Crítica

Que bem canta Aldina a poesia do verbo viver

Aldina Duarte fez no Grande Auditório do CCB aquilo que já fizera em disco: transformar um sofrimento em luminosidade. E se há poesia no verbo viver, que bem a canta Aldina, nessa forte teia emocional onde nos enreda.

Fotogaleria
Aldina Duarte no CCB com Paulo Parreira (guitarra portuguesa) e Rogério Ferreira (viola da fado) José Frade/EGEAC
Fotogaleria
Aldina Duarte no CCB com Paulo Parreira (guitarra portuguesa) e Rogério Ferreira (viola da fado) José Frade/EGEAC

Horas depois do concerto no CCB, onde apresentou pela primeira vez num palco maior o seu celebrado disco Quando Se Ama Loucamente, Aldina Duarte escreveu no Facebook: “Hoje, cantei por dentro de um verdadeiro conto de fadas, cantando de fado em fado a poesia do verbo viver.” E a definição é perfeita, até porque essa poesia extrai felicidade mesmo dos momentos trágicos. Foi isso que Aldina quis fazer em disco e em palco: transformar um sofrimento em luminosidade. E essa luz que ela habitualmente transporta, vinda mais da escuridão que da alegria, faz-se poesia viva quando dela se ergue no fado, não num pálido lamento mas numa voz vitoriosa e plena. E se há poesia no verbo viver, que bem a canta Aldina, nessa forte teia emocional onde nos enreda.

O concerto do CCB, assente nas premissas do disco (o fim de uma paixão, espelhado em fados), quis propositadamente atrair a audiência para esse lugar onde é a voz o veículo primordial, a voz e a palavra. Porque desta vez, como ela disse, mais do que cantar fados cantou factos, coisas que viveu, lugares e pessoas que conheceu, e isso, mesmo vertido em poesia, muda tudo. Mas a par dessa dimensão, ela quis explorar outras: a dos seus espaços íntimos de ensaio e a da sua relação com as escolhas e gostos do seu público. E cenicamente isso foi conseguido, e bem, com zonas demarcadas: um palanque maior, à direita no palco; um palanque mais pequeno, à esquerda; seis cadeiras, três em cada um deles; e um jogo de luzes cirúrgico, a acentuar essa territorialidade.

A abertura, com a sala cheia, fez-se numa quase penumbra e a capella. O Conto de fadas inicial do disco, na voz velada de uma toada infantil (“um duende sem querer/ a cantar para esquecer/ a tristeza do seu fado”). E logo depois os músicos, Paulo Parreira (guitarra portuguesa) e Rogério Ferreira (viola de fado), a acompanhá-la nesse belo tema que ela tem vindo a cantar mas ainda não gravou, o Auto-retrato que lhe ofereceu João Ferreira-Rosa. Aqui, ainda a voz se lhe ressentia da alergia que a atacara dois dias antes e que ela tentou iludir com todo o esforço da sua entrega (os fumos “decorativos” no palco também não ajudaram, acabando por ser atenuados só depois). Mas nem a alergia conseguiu vencê-la. Senhora dos meus passos teve momentos excelentes e a sequência seguinte, com Uma graça antiga, Quem me vê e Beijo enganador, foi evoluindo num crescendo digno de aplauso. Dois fados de discos anteriores, Antes de quê? e A estação das cerejas, surgiram (por acertada opção) em versões distintas das que lhes conhecemos, integrando-se assim melhor no espírito da narrativa mais torrencial de Quando Se Ama Loucamente.

Um muito aplaudido instrumental abriu caminho a mais cinco fados do novo disco, já com a voz de Aldina bem segura na sua expressiva versatilidade: Casa do esquecimento, Terra prometida, Anjo azul, Refúgio e, por fim, o tema-título, a balada Quando se ama loucamente. E foi este o pretexto para a entrada dos dois pré-anunciados convidados: Pedro Gonçalves (Dead Combo) e Manel Cruz (Ornatos Violeta), que com ela se instalaram no palanque mais pequeno, como se estivessem num ensaio informal. Em dueto com Manel Cruz, Aldina voltou a cantar Quando se ama loucamente (que ele escreveu, letra e música) e, acompanhada por Pedro Gonçalves, cantou A maçã de Adão, como já o fizera no disco Romance(s), que Pedro produziu. Depois, Manel e Pedro tocaram juntos e, a fechar, Manel Cruz cantou a solo Devagar, dos Ornatos Violeta.

Terminado o “ensaio”, Aldina dirigiu-se a um lugar intermédio do palco, à frente dos dois palanques, para o seu anunciado encontro com o público e com alguns fados por ele “eleitos”: Não vou, não vou (criação de Lucília do Carmo), Fado com dono, Ai meu amor se bastasse e Xaile encarnado. Nos três “andamentos” do concerto, Aldina conseguiu o que queria: a atenção e os silêncios no primeiro (e houve mesmo uma espécie de suspensão do tempo em Antes de quê? ou em Anjo azul); informalidade no segundo; e celebração e vitalidade no terceiro. E foi aposta ganha. Até ao final, encore incluído, ainda ouviríamos Fora do mundo e No amor do teu nome, ambos do novo disco, e o sempre muito aplaudido Princesa prometida, mais acelerado e feliz. Antes, Aldina formulou três agradecimentos: ao Sr. Vinho, na pessoa de Maria da Fé (que estava na plateia); ao Museu do Fado, na pessoa da sua directora, Sara Pereira (também presente na sala) e ao Espaço Llansol, na pessoa de João Barrento. Faltou referir a Comunidade Fado Para Todos, à qual Aldina agradece explicitamente no disco; e a Culturgest (apesar de estar num concorrente), onde estreava todos os seus trabalhos, pela insistência e amor à música de Miguel Lobo Antunes.

Surpresa: depois da última vaga de aplausos, desceu uma tela branca sobre o palco (Aldina e os músicos ficaram lá trás) e sobre ela foi projectado, com parte do público já a levantar-se por julgar que tinha acabado, o videoclip de Conto de fadas, precisamente o tema com que abrira o espectáculo e com que abre o disco. Um fechar do círculo de extremo bom gosto, a coroar mais um espectáculo de onde Aldina terá saído merecidamente reconfortada e feliz. Voltando ao início, como no CCB: “Hoje”, escreveu Aldina, “cantei por dentro de um verdadeiro conto de fadas, cantando de fado em fado a poesia do verbo viver.” E nós só podemos agradecer o privilégio.