Gémeos: Francisco só quer colo e Miguel quer dormir sozinho

O plano dos investigadores do Instituto de Saúde Pública e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto é reunir um grupo de 450 gémeos e outros tantos não gémeos até ao final deste ano e depois acompanhá-los até à idade adulta.

Os gémeos Miguel e Francisco
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Os gémeos Miguel e Francisco Joana Gonçalves

Um é loiro, o outro é moreno, pesam (mais coisa, menos coisa) seis quilos e no comprimento a diferença é de apenas 1,5 centímetros. Francisco só quer colo, é mais calmo, e Miguel quer dormir sozinho, é mais irrequieto. São irmãos que nasceram no mesmo dia 29 de Outubro de 2017, na mesma hora, quase no mesmo minuto. Matilde é (para já) filha única, nasceu a 31 de Janeiro de 2018, e dormiu tranquila durante mais de uma hora de conversa entre adultos. A conversa era sobre estes três bebés e sobre o projecto de investigação do qual, ainda tão pequeninos, já fazem parte. Chama-se Bitwin (Birth Cohort of Twins) e é um estudo inédito sobre gémeos em Portugal, que faz parte de um projecto europeu mais alargado para avaliar o peso da genética e do ambiente no desenvolvimento e saúde de um ser humano.

Atrás da chupeta cor-de-rosa, Matilde tem (não esconde) um lábio leporino e fenda palatina. Tem também um lenço colorido com um nó na cabeça coberta por uma penugem e, ao seu lado, tem a mãe e a madrinha a sorrir de orgulho por causa dela. Marta Chumbo soube que a filha teria uma boca imperfeita quando estava grávida há 16 semanas. Quando foi para maternidade em trabalho de parto, no meio do reboliço, desafiaram-na a fazer parte do projecto Bitwin, coordenado por investigadores do Instituto de Saúde Pública e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Aceitou. E tal como não esconde o traço menos perfeito da filha – “pode fotografar à vontade, espero que isso ajude as pessoas a aceitar estes casos com normalidade” –, também não hesita em afirmar que esse foi um dos motivos que a convenceu a participar no projecto de investigação: “Achei que me poderia ajudar a perceber porquê.”

Durante a gravidez, os médicos disseram a Marta Chumbo que a fenda poderia ter sido provocada por factores genéticos ou ambientais, como excesso de consumo álcool ou tabaco. Não fuma nem bebe, mas sabe que o pai de Matilde tem uma história de lábio leporino na família. Assim, apesar das pistas que apontam para uma herança genética, Marta quis saber mais e tentar chegar a algo próximo de uma certeza. Matilde não tem nenhum irmão gémeo mas vai fazer parte do grupo de bebés não gémeos que deverá servir para comparações e que vai passar pelo mesmo processo de avaliação do grupo dos bebés que tiveram irmãos a nascer ao mesmo tempo do que eles. O protocolo inclui a recolha de informação através de questionários e formulários e a colheita de algumas amostras biológicas.

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Marta Chumbo e a filha Matilde Joana Gonçalves

Francisco e Miguel foram recrutados para o Bitwin ainda durante a gravidez. Quando nasceram já faziam parte do projecto. Assim, tal como aconteceu com Marta e Matilde, foram recolhidas as primeiras amostras logo no momento do parto. Um pedacinho de cabelo da mãe e dos bebés, uma amostra do sangue do cordão umbilical, da placenta, do sangue da mãe, da urina, da saliva, do colostro (o primeiro leite ainda pouco maduro que é produzido nos primeiros dias de amamentação pós-parto), das primeiras fezes dos bebés, entre outros processos não invasivos. “Desde que não fizessem nada que provocasse dor aos bebés”, conta Raquel França, mãe dos dois gémeos na sala. André Trigais, o pai, confirma. Sobre a disponibilidade para participar neste projecto, asseguram que a decisão foi fácil. “Acho que é importante ajudar neste tipo de investigações. Quanto mais soubermos, melhor”, resume a mãe.

Há algumas coisas que já descobriram sobre os gémeos ainda antes de alguma resposta do Bitwin. “Já sabemos que são muito diferentes”, anuncia Raquel França, com algum entusiasmo. Parece claro que gostam das diferenças e apressam-se a explicar que o facto de hoje estarem vestidos de igual foi um mero acaso. “Não costumamos fazer isso. Mas recebemos algumas prendas para eles que são assim, dois conjuntos iguais para os gémeos.” Mãe e pai vão completando as frases um do outro num divertido jogo de “descubra as diferenças”. “O Miguel gosta de adormecer sozinho”, avança Raquel. Atrás, junto ao carrinho de bebé duplex, André acrescenta: “O Francisco só quer colo.” E continuam, alternando. “O Miguel gosta mais da chupeta”, “o Francisco prefere o colo”, insiste a mãe. “Um é loiro”, “o outro é moreno”. “O peso é praticamente o mesmo”, “mas têm uma ligeira diferença de 1,5 centímetros no comprimento.”

Mas também há coisas em comum, claro. Partilharam o mesmo ambiente, uterino e agora cá fora. Ainda que a epigenética possa marcar muitas diferenças, com o mesmo ambiente a actuar de diferentes maneiras no organismo. Cá fora, em casa, os pais asseguram que se confirma que “é amor a dobrar”. O mesmo que existe com dois, três, quatro ou mais filhos mas, desta vez, essa dose dupla de bem-querer incondicional também nasce ao mesmo tempo. E, avisam, confirma-se também que é trabalho a dobrar. Sobre a ligação mágica que dizem que existe entre gémeos, que sentem à distância quando o outro chora ou ri, os pais de Franscisco e Miguel ainda não viram qualquer sinal. “Acho que eles só agora começam a aperceber-se de que está alguma coisa ali ao lado a mexer-se também. Só isso.”

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Marta Chumbo, a investigadora Cláudia Ribeiro e Raquel França, da esquerda para a direita Joana Gonçalves

As conversas com os pais permitem antecipar uma imensidão de variáveis que os investigadores vão ter de ter em conta no tratamento dos dados. Miguel e Francisco estão num regime alimentar de amamentação exclusiva e Matilde usa leite em pó. Os gémeos ainda não estiveram doentes – “nem uma febre com as vacinas” – e Matilde já pregou alguns sustos. “Ainda este fim-de-semana teve um episódio de apneia”, conta a madrinha, Ondina Nova, com a bebé a dormir no seu colo.

Os pais que participam neste projecto percebem rapidamente que há muita coisa que vai ser estudada. Um dos primeiros passos é um exaustivo questionário. É quase um livro com várias páginas de perguntas sobre detalhes que vão desde os hábitos do dia-a-dia à história clínica. Tempo previsto necessário para preencher este questionário? Noventa minutos. Marta Chumbo revira os olhos e suspira só de se lembrar. “Havia coisas que nem eu sabia responder. Tive de perguntar ao meu marido, por exemplo, a que distância vivemos de uma auto-estrada. Não sabia. Perguntavam quantas vezes comi carne de porco nos últimos meses, como a cozinhei, se tive contacto com lixívias, tintas ou algum produto químico, muita coisa.” O pormenorizado inquérito não a fez desistir. Nem parece que outra coisa qualquer a faça desistir do Bitwin que vai acontecendo ao mesmo tempo que se cumpre o calendário das intervenções previstas para reparar o lábio de Matilde. “A primeira cirurgia é já a 5 de Abril, depois será ao palato quando fizer um ano, depois aos ouvidos… O médico diz-me que quando fizer 15 anos poderá ainda ter de fazer uma intervenção ao nariz.”

No projecto Bitwin, serão registados os progressos de Matilde, Francisco e Miguel. E muitos mais bebés, se tudo correr bem. O “recrutamento” começou, devagarinho, em Fevereiro de 2017 e actualmente a coorte de nascimento (conjunto de pessoas quem têm certas características em comum) já conta com 133 famílias com gémeos (ou seja, 266 bebés) e 110 de não gémeos. Há gémeos “verdadeiros” (monozigóticos) e “falsos” (dizigóticos). Cláudia Ribeiro, investigadora do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) e coordenadora do projecto, explica que no grupo dos gémeos estão alguns casos de trigémeos mas que, contas feitas, acabam por somar um total de dois bebés por cada família porque este grupo também inclui gémeos que perderam o seu irmão ou irmã. A meta, diz a investigadora, é conseguir até ao final deste ano um grupo de 450 gémeos (225 famílias) e 450 não gémeos. “Gostávamos de ter dois não gémeos para cada par de gémeos.”

Após os primeiros dados recolhidos depois do parto e as informações nas respostas ao questionário, seguem-se outros momentos de questões. Até aos dois anos, não está previsto qualquer acto que exija a presença dos bebés. Assim, as perguntas aos quatro, oito e 12 meses, deverão ser feitas por telefone. “Só aos 24 meses é que podemos pedir uma visita presencial, se os pais puderem, e recolher alguns dados, pesá-los, medi-los, entre outros parâmetros. Até lá, vamos perguntando sobre o que está a acontecer, sobre as doenças, o seu desenvolvimento, a dieta e outras questões”, diz Cláudia Ribeiro. O trabalho poderá vir a ter muitas outras ramificações secundárias, mas o Bitwin aposta em três principais frentes de investigação: doenças respiratórias (asma, bronquite, entre outras), neurodesenvolvimento e doenças metabólicas.

A ideia é, à semelhança do que acontece com outros projectos deste género como o Geração XXI, que também é coordenado pelo ISPUP, acompanhar estes bebés ao longo do tempo, até à idade adulta. O projecto está a começar e, portanto, faz-se um anúncio: precisa-se de gémeos (e não gémeos também para salvaguardar as devidas comparações). O apelo dos investigadores do ISPUP é dirigido a todos os hospitais com maternidade do Grande Porto e, sobretudo, aos pais que vivem nesta zona do país.

Os participantes neste estudo vão fazer parte do projecto europeu HEALS (Health and Environment-wide Associations based on Large population Surveys) que vai criar uma coorte europeia com recém-nascidos gémeos e não gémeos de dez países. O objectivo geral do estudo europeu é “produzir dados harmonizados e padronizados que permitam esclarecer o efeito de exposições internas e externas na saúde a curto prazo (por exemplo, asma e alergias, doenças neurológicas, excesso de peso, obesidade e diabetes na infância) e também acompanhar o desenvolvimento da criança para estudar os efeitos a longo prazo”. Aproveitando a boleia deste projecto em maior escala, nasceu em Portugal o “filhote” do HEALS chamado Bitwin. Ou seja, aquela que será a “primeira coorte de recém-nascidos gémeos em Portugal”.

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Raquel França e os gémeos Miguel e Francisco Joana Gonçalves

No folheto que é distribuído, esclarece-se que os investigadores querem “compreender como é que a relação entre a genética e o ambiente influencia o desenvolvimento das crianças e a ocorrência de doenças”, adiantando que vão “prestar especial atenção aos gémeos, numa perspectiva pioneira, quer em Portugal quer a nível mundial”. Cláudia Ribeiro aproveita para esclarecer algumas das dúvidas mais comuns apresentadas pelos pais. Assim, adianta desde já que não são divulgados resultados individuais. Não esperem, por isso, um relatório detalhado sobre o vosso filho. “Os resultados da investigação serão publicados em revistas científicas, mas serão também divulgados em linguagem compreensível a todos os participantes”, refere o folheto.

A confidencialidade de todos os dados recolhidos está assegurada e os pais podem desistir a qualquer altura, recusar-se a fazer este ou aquele procedimento ou responder a esta ou aquela pergunta. Assim, a participação no projecto não obriga à realização de todas as actividades propostas e que podem ir desde a recolha de amostras biológicas (que serão enviadas para diferentes laboratórios em Itália, França, Grécia, Alemanha, Holanda e Reino Unido) até à marcação de uma visita à habitação para avaliar a qualidade do ar interior e exterior, medindo características do edifício e eventuais fontes de poluição.

Não nos atrevemos a imaginar como é que Miguel, Francisco e Matilde vão crescer. Nem precisamos. Tudo a seu tempo. Agora, nesta reunião de adultos a conversar sobre o seu presente e futuro, portaram-se lindamente. Miguel até aceitou, sem protestos, um colo para ser fotografado. Francisco, curioso, olha em volta. Os gémeos, frente a frente, olham um para o outro sem mostrar grande agitação. Matilde começa a ensaiar alguns sinais sonoros de fome. Os pais disfarçam o cansaço com um genuíno sorriso. André Trigais, o pai dos gémeos, tem um ao colo e parece distraído, insistindo em denunciar as diferenças nos filhos: “Ah… o Francisco chora, o Miguel berra.”