Feira SP-Arte

Em São Paulo a arte portuguesa é para ser pisada

São quatro as galerias nacionais que vão estar na SP-Arte. Duas delas têm apenas seis meses e mostram artistas com menos de 26 anos, espelhando a dinâmica interna do sector. Mas o número de stands nacionais na feira de arte de São Paulo ainda sabe a pouco, anota um galerista, sublinhando que Portugal tem responsabilidades históricas em relação ao Brasil.

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Horácio Frutuoso no seu stand da SP-Arte: “Interessa-me essa ideia de violação do trabalho pelo público DR

Duas das galerias portuguesas convidadas para a SP-Arte, a feira de arte contemporânea de São Paulo que ocupa a partir desta quarta-feira o Pavilhão da Bienal do Parque Ibirapuera, abriram portas há seis meses ou menos. A Balcony e a Uma Lulik, ambas de Lisboa, inauguradas respectivamente em Setembro e em Outubro, estão entre as 16 galerias que a luso-brasileira Luiza Teixeira de Freitas – a curadora que organiza, já pelo terceiro ano consecutivo, o projecto Solo, uma das secções especiais da feira – quis levar até ao Brasil.

Será a estreia em feiras internacionais destas duas novas galerias, que de resto participam na SP-Arte com artistas novíssimos, Horácio Frutuoso e Henrique Pavão, ambos com 26 anos. Além delas, há ainda mais duas galerias nacionais na SP-Arte, a Filomena Soares (Lisboa) e a Kubikgallery (Porto), que se candidataram ao programa geral e foram seleccionadas, reincidindo numa feira que já conhecem bem.

A SP-Arte, que vai na 14.ª edição, junta 130 galerias, na sua grande maioria brasileiras – mais de 50 são paulistas. Embora inclua nomes de peso como a galeria David Zwirner, de Nova Iorque, uma das mais influentes do mundo, a representação internacional ainda é diminuta, reduzindo-se a 34 galerias estrangeiras. Portugal chega à feira com quatro, menos uma do que no ano passado. É um dos maiores contingentes nacionais na SP-Arte, mas a Espanha, por exemplo, terá cinco expositores no pavilhão.

O Solo é um dos dois sectores paralelos ao programa geral (o outro, intitulado Reportório, dedica-se a contextualizar nomes históricos, tendo mostrado no ano passado o trabalho de Helena Almeida, através da Galeria Filomena Soares). “O conceito são exposições individuais num stand que tem apenas 20 metros quadrados. Cada galeria só pode trazer um artista. Eu tento que tragam alguma coisa mais arriscada. O grande desafio é que são galerias que vêm de muito longe e, obviamente, querem vender, quando eu estou a pedir-lhes para trazerem uma coisa cutting edge”, explica a curadora, acrescentando que no Solo os artistas não têm de ser novos, nem as galerias têm de ser jovens, como acontece nas secções dedicadas à arte emergente de outras feiras.

Quando lhe perguntamos por que razão não repetiu nenhuma das participações portuguesas do ano passado (Madragoa, Francisco Fino e Baginski) neste sector especial, Luiza Teixeira de Freitas conta que este ano o projecto de curadoria não correu exactamente como planeado e que talvez o contexto de grande turbulência política, que culminou no fim-de-semana com a detenção do ex-presidente Lula da Silva, não seja estranho à equação. “Eu só gosto de fazer projectos para feiras a dois anos, mas como a SP-Arte estava a correr tão bem, com várias galerias interessadas em voltar, decidi prolongar mais um. Mas quando comecei a chamar as 16 galerias que vieram em 2017 afinal só três queriam regressar. A Madragoa não volta porque entrou na feira de Basileia (secção Statements), o Francisco Fino quer experimentar a de Bruxelas. A Baginski também desistiu. Por isso, como vivo em Portugal e afinal sou portuguesa, fui atrás das novas galerias portuguesas.” Além delas, acrescenta, há ainda que contar com o artista português Nuno Sousa Vieira, que também estará com um projecto no Solo, mas através de uma galeria de Brasília, a Karla Osorio.

Para o público violar

“É a nossa primeira feira. É o nosso debute”, sublinha Pedro Magalhães, director da Galeria Balcony, situada nas traseiras da Avenida dos Estados Unidos da América, beneficiando ainda da proximidade do Bairro de Alvalade, uma das moradas mais apetecidas para as novas galerias lisboetas, cujo número tem aumentado regularmente nos últimos anos. “A arte contemporânea portuguesa está a começar a ter proporções interessantes e benéficas. Passámos do exótico para [um panorama em que temos] as direcções das feiras a pedirem por favor que venham portugueses. A reboque do turismo e da gentrificação da cidade há uma curiosidade fundamentada pela enorme qualidade dos artistas. Internacionalmente, há um sentido de descoberta da arte portuguesa e só assim é que o aparecimento da Balcony faz sentido”, afirma Pedro Magalhães, um dos três sócios da galeria, que até agora trabalhou no mercado publicitário, paralelamente à sua actividade como coleccionador (ele prefere usar o termo "amontoador"). Como se contam pelos dedos de uma mão os grandes coleccionadores e as grandes instituições dedicadas à arte contemporânea em Portugal, se a Balcony ficasse só confinada ao território nacional tornava-se economicamente inviável, porque o mercado é pequeno, defende Magalhães: “A arte contemporânea não pode ter vergonha de ser tratada como um investimento. E é pena não se falar mais disso.”

Entre os cinco artistas da galeria, onde estão nomes emergentes como Dealmeida Esilva, a Balcony decidiu mostrar em São Paulo o trabalho de Horácio Frutuoso, que pudemos ver recentemente entre as obras da exposição Género na Arte do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado. Uma instalação site-specific composta por cinco tapetes, duas esculturas de acrílico e seis composições gráficas (ou poesias visuais).

Nos tapetes, que podem chegar aos 2,5 metros de comprimento, também estão inscritas frases como “Eu vou ser rica”. Na sua brancura imaculada, marcada pelo lettering negro, são mesmo para pisar, porque vão cobrir o chão do stand, conta Horácio Frutuoso. As frases acumuladas pelo artista no seu Instagram, que trata como um diário gráfico, têm uma origem muito diversa: memes que circulam na Internet, retirados de novelas brasileiras, e que acabaram numa parede de Lisboa, coisas que viu no Facebook ou ouviu no Metro. São retrabalhadas por Horácio Frutuoso e, no contexto da SP-Arte, ganharão o peso político que o visitante da feira lhes quiser dar. “Interessa-me essa ideia de violação do trabalho pelo público. São frases que podem ser muito pessoais e onde o púbico pode deixar a sua marca.” Estes tapetes, diz ainda ao PÚBLICO, podem migrar para as paredes, explorando uma prática comum nos anos 70 e 80, em que o trabalho dos artistas era reproduzido em tapeçarias.

A influência da ArcoLisboa

Criada há menos de seis meses, em Outubro, a Galeria Uma Lulik abriu em Alvalade mesmo ao lado do espaço da Fundação Leal Rios, um projecto a que o dono da nova galeria, Miguel Leal Rios, está ligado por razões familiares. “Fechei a empresa de design que tinha porque estava cansado da luta do design em Portugal e queria focar-me na fundação que gere e divulga a colecção de arte contemporânea iniciada em 2002 pelo meu irmão e por mim. Mas faltava-me um projecto só meu.” É assim que outro coleccionador passa a galerista.?

Em tétum, Uma Lulik quer dizer “casa sagrada”. O nome da galeria evoca Timor, um território em que Miguel Leal Rios viveu na infância, e indica um interesse por paragens lusófonas, geografias emergentes e artistas globais. Da israelita Efrat Natan a Joël Andrianomearisoa, nascido em Madagáscar – o nome que inaugurou a galeria –, ao português Henrique Pavão, que expõe na SP-Arte.

Para já, a Uma Lulik, tal como a Balcony, sabe que foi seleccionada para São Paulo e também para a ArcoLisboa, que vai fazer a sua terceira edição em Maio. “Abrir uma galeria sem entrar em feiras não faz sentido.” A ideia é começar a apresentar candidaturas a feiras e há muitos alvos em vista: Independent, Armory, Art-O-Rama, Frieze, Liste, Viennacontemporary, Basileia. "No meu caso, vale a pena explorar a 1:54, em Londres e Nova Iorque, a AKAA, em Paris, a Art Abu Dhabi, a Art Dubai, a ArtBO, em Bogotá, ou a Material, na Cidade do México", enumera.

Esta necessidade de internacionalização, acrescenta Miguel Leal Rios, tornou-se imperiosa desde que a Arco chegou a Portugal: “Há uma nova concorrência entre as galerias nacionais e as internacionais que vêm cá. Por isso, o projecto nunca pode ser ficar cá. As galerias puxam umas pelas outras.” Há também a concorrência das galerias estrangeiras que já abriram portas em Lisboa, como a espanhola Maisterravalbuena, a italiana Monitor ou a francesa Jeanne Bucher Jaeger

PÚBLICO -
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Henrique Pavão leva a São Paulo o vídeo Unfinished Past DR

Tal como Horácio Frutuoso, Henrique Pavão também tem 26 anos e esta é igualmente a sua primeira feira, "internacional ou nacional", diz ao PÚBLICO. Chega a São Paulo com um vídeo a preto e branco, de quase dez minutos. Unfinished Past (2016), que já foi mostrado no espaço Appleton Square há um ano, vai ser exibido numa black box, porque, explica o artista, pede uma certa solidão para ser contemplado. A obra recombina várias camadas arqueológicas, várias memórias, reflectindo sobre "a impossibilidade de chegarmos ao passado, de ressuscitar a história". Num plano fechado, Henrique Pavão filma a carcaça de um barco meio submerso no porto de Malmo, a cidade sueca onde fez o mestrado, enquanto o texto das legendas confronta as memórias que guarda de uma casa de infância, aonde regressou recentemente para quase não reconhecer o espaço.

Pela primeira vez na cidade paulista, este jovem artista, que já teve uma individual na Culturgest-Porto ou viu o seu trabalho incluído na mais recente Bienal Anozero, em Coimbra – onde mostrou fotografias da mesma casa –, está satisfeito com a oportunidade de mostrar o seu vídeo noutro continente, depois de o ter exibido no Sul da Europa, Portugal, e no Norte da Europa, Suécia: "A minha primeira expectativa é vender, porque uma feira não é uma exposição, mas também é uma oportunidade dar a conhecer o meu trabalho num contexto não-europeu."

Uma história de colecção

Luiza Teixeira de Freitas, que traz este ano muitas galerias novas ao Solo, porque houve outras desistências além das portuguesas, sublinha que as expectativas são muito difíceis de estabelecer num contexto político tão volátil como o do Brasil: “O mood é péssimo, mas o que digo às galerias é que São Paulo é uma cidade com história de colecção. Quem colecciona a sério não deixa de coleccionar.” E lembra que noutros anos a feira também coincidiu com o impeachment de Dilma Rousseff ou com as prisões da Operação Lava-Jato e as vendas aconteceram. 

Há dois projectos com artistas históricos dos quais tem muito orgulho: a galeria Espaivisor, de Valência, que este ano traz Mladen Stilinovic, artista croata que morreu há dois anos, e a Zucker Art Books, de Nova Iorque, que chega com edições de Dieter Roth.

E também de edições, mas de Nuno Sousa Vieira, trata o evento que o Consulado Geral de Portugal em São Paulo organizou para celebrar a participação portuguesa na SP-Arte, e que foi inaugurado já esta terça-feira. Com curadoria de Isabella Lenzi, mostram-se uma dezena de livros de artista e 45 desenhos feitos por Nuno Sousa Vieira na frente e no verso das folhas de papel: “Se a exposição nos faz reflectir sobre a dialéctica do que é visível ou invisível quando optamos por um dos lados da folha, já nos livros de artista podemos ter acesso aos dois lados quando folheamos.” O novo livro de artista de Nuno Sousa Vieira, intitulado Declaração Governada, Declaração Verificada e Declaração Simples, tem edição da brasileira Ikrek e foi lançado também na véspera da abertura da SP-Arte.