Os Simpsons: Hank Azaria está disposto a deixar de ser Apu

O actor foi ao Late Show de Stephen Colbert e respondeu à polémica sobre os aspectos problemáticos da personagem indiana a que dá voz na famosa série animada. Isto depois de um episódio em que a série desvalorizou críticas.

Hank Azaria põe a hipótese de vir a deixar de dar voz a Apu em <i>Os Simpsons</i>
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Hank Azaria põe a hipótese de vir a deixar de dar voz a Apu em Os Simpsons DR

Hank Azaria está disposto a deixar de fazer de Apu Nahasapeemapetilon, a personagem indiana de Os Simpsons que tem uma loja de conveniência e a quem o actor dá voz há quase 30 anos. Foi isso que Azaria disse a Stephen Colbert, quando foi esta terça-feira a Late Show, o talk show apresentado pelo cómico, falar de Os Simpsons e de Brockmire, a série cómica encabeçada por ele. Isto se for caso disso. Também está disponível, alega, para ajudar numa transição para solucionar o problema da personagem. O que não quer dizer que sairá da série: há dezenas de personagens regulares, do polícia Chief Wiggum a Moe, o dono da Moe’s Tavern, feitas por Azaria.

E que problema é esse? The Problem with Apu é um documentário que passou na estação de cabo norte-americana truTV no final do ano passado. Escrito e protagonizado pelo cómico de stand-up Hari Kondabolu, que cresceu como fã da série, usa Apu como ponto de partida para explorar a questão da representação de pessoas de origem sul-asiática na ficção. Nele, Kondabolu fala com nomes que vão de Aasif Mandvi a Hasan Minhaj e Aparna Nancherla a Russell Peters, passando por Kal Penn, Aziz Ansari ou Maulik Pancholy, sobre a relação que têm com a personagem. Muitas delas, hoje cómicos ou actores com cada vez mais visibilidade eram gozadas na escola por terem um tom de pele como o de Apu. Azaria, por sua vez, recusou-se a participar, com medo de que as suas palavras fossem retiradas do contexto.

Só o facto de haver tantos nomes para aparecer num documentário destes é algo que não aconteceria em 1990, o ano em que Azaria, um homem branco, começou a imitar o sotaque da personagem indiana que Peter Sellers, outro homem branco, fez em A Festa, o filme de Blake Edwards. Nessa altura, a representação de pessoas como eles na ficção era tão parca que Apu era uma das únicas.

No início de Abril, num episódio chamado No Good  Deed Goes Unpunished, Os Simpsons reagiram à polémica de uma forma bastante desvalorizadora. Marge, a mãe, lia a Lisa uma versão de um livro do qual tinha retirado as partes mais problemáticas. Lisa dizia não gostar do livro assim. “Bem, o que é que é suposto eu fazer?”, perguntava a mãe à filha. “É difícil dizer. Algo que começou há décadas e foi aplaudido e era inofensivo agora é politicamente incorrecto. O que é que se pode fazer?”, respondia Lisa, enquanto a imagem focava uma fotografia de Apu, com “Don’t have a cow, Apu” escrito, em cima da mesa de cabeceira de Lisa.

Foi uma resposta que surpreendeu o próprio Kondabolu. Em 2016, quatro anos depois de Kondabolu ter mencionado todas estas questões num segmento de Totally Biased with W. Kamau Bell, o finado talk show do qual foi correspondente, Os Simpsons dedicaram um episódio inteiro a explorar os estereótipos sobre os quais Apu assenta, de uma forma bem mais ponderada do que esta. No Twitter, Kondabolu reagiu a esta nova resposta da série: “Wow, ‘politicamente incorrecto?’ É isso que retiram do meu filme e da discussão que suscitou? Meu, eu adorava mesmo esta série. Isto é triste” e Os Simpsons sempre criticaram a cultura pop, ridicularizaram a hipocrisia e atacaram instituições avariadas. Aprendi com os melhores.”

A Colbert, que também se mostra receptivo a ouvir perspectivas que não sejam como a sua, Azaria, sem quaisquer certezas sobre o que é que deviam ou não fazer, declarou não ter tido nada que ver com essa parte do episódio, já que Apu nem sequer aparece na cena, e que tem andado cada vez mais a ouvir. Reiterou também declarações que já tinha feito sobre como o perturbava a ideia de que alguém tivesse sido alvo de bullying ou gozo por causa da personagem, que não foi feita com a intenção de causar dor e sofrimento nem marginalizar pessoas.

Toda esta conversa, admitiu, surpreendeu-o a início. E tem pensado muito nisso. “Os meus olhos foram abertos”, afirmou. “A coisa mais importante é que temos de ouvir pessoas sul-asiáticas, indianas, neste país, quando falam sobre o que sentem e o que pensam sobre esta personagem” Ainda pediu mais inclusão, o que passa por ter mais pessoas que não sejam homens brancos na equipa de argumentistas – que é, historicamente, muito pouco diversa –, não para preencher quotas, mas para ter mais representatividade e decidir o caminho que a personagem deve tomar.

Quanto à voz, sublinhou que se afastaria de bom grado e que está disposto a “ajudar a fazer a transição para algo novo”. Apelou ainda a que haja uma mudança, “porque é a coisa certa a fazer”. No Twitter, Kondabolu agradeceu a Azaria: “Valorizo o que disseste e como o disseste.”

Os Simpsons vão na 29ª temporada nos Estados Unidos. Warn Your Relatives, o novo especial de comédia de Hari Kondabolu, sai a 8 de Maio no Netflix.