e, nesse processo, continuar, como veremos) a história d’ A Brasileira, tratou-se de buscar a maior proximidade possível da origem. Encontrou-se a 150 quilómetros de distância do original, o suficiente, asseguram os responsáveis, para nos levar de volta no tempo e nos fazer sentir o mesmo que os clientes do café primitivo quando saboreavam a bebida — a saber, mínimo de acidez, notas pouco florais e mais achocolatadas e algum amargor.

É um blend exclusivo para A Brasileira desenvolvido pela Vernazza Coffee Roasters, que não se poupou a esforços para reconstituir essa genealogia de sabores que tornaram o café aqui lendário e que tem provocado uma certa peregrinação de saudade (e, simultaneamente, de descoberta). E, sim, é diferente do café que normalmente bebemos em Portugal: este é arábica — e de especialidade, a grande aposta d’ A Brasileira, que em breve vai alargar a carta de cafés até à Etiópia e Colômbia, sempre single origin.

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É apropriado entrarmos no novo Pestana Porto – A Brasileira e ter uma pequena lição de cafés, como nos acontece. Ninguém consegue escapar ao seu passado e se este hotel até faz parte da Collections Hotels da cadeia Pestana (localizados em edifícios históricos) é porque antes do hotel houve café que, 115 anos após a sua fundação, há muito que integra o cada vez mais restrito grupo dos cafés históricos do Porto. A Brasileira voltou: em versão revista — e aumentada.

O hotel que agora abraça o café, abraça também a história de Portugal e exibe-se numa homenagem aos descobrimentos portugueses de que o café, a bebida, também faz parte. Não se surpreenda se no primeiro piso sentir um odor a café, ou se no quarto lhe chegar às narinas pimenta-rosa e, sim, é a canela que cheira no quinto: o tributo à epopeia marítima portuguesa é feito através das especiarias que os portugueses traziam para Europa. Se os barcos chegavam carregados delas, parece que em cada um dos pisos as descarregaram.

Além das já referidas, cacau, anis e chá apresentam-se numa experiência olfactiva, prolongada visualmente nos quartos, onde as cabeceiras da cama exibem fotografias XL, emolduradas em painéis que piscam o olho à Art Déco, que fazem referência à especiaria do andar. Esse é, aliás, o elemento mais marcante dos 89 quartos que constituem a oferta do hotel. A decoração sóbria, tanto nas cores como no mobiliário, tem ali o seu ponto de fuga: no nosso quarto, por exemplo, a pimenta-rosa parece sair da parede. E como estamos no quarto andar (de um total de seis) já estamos no grupo de quartos grand view, ou seja, para os telhados da cidade (em alguns com bónus, como a Torre dos Clérigos ou a Sé).

A circunspecção geral das partes privadas do hotel, que conta com um ginásio e salas de conferências, é quebrada por instalações artísticas feitas com antigos bidões usados para transportar especiarias que aqui surgem como elementos de art pop. Excessos technicolor a quebrar uma paleta de cores que se faz predominantemente em tons discretos de castanhos, beges e dourados — há um papel de parede que lembra mesmo a serapilheira dos sacos de café (os verdadeiros encontramos como almofadas no pequeno pátio instalado no saguão, em que uma das paredes é um jardim vertical). E café, sempre o café, é o que haverá em breve em cada piso do hotel, em pequenas estações equipadas com máquinas e moinhos — será self-service com instruções: mesmo o mais distraído com a história do local poderá terá uma experiência A Brasileira.

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E a experiência A Brasileira começou como armazém de café (e também de farinha, chá de mate, cana de Paraty e goiabada) e, eventualmente, cafetaria, graças à persistência do fundador que, durante 13 anos, ofereceu xícaras de café de maneira a tornar a sua marca popular. O sucesso levou à ampliação e, em 1938, reabriu dividido informalmente como “A Brasileira pequena” e “A Brasileira Grande”: na “pequena” manteve-se um cariz popular (tanto que, entre a decoração sumptuosa se vêem placas de latão com o aviso: “Não cuspir no chão”); na “grande” arrogou-se de um lado mais burguês e literato.

Poucas cafetarias e restaurantes de hotel estão tão obviamente voltadas a um público externo como estas e tal deve-se a essa origem de “pé de rua”, com uma enorme fachada convidativa, onde sobressai a icónica pala de vidro e ferro que continua a tutelar os escudos da República Portuguesa e dos Estados Federativos do Brasil.

Agora, a pala dá entrada para o restaurante, onde entre frisos de alabastro de Vimioso, paredes de mármore, espelhos franceses, baixos-relevos de Henrique Moreira, o chef Rui Martins (o mesmo do Rib Beef & Wine, no Pestana Vintage Porto) reinterpreta a cozinha tradicional e conta as histórias por detrás da reinvenção de cada prato.

Voltamos ao café, à cafetaria que ocupa a mesma esquina do edifício onde tudo começou. A decoração sumptuosa continua a fazer-se de lambris de mármore, tectos trabalhados a dourado, espelhos enormes, colunas que parecem esculpidas nas paredes; o mobiliário foi redesenhado e as cadeiras apresentam-se com o logótipo, à laia de monograma, antigo, com o velhote e o slogan “O melhor café é o da Brasileira”.

Os portuenses parece que se reencontraram com o velho hábito — durante a manhã as mesas estão muito compostas e o famoso “4 de Maio”, o bolo (sem açúcar mas generoso em ameixa, damasco e frutos secos) cujo nome é a data de inauguração d’ A Brasileira, já vai adiantado. Falta, porventura, ganhar o início da noite, uma aposta desta reencarnação: a partir das 19h troca-se de pele, com a iluminação e a música a mudar, e os cocktails a saírem do armário (à sexta e sábado há DJ Rui Trintaeum).

Voltamos ao café — mesmo desprezando o chá Compagnie Coloniale, que também se serve. Se a receita é única, como nos dizem, o resultado, afirmamos, é inesquecível e duradouro. Se é o melhor? É uma questão de provar.

A Fugas esteve alojada a convite do Pestana Porto A Brasileira