A música que corre no sangue de cabo-verdianos e congoleses

Arrancou esta segunda-feira o Atlantic Music Expo, em Cabo Verde. Primeiros dias de uma feira de profissionais em que houve concertos de Jupiter ou Iduino, programadores americanos a defender a resistência e uma marcha de Alfama pelas ruas da Praia.

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Iduino Cristiano Barbosa / AME
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Jupiter Cristiano Barbosa / AME
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Jupiter Cristiano Barbosa / AME

A música em Cabo Verde parece fácil. Tem a dimensão de um cliché coçado dizer que ao dobrar de cada esquina se encontra um músico que sobe uns quantos degraus para lá da mediania. Houvesse um mapa de talento musical no mundo e as ilhas cabo-verdianas estariam seguramente assinaladas com uma sinalética que indicasse nível crítico de concentração dos indivíduos em estudo. Até porque todo o cliché tem um sem-fim de histórias a suportá-lo. E no arranque desta edição do Atlantic Music Expo (AME), a feira profissional para a indústria da música que tem lugar na Cidade da Praia desde 2013, não é preciso ir muito longe para tropeçar numa história que ateste a naturalidade com que a música toma conta das vidas por estes lados.

Estamos na noite de abertura do AME, na Assembleia Nacional, no concerto de boas-vindas aos 350 delegados e 250 músicos de todo o mundo que se reúnem nesta edição, e em palco vemos Iduino, músico fundador dos Ferro Gaita, grupo emblemático do funaná e tido como uma das formações mais revolucionárias para um género musical que parte do uso desenfreado da gaita (o acordeão) e faz agitar os corpos nas noites suadas da ilha de Santiago. Iduino apresenta-se em nome individual, mas faz bailar o som da gaita com a ajuda de uma banda que lhe permite passar pelo funaná, pelo batuco (com a participação de um grupo de batucadeiras) e pela tabanka (acrescentada da animação da Tabanka da Várzea que, no final, mascara a música de um tom carnavalesco, com a banda a transformar-se numa fanfarra desgovernada).

A música parece fácil em Iduino. Talvez porque, de certa forma, o é realmente. O pai de Iduino era acordeonista, mas deixou-o aos cinco anos, quando partiu para Portugal. Não tendo seguido de imediato o exemplo do pai, ainda miúdo foi para a escola de música aprender a tocar trompete. “Mas sempre tinha na cabeça que sabia tocar acordeão”, diz ao PÚBLICO após o concerto. Andou por bandas militares e de vários géneros, até que, aos 26 anos, decidiu que estava na altura de fazer contas com o destino. “Foi quando pensei: agora vou tocar o meu instrumento de sangue. A partir daí peguei na gaita e no funaná.”

E como é que Iduino fez isto? É a parte mais fácil de toda a história. “Foi num dia”, diz, resumindo toda a aprendizagem que fez do acordeão nesta frase. Dirigiu-se a Bitori nha Bibinha, lendário tocador de gaita cabo-verdiano por quem o mundo se apaixonou com a reedição há dois anos de Bitori: Legend of Funaná pela Analog Africa, e disse-lhe que queria aprender a tocar. Bitori respondeu-lhe que “acordeão é difícil”. Iduino esclareceu o mestre: “Não, eu já sei tocar.” Precisava apenas que alguém lhe mostrasse como. No dia seguinte, 22 de Julho de 1996 – a memória gravou essa data para sempre –, nasceram os Ferro Gaita. Iduino foi ter com Bino, o outro fundador, e fez saber que, agora que já tinha aprendido a tocar gaita, podiam pôr o grupo em marcha.

Jupiter e a programação de resistência

Se o funaná de Iduino está em linha com aquilo que conhecemos dos Ferro Gaita, mais surpreendente foi a passagem pelo mesmo palco do grupo Lindigo, da ilha Reunião, fazedor de canções simultaneamente cruas e ricas, luxuriantes e espirituais, em que a percussão descarnada é o motor de uma música que se constrói depois a partir da kora e do saxofone soprano, acrescentando camadas a uma versão exuberante da maloya – as canções de chamada e resposta que se tornaram arma de contestação contra a escravatura dos trabalhadores nas plantações de açúcar.

Já dos lados de Jupiter e os seus Okwess International não se pode bem dizer que tenha vindo grande surpresa. Simplesmente porque lhes coube, como se previa, o grande concerto dos dois primeiros dias do AME, com o bofenia rock inventado pelo músico congolês a encher a Rua Pedonal, de uma música frenética, urgente, 20 anos a ser fabricada para se ouvir como se fosse fruto apenas do agora, uma imparável máquina rítmica a rodopiar por cima de uma energia rock e funk que não dá um segundo de descanso. Ouve-se com o corpo todo.

Como encontro de profissionais que é, a programação do AME não se fica pelos concertos cartão-de-visita dos músicos convidados, numa forma de os dar a conhecer aos programadores de visita a Cabo Verde. Na manhã de terça-feira, o Palácio da Cultura Ildo Lobo foi ocupado por uma conferência em que vários programadores a operar nas Américas (México, Estados Unidos e Canadá) partilharam ideias sobre como podem os músicos alcançar estes cruciais mercados para a música. E tanto ficou claro que os festivais podem constituir uma importante porta de entrada para nomes desconhecidos, como se percebeu o quanto é hoje crucial o recurso a meios como as redes sociais e a vídeos de concertos para convencer os programadores daquilo os músicos valem em qualidade artística e popularidade.

A conferência mostrou também como o mexicano José Luis Cruz entende a produção de festivais como acto de resistência contra uma hegemonia cultural norte-americana e pop, ou como para a programadora do Lincoln Center, Jordana Leigh, o seu trabalho é também o de promover a diversidade e o multiculturalismo em sentido contrário às políticas oficiais do governo do seu país – através de uma prática diária que passa pela luta contra as burocracias desenhadas para dificultar cada vez mais a entrada em solo americano. “Faz parte do meu trabalho garantir que as fronteiras não se fecham”, disse.

Pouco depois, Marco Oliveira faria a primeira de duas aparições portuguesas no AME, numa sólida actuação que passou pela música popular portuguesa, pelo fado, por insinuações brasileiras e por um tributo a Ildo Lobo, pecando apenas pela humildade de, ao dar palco às suas referências, se ter esquecido de revelar um pouco mais de si. No final da tarde, seria a vez do momento mais insólito da abertura do AME. Ao longo da Avenida Amílcar Cabral, atrás de algumas tabankas que mostraram as suas coreografias e o seu “fogo” percussivo, desfilaria a Marcha de Alfama, numa bonita manifestação de rua da curiosidade pelo fluxo cultural entre dois países cuja proximidade nas ruas engana a distância geográfica.

Alfama desfiou a sua coreografia e a sua marcha como se estivesse na Avenida da Liberdade, representando uma Lisboa suspensa no tempo. Bem a propósito, na indumentária dos marchantes, seguia bordada a frase “Não toquem na minha Alfama”, com que lembrando que há tradições que devem ser mantidas e processos de gentrificação que podem levar a que, daqui por uns tempos, o insólito seja a própria Marcha de Alfama desfilar na sua cidade.

O PÚBLICO viajou a convite do AME e do Kriol Jazz