Uma falsificadora conta a sua história

Margarida Tengarrinha, prestes a fazer 90 anos, lançou Memórias de Uma Falsificadora – A Luta na Clandestinidade pela Liberdade em Portugal.

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Adriano Miranda/PÚBLICO
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Pegue-se num dos mais espectaculares episódios da história da luta contra o fascismo em Portugal: no dia 3 de Janeiro de 1960, dez homens escapuliram-se do Forte de Peniche, prisão de segurança máxima do Estado Novo, e mergulharam na clandestinidade. Quem lhes falsificou os documentos? Margarida Tengarrinha e o companheiro de então, José Dias Coelho, que tinham montado a primeira oficina de falsificações do Partido Comunista Português.

Aquele grupo juntava alguns dos mais importantes nomes do partido. Além do líder, Álvaro Cunhal, evadiram-se Joaquim Gomes, Francisco Miguel, Carlos Costa, Jaime Serra, Guilherme Carvalho, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, José Carlos, Francisco Martins Rodrigues. A precisar de documentos também estava o guarda prisional José Jorge Alves, que lhes facilitara a fuga naquele dia de chuva.

“Os mais disfarçados eram o Francisco Miguel, que estava a deixar crescer uma grande bigodaça e ostentava óculos de armação grossa, [e] o Carlos Costa, com o cabelo pintado de ruivo, tão convincente que até lhe apareciam sardas”, revela Margarida no livro Memórias de Uma Falsificadora, agora editado pela Colibri. “Álvaro Cunhal, muito louro e com grandes óculos, bem disfarçado, parecia um inglês.”

Margarida Tengarrinha crescera numa “família burguesa”, mas muito implicada na luta antifascista. Iniciara a actividade política no Movimento de Unidade Democrática, em 1948. Por se bater pela paz, pelo desarmamento atómico, contra a cimeira da NATO, em 1952 fora expulsa da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa e impedida de dar aulas na Escola Preparatória Paula Vicente. Aliara-se ao PCP, do qual o companheiro já fazia parte. Volvidos três anos, fora desafiada a entrar na clandestinidade.

Quando ela recebeu o convite, na praia da Ericeira, nem imaginava que tinha pela frente quase 20 anos de disfarces e perigos. “Éramos jovens e queríamos um mundo melhor”, resume, com simplicidade. Nunca foi presa. José Dias Coelho, esse, haveria de ser morto em 1961, a tiro, na rua, pela PIDE.

A primeira tarefa de ambos foi criar aquela oficina de falsificações. “Ficámos aterrados com a tremenda responsabilidade que a tarefa implicava e imensamente desiludidos com o trabalho oficinal monótono e insípido, que não se coadunava com as nossas expectativas de heróicas acções revolucionárias”, escreveu. Sérgio Vilarigues, o lendário “Amílcar”, é que os fez perceber o quão “urgente e indispensável” era aquilo “para a defesa dos clandestinos e da acção revolucionária do Partido”.

Não eram documentos de plástico com chip embutido, como os cartões do cidadão que agora existem. Eram documentos desdobráveis, em papel próprio, impressos no Reformatório Central de Lisboa, em Caxias, e na Escola Profissional de Santa Clara, em Vila do Conde, em exclusivo para o Arquivo de Identificação.

A Faculdade de Belas-Artes não os preparara para tal. Tiveram de aprender algumas técnicas. “Nós fotografávamos o camarada, a fotografia era colada e marcada com o selo branco no Bilhete de Identidade, preenchíamos os (falsos) dados identificativos e carimbávamos o número respectivo. Para não haver grandes disparidades entre a data e o número do BI, eram-nos fornecidos esses números a partir de documentos verdadeiros e nós carimbávamos o número dentro dessa margem”, revela no livro.

Ela própria usava documentos que falsificava. Era Teresa, era Leonor, era Maria… E inventava uma vida para cada uma dessas mulheres.

Havia toda uma arte do engano, da dissimulação, que ela explica nesta obra: “Começávamos por ter de fixar o nome falso e responder automaticamente e sem hesitar, quando nos interpelavam por esse nome. Construir a personagem com rigor, desde aprendermos as características da cidade onde dizíamos ter nascido (ou vivido anteriormente) até ao conhecimento da profissão do marido. Adaptar o aspecto, desde o vestuário ao penteado e até à pronúncia, fazendo-os corresponder aos dados identitários que afirmávamos serem nossos.”

O PÚBLICO encontra-a no seu apartamento, de frente para a Praia da Rocha, em Portimão. Mora ali, com o mar nos olhos, desde que deixou de ter maiores responsabilidades no PCP – foi membro do comité central e deputada eleita pelo círculo do Algarve. Senta-se na sala, recheada de quadros e de livros.

O seu Algarve era o único sítio que lhe estava vedado nos tempos da clandestinidade. “O Regressos é um livro do Manuel Teixeira Gomes [que foi Presidente da República e autor de uma vasta obra literária]”, diz. “É um livro em que ele rememora o Algarve e o prazer que teve em viver no Algarve. Eu tinha esse livro e levei-o comigo. Na clandestinidade, esse livro foi o elo entre mim e o Algarve."

Não é a primeira vez que Margarida Tengarrinha escreve sobre a sua experiência na clandestinidade. Há uns anos, escreveu outro livro, que intitulou Quadros da Memória (2004, Edições Avante). E o primeiro capítulo desse livro chama-se precisamente “Regresso”.

De onde veio a necessidade de escrever um novo livro de memórias? “Já passaram muitos anos”, responde. Tem reflectido muito desde então. Amadureceu algumas ideia. Sentia que tinha mais para dizer e que o tempo estava a esgotar-se. “Estou à beira dos 90 anos. Se não o fosse agora, não seria nunca.”

Quer reparar, na medida do possível, o que lhe soa a injustiça. “Vejo a maneira como é tratada a memória daqueles que lutaram contra o fascismo e penso que há muita gente que foi esquecida e que tem sido esquecida”, diz. “Quis falar não só daqueles que conduziram e estiveram no topo da vida política, mas também daqueles que participaram de forma mais modesta, sem deixar os nomes gravados na história. Esses também se sacrificaram, também se arriscaram."

A sua história não é só a sua história. É também daqueles com quem se foi cruzando. E no rol do que não quer que fique esquecido está “a força ignorada de pais, mães e avós”.

Margarida e José estiveram seis anos à frente da oficina de falsificações. Júlio Martins, engenheiro agrónomo, e a mulher, Natália David, substituíram-nos. O companheiro assumiu a liderança do sector intelectual de Lisboa e ela passou a trabalhar a tempo inteiro no jornal Avante!

Já colaborara antes com o jornal. E já tivera a cargo A Voz das Camaradas, boletim herdeiro do Três Páginas, pensado para “elevar o nível político e cultural” das mulheres que viviam na clandestinidade, “prepará-las para enfrentar a PIDE em caso de prisão” e amenizar o seu isolamento.

“Eu entrei na clandestinidade, porque já tinha uma luta política atrás”, sublinha. “Eu tinha uma tarefa política, por muito modesta que fosse, tendo começado por fazer falsificações de documentos. Mas as mulheres que estavam na clandestinidade entraram por motivações diferentes. Uma parte entrava para acompanhar os maridos. Essas teriam menos consciência política.”

O propósito, primeiro, do Três Páginas e, depois, d’A Voz das Camaradas era ajudar as mulheres que entraram na clandestinidade como esposas a perceber o seu papel. Não lhes competia apenas cozinhar, lavar, passar. Havia que defender a casa da PIDE, o que “exigia vigilância constante do que se passava na rua”. “Era um papel fundamental de suporte para a organização clandestina poder trabalhar. Sem casas clandestinas não poderia haver organização clandestina.”

No livro, afiança que “uma das maiores dificuldades da vida na clandestinidade era arrendar casa”. Tinham de se mudar amiúde e não podiam apresentar referências. Havia que inventar uma origem distante. “Nuns casos, bastava apresentar o Bilhete de Identidade, noutros casos era necessário o reconhecimento da assinatura para validar o contrato de arrendamento.” Uma vez, um notário no Porto reconheceu-lhe uma assinatura de um BI falso.

Não quer que se reduza o papel feminino às casas. Muitas trabalhavam fora. Tinham, por exemplo, a incumbência de ir a empresas da indústria têxtil, da indústria conserveira e de outros sectores em que havia maior percentagem de mão-de-obra feminina organizar as operárias, fazê-las ganhar consciência política.

Depois da morte do companheiro, esteve exilada no estrangeiro. Não só aqui, mas também no livro Memórias do Exílio, de Ana Aranha e de Carlos Ademar (Parsifal), fala nessa fase da sua vida. Na volta, esteve muitos anos em Fontelos, em Vila Nova de Gaia, com um casal de agricultores do Couço.

Escrevia muito. Usava “a máquina de escrever dentro de uma caixa de madeira forrada por dentro com pasta de algodão (da que era usada nos chumaços dos casacos de homem), para abafar o ruído, com uma pequena janela com vidro, na parte de cima, para ver o que se escrevia, e só o teclado ficava de fora”.

Enquanto esteve na clandestinidade, porém, nunca deixou totalmente de ser uma falsificadora. “Em 1970, o Álvaro estava a viver em Paris já há alguns anos. Eu, já estava em Portugal, mas fui chamada”, recorda. Devia ir a salto com dois membros do PCP, Maria Alda Nogueira e José Bernardino. As datas dos carimbos da saída de Portugal e entrada em Espanha estavam erradas. Mudou-as, usando “uma garrafa de lixívia e uma pequena paleta de aguarelas para meninos da escola com uns horríveis pincéis”. Mais tarde teve “de ensinar um camarada da Argélia a fazer falsificações”.