Opinião

Inspiração no silêncio: a saúde e os médicos

Será que o ministério acordou e está finalmente preocupado com o bem-estar dos profissionais de saúde?

Fala-se muito de saúde. Nos dias de hoje, todos os dias, da saúde de todos. Fala-se do estado da saúde, do acesso aos cuidados de saúde, da inovação e progresso da Medicina, de bem-estar... para estar bem.

A Saúde tem tido um lugar de crescente destaque, que vai ganhando dimensão no confronto com os recorrentes relatos de degradação do Serviço Nacional de Saúde (SNS). É dos setores mais escrutinados, dos mais comentados por todas as franjas da sociedade para se esgrimirem direitos (dos doentes) e deveres (do Estado). É tudo isto, afinal, porque a Saúde é o bem mais precioso à vida humana.

Fala-se muito, de facto, de saúde. Talvez nem tanto quanto deveria falar-se (leia-se: fazer-se). Fala-se muito da saúde... dos doentes. Fala-se pouco, ou quase nada, da saúde dos médicos. Mas quando se leem notícias que dão conta de (mais) um jovem interno que saltou para a morte de um 33.º andar em Nova Iorque, como não questionar?! Porquê?

E é precisamente no silêncio da leitura de um artigo assinado pelo médico George Lundberg no Medscape, um site agregador de notícias para profissionais de saúde, que bebo ‘inspiração’ para pensar, agora em ‘voz alta’, este assunto. É precisamente no silêncio das mortes de colegas, no sofrimento sem voz de tantos médicos, que me indigno, todos os dias, com o estado da saúde em Portugal nos dias de hoje.

O burnout na comunidade médica portuguesa já é conhecido. Um estudo feito em parceria pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS-UL) e a Ordem dos Médicos veio relançar o debate: 66% dos médicos admitem estar em exaustão, um dos três mais relevantes indicadores de burnout. Outras investigações espelham os efeitos deste desgaste extremo: os médicos reformam-se mais cedo, os mais jovens emigram ou ‘fogem’ para o setor privado em busca de melhores condições.

Noutro estudo conduzido pela investigadora Marianela Ferreira, do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, em colaboração com a Secção Regional Norte da Ordem dos Médicos, 60,5% dos médicos admitiram estar insatisfeitos ou muito insatisfeitos com o excesso de horas de trabalho. O número sobe (74,1%) para apontar o descontentamento face ao tempo disponível para a família, amigos ou lazer. Mais: quase metade (46,6%) considerou que os descansos compensatórios legais não são respeitados e um quarto (26%) admitiu que ultrapassa o horário de trabalho estipulado todos os dias. Sinais preocupantes que nos devem fazer levantar a voz.

Pois, o burnout na comunidade médica portuguesa já é conhecido, mas ainda é tema-tabu, finge-se que não existe ou, pelo menos, que não é assim tão preocupante. E que não coloca em risco muitas vidas: as dos médicos, as dos doentes. Afinal, qualquer ameaça à segurança clínica põe em causa a vida, o bem-estar e a saúde dos doentes. Temos, sem margem para dúvidas, de cuidar dos nossos médicos, da saúde destes, para garantir os melhores cuidados de saúde a todas as pessoas.

Os médicos são pessoas, como toda a gente. Têm problemas, como toda a gente: lidam com divórcios, batalhas judiciais pela custódia dos filhos, infidelidade, morte de familiares, questões de saúde... E tudo isto sofrem-no imersos na dor dos outros, a cuidar dos outros, focados na saúde dos outros. E onde fica o tempo deles, dos médicos, para lidarem – e gerirem – os seus problemas?

Se alguém errar, na sua profissão, dificilmente será tão penalizado quanto um médico. Um médico, se errar, além de poder colocar em perigo a vida de um paciente – e não há médico que se preze que não tenha consciência da sua imensa responsabilidade –, pode ver-se a braços com a justiça, com a vergonha social da exposição (tantas vezes injusta) na comunicação social, com o peso da culpa na consciência.

Onde deve então nascer o movimento que zele pela segurança e saúde do médico?, pergunta George Lundbergh no seu texto A Conspiracy of Silence on Phsysician Suicide. A resposta é óbvia: “Em todos os ramos da medicina organizada.” E dá exemplos: linhas telefónicas de atendimento para prestar apoio aos médicos 24 horas, sete dias da semana, equipas médicas hospitalares, consultórios de saúde, programas de internato e de assistência a profissionais de saúde. Concordo. Mais, subscrevo. E acrescento, menos pressão e melhores condições de trabalho, relações mais humanizadas, mais tempo para pensar e para a família e amigos, mais respeito, mais reconhecimento e valorização, mais oportunidades de desenvolvimento.

Por cá, parece que o Ministério da Saúde se propõe agora constituir um grupo de trabalho para promover o bem-estar nos organismos e entidades do SNS. Objetivo: discutir orientações que levem a medidas concretas que promovam a conciliação da vida pessoal com a vida profissional, a melhoria dos locais de trabalho, o envolvimento e participação dos profissionais e estilos saudáveis.

Será que o ministério acordou e está finalmente preocupado com o bem-estar dos médicos e dos profissionais de saúde? Tenho dúvidas. Como muitas dúvidas me levantam os muitos grupos de trabalho criados por este Governo, no que respeita à efetivação prática das intenções. Afinal de contas, onde ficaram as respostas para as muitas propostas feitas pela Ordem dos Médicos no sentido de realmente melhorar as condições de trabalho dos médicos? Até agora, na gaveta. É preciso falar a sério. Falar deste problema e encará-lo como tal. E concretizar soluções. Para que mais vidas não se fiquem em silêncio. Um silêncio que, ao limite, pode até ser mortal.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico