“O País Basco vive um momento histórico em que se recompõem os laços sociais e afectivos”

O escritor basco Fernando Aramburu esteve em Lisboa para apresentar o seu mais recente romance, Pátria, um dos livros mais premiados em Espanha no ano passado

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Nuno Ferreira Santos

Fernando Aramburu (San Sebastián, 1959) vive na Alemanha há mais de três décadas. Este distanciamento geográfico deu-lhe, segundo o próprio, “a possibilidade de olhar para a realidade basca como quem olha de longe para uma partida de xadrez, vendo ambos os jogadores com a mesma distância”. Pátria, o seu mais recente romance, é uma obra literariamente ambiciosa e que procura fazer uma radiografia dos últimos 30 anos do conflito basco, não pelo seu prisma político mas sobretudo pelo lado social: os medos, as desavenças, as fracturas familiares, o aliciamento de jovens por parte do movimento independentista, as vinganças, os assassinatos, as vítimas e os seus algozes, e ainda o perdão, agora que a ETA resolveu pousar as armas. A história narrada põe lado a lado (talvez seja mais correcto, frente a frente) duas famílias de um lugar não nomeado perto de San Sebastián e que em tempos foram amigas. Joxe Mari é um jovem militante da ETA, apoiado nas suas convicções pela mãe, Miren, que chorou a morte de Franco; do outro lado, está Bittori, uma viúva que vai ao cemitério visitar a campa do marido assassinado e que exige que a ETA lhe peça perdão.

Fernando Aramburu falou ao PÚBLICO sobre os anos da sua juventude passada em San Sebastián, as feridas abertas pelo conflito entre e dentro das famílias, a vergonha das vítimas, o actual processo de fechar as feridas e de como o conflito basco pode servir de não exemplo a outros movimentos independentistas, como o catalão.

Foi a primeira vez que escreveu sobre a ETA?
Há uns 11 anos escrevi um livro de contos, LosPeces de la Amargura. Essa foi a minha primeira incursão nas histórias das gentes bascas. Depois escrevi um romance, Años Lentos. Este outro, Pátria, foi a minha terceira tentativa de reflectir de forma literária sobre as vivências do povo basco, dando-me a oportunidade de o fazer num quadro temporal muito mais alargado. E assim foi inevitável não falar da ETA sem ser apenas como referência a acontecimentos isolados. Escrevi sobre algumas das décadas que foram aquilo a que chamo “a minha época”.

Acabou por incluir no livro acontecimentos que viveu?
É inevitável não incluir numa história literária as nossas vivências pessoais, sentidas ou mesmo presenciadas. Mas não o fiz de maneira a que soasse a autobiográfico. Há, por exemplo, personagens inspiradas em pessoas e em factos reais, não porque eu quisesse contar a vida dessas pessoas, mas porque quando se escreve se aproveita tudo o que esteve, ou que está, ao nosso redor. A história em si, a que tem por base aquelas duas famílias, inventei-a. Mas antes dessa está a história colectiva do País Basco. Quando pensava num qualquer episódio, quando o inventava, a primeira coisa que me ocorria era perguntar se na história colectiva este episódio teria sido possível, tive grande preocupação com a verosimilhança.

Qual a diferença entre Pátria e o romance anterior?
O essencial é que em Pátria, pela primeira vez, tento fazer um desenho geral da história das gentes bascas. Interessaram-me as proximidades emocionais, a dor e a compaixão. Quis fazer uma história em que participassem vítimas, agressores, vizinhos, familiares e também pessoas que ficavam indiferentes ao que acontecia em seu redor. Tentei esboçar um desenho social que fosse o mais completo possível, porque nos livros anteriores me tinha dedicado a factos pontuais, que apareciam um pouco isolados do contexto complexo em que tiveram lugar. Essas narrativas, e muito em especial os contos, não permitem com facilidade uma história de conjunto da sociedade num tempo mais abrangente.

Ao decidir abordar o assunto do terrorismo basco, que, presumo, ainda não será um tema fácil de abordar em toda a sua extensão sem tocar em feridas, teve algum receio?
Receio não tive. O terrorismo já tinha parado. A minha maior preocupação foi poder escrever inadvertidamente alguma passagem, algum parágrafo, que, de uma qualquer forma, pudesse ofender as vítimas. Não queria aumentar a dor de ninguém. Tive essa preocupação sempre presente. Soube mais tarde que algumas vítimas do terrorismo acolheram o livro de maneira favorável. Mas quando o livro saiu algumas pessoas parecem ter querido evitar lê-lo porque estavam cansadas da ETA, tinham medo de que a leitura lhes fosse dolorosa e não queriam saber mais nada. Mas depois acabaram por se render, pois o êxito em Espanha foi monstruoso [700 mil exemplares vendidos]. A ficção acaba por responder a uma enorme necessidade social, que é a de conhecer as histórias que não vêm nos jornais.

Talvez um dos aspectos mais impressionantes do romance seja o da quase sistemática ocultação das vítimas, chegando mesmo alguns familiares a sugerir que se altere nas lápides a data do falecimento, para não coincidir com a do atentado. Qual a razão disto?
Não sei ao certo qual a razão, mas tenho uma suspeita. Para muitos bascos, os terroristas actuavam com um bom objectivo, as suas acções eram a favor do povo basco, actuavam para conseguir um objectivo que consideravam bom, o de uma comunidade ideal. Logo, os alvos escolhidos por eles eram assumidos como impedimentos a que se consumasse um projecto político consistente, que era o de criar um estado basco independente. Devido a isto, creio que no imaginário de muitos cidadãos bascos havia a ideia de que as vítimas, de uma certa forma, o eram porque o mereciam, tinha de ser esse o seu destino. Tinham sido injustas para um projecto social com objectivos colectivos. Isto fazia com que alguns assassinados fossem enterrados de uma maneira quase clandestina. Achei que isto não deveria ser esquecido, foi o que fiz.

Havia vergonha nas famílias que tinham vítimas…
Não podemos generalizar, pois houve uma grande variedade de reacções. Não nos podemos esquecer de que em algumas vilas e cidades se escrevia um nome nas paredes e em cima se desenhava um alvo – eram nomes de gente a abater. E algumas pessoas usavam isto contra outras para determinados objectivos não políticos, para vinganças pessoais, e aquelas pessoas cujos nomes eram assinalados com alvos eram discriminadas, humilhadas. Isto passou-se continuamente durante muitos anos.

A ETA manipulava a população com técnicas que faziam lembrar o fascismo…
Prefiro usar a palavra “totalitarismo”. O fascismo é apenas uma variante do totalitarismo. Essas variantes funcionam todas da mesma maneira, pois manipulam para conseguir o poder. Para isso, impõem projectos, impõem normas de conduta, impõem formas de vida. Um bom método para o fazer de uma maneira mais fácil é aterrorizar a população. No entanto, tem de se continuar a viver, mas para desviar o medo incorporam-se as coisas impostas. É uma maneira efectiva de sobreviver. É assim que os totalitarismos funcionam. O totalitário não se apresenta como alguém que nos vem fazer mal, ele tenta vender-nos a sua doutrina, tenta impô-la com ameaças, com extorsão, com armas e com atentados. Há um escritor chileno que disse que causa a mesma dor um torturador de direita ou um de esquerda, e isso é, obviamente, verdade.

Esse totalitarismo promoveu uma degradação moral das instituições do Estado no País Basco?
Depende um pouco de como se olha. Mas o certo é que houve, por exemplo, torturas nas esquadras de polícia. Isto foi provado e houve até condenações por parte do tribunal de Estrasburgo. Foi uma catástrofe democrática. Primeiro, porque o Estado não o deveria ter consentido de maneira alguma, e depois porque isto legitima a outra violência. O outro lado pode argumentar que o uso da tortura justifica uma luta que de gratuita passa a ser uma luta defensiva. O contrário de um totalitarismo não pode ser outro totalitarismo, mas sim a democracia.

Uma das personagens em Pátria, a viúva Bittori, exige que lhe seja pedido perdão. Será verdadeiramente possível que as vítimas nestes casos perdoem?
O perdão é um assunto delicado. Como faz parte do lado emocional do ser humano, só o subjectivo o pode abarcar. O perdão só merece esse nome se for sincero, por isso penso que não é possível no âmbito público diante das câmaras de televisão. O perdão pede-se a quem se fez mal, o que exige do peticionário uma atitude de humildade, coisa que não é fácil para muitos. A ideia do perdão relacionada com assuntos políticos é um gesto pedagógico positivo para uma sociedade. Funciona como se algo negativo tivesse finalmente terminado. Tentei fazer disso a coluna vertebral do meu livro. O romance nasce, aliás, de uma nota que tinha escrito há muito tempo sobre uma viúva que quer a todo o custo que lhe peçam perdão pelo assassinato do marido, cometido pela ETA.

Qual foi o papel da Igreja Católica durante estes anos de conflito? No seu romance, com o padre Serapio, simpatizante da ETA, parece não ficar muito bem no retrato…
Há que fazer a distinção, porque não foi uma coisa uniforme. Mas grande parte da Igreja Católica basca foi, e é, nacionalista. Padres como os que aparecem no meu romance, Don Serapio, houve bastantes. Mas houve também padres que foram ameaçados pela ETA e tiveram de se ir embora para salvar as suas vidas. Outros não podiam caminhar pelas ruas sem levar uma escolta. Seria injusto generalizar. O essencial para mim é que houve bastantes padres como a personagem de Don Serapio, por isso me pareceu lícito, e justificado, criar um padre muito compreensivo com a violência.

A coesão da sociedade basca acabou por, de certa forma, facilitar o alastramento da violência?
Na realidade, parece-me ter acontecido o contrário. Uma comunidade bastante unida, como era a basca, acabou por isso por se fracturar mais facilmente: amigos que deixaram de se saudar, famílias que se dividiram, irmãos que deixaram de se falar. Tudo isto devido a terem sensibilidades ideológicas diferentes.

Sim, era nesse sentido que referia o termo “facilitar”. Também aconteceram estas cisões na sua família?
Sim, ninguém se livrou disto. O que acontece é que na minha família se produziu uma espécie de pacto de silêncio. Quando estou com os meus parentes, sabemos que não se fala de política, não que alguém tivesse alguma vez aventado essa regra, mas todos intuímos que não o devemos fazer. Estamos juntos e falamos de futebol, de comida, de ciclismo, da pesca, tudo temas muito importantes para os bascos, mas não de política. Assim evitamos problemas.

Essas fracturas continuam a existir nas famílias bascas?
Vão-se dando pequenos passos, recordam-se as vítimas. Hoje em dia já é possível um debate razoável, cívico, coisas que até há alguns anos não eram possíveis. Caminhamos para retomar a convivência, a possibilidade de os cidadãos estarem juntos sem se agredirem por terem opiniões políticas diferentes. Agora vivemos um momento histórico, em que se recompõem os laços sociais e afectivos. O ambiente onde as crianças bascas são agora educadas é infinitamente melhor do que aquele que eu conheci.

A predominância de um tecido social quase semiurbano foi favorável ao crescimento da ETA?
Não creio. No País Basco havia uma estrutura industrial muito importante, assim como na Catalunha, que historicamente, desde o século XIX, são as regiões mais industrializadas. O nível de vida basco era na altura bastante superior ao das médias espanhola e europeia. A base da acção urbana da ETA não era a luta dos trabalhadores, esse foi apenas um falso motivo a que recorreu para ficar bem vista na esquerda. Nas grandes cidades, o apoio aos partidos políticos contrários ao independentismo era maior do que nas zonas rurais. Isso não mudou.

A ETA tinha uma grande simpatia por parte dos jovens dos subúrbios, era entre eles que recrutava os seus membros para mais tarde os usar em actos de luta armada, como aliás o conta em Pátria
Sim. Faziam uma propaganda muito bem-feita. Esse movimento radical e independentista ocupou-se de uma forma sistemática em atrair os jovens. Organizavam festas, promoviam a música rock – há até um movimento que se chama “rock radical basco” – com concertos, criaram na “moda” urbana uma estética própria do radicalismo basco, na rua havia uma identificação com base em elementos estéticos. Produzia-se uma espécie de pressão grupal ao indivíduo para que se submetesse ao grupo. Eu também estive exposto a esta propaganda numa época terrível do terrorismo. Mas soube resistir, talvez porque me tenha feito leitor muito cedo e isso abriu-me outras possibilidades culturais e políticas. As mentes mais cultas conseguiam resistir ao apelo, eles acabavam a recrutar sobretudo jovens com muita vontade de aventura, com força de viver depressa e com um nível cultural baixo. Não recrutavam jovens que tivessem estudado física nuclear ou filosofia, mas jovens ingénuos com muita energia.

Vê algum paralelismo, na essência, entre o movimento independentista catalão e o basco?
Há algumas concomitâncias, pois somos as duas regiões mais industrializadas de Espanha e com um melhor nível de vida. A grande diferença é que os catalães não enveredaram pelo terrorismo e, assim, aconteça o que acontecer, não vão ter grandes problemas quando tiverem de recuperar os laços sociais e afectivos. Nós, os bascos, tivemos durante muito tempo uma ferida que não é possível esquecer, os 856 mortos, entre os quais, 24 crianças, uma coisa monstruosa. Isto está sempre sobre a mesa, é um ponto negro na nossa História. Isso os catalães não tiveram. A fractura social não terá as dimensões de tragédia que teve a do povo basco.