Reportagem

Na avenida pintada de vermelho coube a luta por todas as liberdades

Num dia de céu azul, Lisboa pintou-se de vermelho, nas flores e na roupa. As lutas multiplicaram-se, mas a convicção foi uniforme: Abril ainda vive e a liberdade é uma conquista permanente.

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O dia foi feito de todas as gerações Miguel Manso
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Os cravos vermelhos pintaram a avenida Miguel Manso
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As Toupeiras estiveram no desfile com a mensagem “Viva o Triumph das Operárias” Miguel Manso
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Muitos dos participantes recordaram as emoções vividas em 1974 Miguel Manso
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Catarina Martins foi uma das representantes partidárias no desfile Miguel Manso
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Um cartaz pede a liberdade do ex-Presidente brasileiro, Lula da Silva Miguel Manso
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Jerónimo de Sousa, ao lado do deputado do PCP, João Oliveira Miguel Manso
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Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças grego, com o partido Livre, de Rui Tavares Miguel Manso
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Catarina Martins Miguel Manso
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Jerónimo Martins ao lado de João Ferreira Miguel Manso

Arminda Brás tinha 17 anos quando soube pela rádio que “estava a acontecer um golpe de Estado”. “Foi, até aquela altura, o dia mais feliz da minha vida”, recorda, hoje com 61 anos, enquanto desce pela Avenida da Liberdade, em Lisboa. “Estávamos a ir para o trabalho, quando as pessoas começaram a comentar o que estava a acontecer.” Lembra-se em particular de uma mulher que lhe disse que estava a “acontecer uma coisa horrível em Lisboa”. Arminda já sabia o que era. “Ela a dizer-me aquilo com muita preocupação, como se fosse uma grande desgraça que ia haver. Eu fiquei muito contente, mas não me atrevi a dizer nada”, confessa, com um sorriso no rosto.

Com um cravo vermelho no peito, as mãos dançam-lhe no ar, ao som dos gritos de liberdade que ecoam. “Eu estava já farta daquele regime. Que não nos deixava falar, que nos oprimia. Eu nem podia ir para o trabalho de calças, não podia ir com o meu irmão para a escola e os vidros separavam os rapazes das raparigas. Eram até pintados de branco, para que não nos pudéssemos ver uns aos outros”, conta. “Era um regime horrível. Horrível, horrível”, conta a cada passo.

Hoje desce a Avenida porque a luta pela liberdade não terminou naquele dia. Consigo leva a sobrinha-neta, Beatriz, de 10 anos. Quando na escola a professora lhe falou da importância da data, Beatriz “já sabia de cor”, resultado das conversas com os avós. “Por causa do 25 de Abril é que estou aqui como sou hoje”, responde a menina, que desce a Avenida desde que se lembra.

"A liberdade vai-se conquistando"

“É muito importante passar esta mensagem às novas gerações. A liberdade vai-se conquistando”, retoma Arminda. “Não se conquistou naquele dia e mantém-se. Com tantas adversidades que tem havido. Estão sempre a tentar branquear o fascismo”, exemplifica. Na manhã desta quarta-feira ouviu os discursos na Assembleia da República, mas aponta “hipocrisias”. “Quando falam em igualdade é hipocrisia porque eles querem ser mais do que os outros. Não querem escola para todos, ou querem só para eles e os que não têm para eles é-lhes indiferente, a habitação a mesma coisa, a saúde é a mesma coisa”, aponta. Nas últimas décadas, as conquistas foram muitas. Ainda assim, há muita injustiça por combater, lembram. “Há muitas pessoas a serem escravizadas no trabalho. Não ganham para comer. E isso não é digno. Tem de se lutar no dia-a-dia, de diversas formas. No trabalho, com pessoas amigas, quando vemos situações injustas.”

“Acho que todos nós — ou os nossos pais — tínhamos mais esperança em 1974 quando surgiu o regime democrático, e ainda bem, por isso é que o estamos aqui a celebrar, mas tínhamos esperança que Portugal fosse um país mais livre”, nota Miguel Ferreira da Silva, presidente da Iniciativa Liberal, o mais recente partido português. “Ainda temos um longo caminho a trilhar.” E esses caminhos por trilhar estão estampados nos cartazes que se erguem entre o som dos tambores. A cada dez passos ouve-se um grito diferente. 

É de camisola vermelha — uma escolha “ao acaso, mas simbólica” —, que Francisco Curvelo, de 61 anos, recorda o “alívio” que sentiu quando há 44 anos se gritou “Vitória!” no Largo do Carmo, em Lisboa. Ao fundo ouvem-se os versos de Zeca Afonso, “vejam bem/ que não há só gaivotas em terra/ quando um homem se põe a pensar/ quando um homem se põe a pensar”. “Infelizmente nestas quatro décadas houve muito retrocesso com políticas completamente contrárias ao 25 de Abril. É necessário conquistar muito mais. A luta pela liberdade, democracia e pelos ideais socialistas — que foram os ideais do 25 de Abril — nunca acaba.” “Pessoalmente espero que cada vez haja mais gente a celebrar o 25 de Abril, que as novas gerações, que nunca viveram o 25 de Abril, continuem a trabalhar pelos seus ideais.”

Carmen, Aida e Abril são espanholas, com idades entre os 21 e os 25 anos, mas conhecem bem a história do dia. A estudar em Portugal, não quiseram passar ao lado da data e decidiram acompanhar de perto a comemoração portuguesa. “Vi o filme Capitães de Abril [de 2000, realizado por Maria de Medeiros] e soube da história”, explica Aida, enquanto as amigas acenam com a cabeça, onde têm cravos vermelhos a enfeitar os cabelos. A atmosfera, dizem, é de emoções fortes e por isso irão recordar o dia como uma experiência “especial e incrível”.

“Temos um regime que acabou por cristalizar. Nós já vivemos quase tanto tempo em democracia, como no Estado Novo, mas estamos perante um Estado velho. Um Estado que nos desmotiva, que se mete na nossa carteira, nos nossos sonhos e que nos afasta a nós jovens da política. Nós não queremos só votar de quatro em quatro anos. Queremos ter uma palavra a dizer sobre as políticas públicas”, vinca Miguel Ferreira da Silva.

E se as vozes e lutas foram todas diferentes, o uníssono surgia sempre à mesma frase: “25 de Abril, sempre, fascismo nunca mais!”. “O cravo é lindo”, grita um vendedor. A liberdade também.