Opinião

Um museu, muitos nomes: a narrativa de Portugal e o Mundo

O ciclo dos chamados Descobrimentos terá obviamente todo o lugar, aliás de relevo, numa narrativa museológica da Viagem.

Voltam a agitar-se as águas em torno de um possível Museu dos Descobrimentos. Assim acontece desde finais do século XIX, quando pela primeira vez houve quem sugerisse a ideia. Uma ideia rodeada de fantasmas, tantos que existem para todos os tempos e regimes: os do “progresso” eurocêntrico oitocentista, eivados de positivismo e apadrinhados pela Monarquia Liberal na sua fuga à decadência; os da supremacia da raça e do império, viciados de grandiloquência e propagandeados pela ditadura; os da celebração da lusitanidade, contaminados de marialvismo e adoptados em Democracia pela metástase socratista. Acrescenta-se agora fantasma ainda mais estranho: o nome, em si mesmo. Convenhamos que é pouco. E é pobre, sobretudo.

Penso que mais do que o nome importa conversar sobre a coisa e passo a tratar dela.

Museu dos Descobrimentos. Não partilho do reflexo pavloviano de quem diz que, sendo tema caro ao Estado Novo, dele nos devemos afastar. Nada disso: é possível fazer dos “Descobrimentos” narrativas muito diversas e algumas poderão acentuar mais os progressos no conhecimento do mundo e os benefícios resultantes dos contactos entre gentes e civilizações do que propriamente o rol das conquistas e batalhas ou a saga de “santos e heróis”, que sabemos bem terem também sido facínoras (“come a sopa, senão vem aí o Albuquerque”, ainda se diz hoje às crianças na Índia e noutras paragens). Não, um Museu dos Descobrimentos (ou das Descobertas, dos Achamentos ou da Expansão, pouco me importa a este nível) pode constituir projecto interessante e inteiramente compatível com o humanismo, integrador e autocrítico quando tiver que ser, que nos cumpre promover, em democracia. Dito isto, possui esta óptica um enorme e em meu entender inultrapassável “senão”: reduz a diacronia do nosso projecto nacional, melhor, do nosso modo de ser portugueses, a um só período histórico, sendo ainda por cima quase inevitável, por mais voltas que se dê, que dele sejamos levados a dar uma visão parcial, porque centrada no nosso olhar. Definitivamente, direi que da janela de tempo e espaço em que me coloco, não penso ser esta a melhor forma de celebrar a portugalidade (termo que uso sem temor, porque escovado e limpo da canga passadista e bafienta em que quase foi sepultado).

Museu da Interculturalidade. Se o objectivo é celebrar contactos e interacção entre povos e culturas, então esta designação e este programa são sem dúvida mais adequados. Têm sido ultimamente muito defendidos pela minha amiga e colega Matilde Sousa Franco e reconheço-lhes grandes potencialidades. Mas, não sendo certamente essas as intenções, os perigos anteriores continuam presentes aqui. Fala-se em necessidade de reconciliação com o passado; fala-se em “interculturalidade de origem portuguesa"... e parece que andamos em redondo. Porquê apenas a desta origem? Por que não as que das mais desvairadas origens nos chegaram aqui ou simplesmente pusemos em contacto à escala regional, no vasto mundo por onde andámos? Pelo meu lado e sem prejuízo da validade desta intenção, preferiria ir por outro caminho.

Museu da Emigração. Eis aqui outro projecto em debate nos últimos meses. E causa espanto que, tanto quanto saiba, ninguém ainda tenha sugerido a ligação com este tema dos Descobrimentos. Afinal, não serão ambos processos migratórios? Mais uma vez, trata-se de abordagem importante para o fado lusitano. Mas porquê somente a “emigração”? Porque não também a “imigração” ou as “migrações” em geral? Por outro lado, porquê uma certa época apenas, neste caso talvez desde o século XIX, com o ciclo que dá origem às “casas dos brasileiros”? Pelo meu lado, bem gostaria de ver as questões das migrações, movimentações de gentes e de ideias, serem tratadas de forma mais ampla, como adiante direi.

Museu da Língua. O terceiro tema recorrente de novo museu a criar nestas áreas é o da celebração da língua portuguesa. Mais uma vez, ao cogitar sobre Descobrimentos e Emigração é estranho que ninguém fale de Língua e, pelo contrário, se continue pensando que faz sentido erguer museus separados. A língua, como diz o poeta, é sobretudo uma forma de ver o mundo. Uma língua, esse conjunto polimorfo de dialectos, crioulos e falares, é a mais sublime materialização da interculturalidade. Talvez o festejado Museu da Língua, em S. Paulo, Brasil, tenha ofuscado demasiado os espíritos, toldando-os na capacidade de ver mais claramente visto. Mas é certamente a altura de pensar fora da caixa, ou melhor, de meter a Língua na caixa que faz de nós sermos o que somos.

Museu da Viagem. E assim chego ao posicionamento que sempre tive e mantenho. Somos aquilo que a terra e o tempo fez de nós. Mais do que portugueses, somos habitantes da Finisterra ocidental europeia. “Aqui onde a terra acaba e o mar começa” vimos chegar, ficar e partir sucessivas vagas populacionais, desde a Pré-História até hoje. Dificilmente encontraremos na Europa, ou fora dela, povo mais miscigenado... e simultaneamente mais seguro da sua identidade nacional. Se nesta existe crise, será, como diz Eduardo Lourenço, por a termos em demasia. Somos dos raros países europeus que não possui um museu nacional holístico... porque simplesmente não precisamos dele para nos fazer sentir portugueses (e apenas no século XIX, no rescaldo da bancarrota de 1892, houve quem o defendesse). E sendo o que somos, somos quem, afinal? Somos híbridos fruto da viagem, de uma viagem permanente de ida e de volta. De quem chega até nós e daqueles de nós que, como se diz na canção do Adriano, razões tiveram para deixar o torrão natal. Somos o resultado de uma espessa acumulação de presentes históricos em viagem: desde pelo menos o Mundo Romano (embora se pudesse ir mais além) até à actual geração de jovens qualificados, obrigados a procurar o pão noutras paragens. O ciclo dos chamados Descobrimentos terá obviamente todo o lugar, aliás de relevo, numa narrativa museológica da Viagem. Tal como o das “bidonvilles” e da emigração “a salto” na 2.ª metade do século passado. E também os imigrantes dos países que partilham a nossa língua e tanto a têm enriquecido, ajudando-nos a ver melhor e ter maior prazer na vida. Ou os imigrantes do Leste europeu, no rescaldo da queda do chamado “socialismo real”. Todos têm aqui cabimento. Sem eles não seríamos nós e é disso que importa falar.

Onde mostrar tudo isto, perguntar-se-á. Direi que em local de grande exposição à cidade e ao mundo. E sendo assim, gorada talvez a hipótese soberana que tivemos (devido ao maior erro de política museológica do Portugal democrático, o actual Museu dos Coches), resta ainda uma oportunidade, a não perder: a Cordoaria Nacional.