Guiné-Bissau, a beleza do arquipélago dos Bijagós

Os leitores Helder Taveira e Luísa Matos partilham a sua experiência pelas ilhas guineenses.

Foto
DR

A minha paixão por África há muito que reclamava uma passagem pela Guiné-Bissau, em particular pelas ilhas do arquipélago dos Bijagós.

Em Bissau, apenas uma paragem para ver que o tempo aí parou e a pobreza salta à vista. Monumentos degradados, estradas esburacadas mesmo no centro da cidade e junto ao aeroporto, lixeiras a céu aberto onde deambulam animais e pessoas, procurando nem eles sabem o quê.

O nosso destino não era de facto Bissau, mas sim Bubaque. Para evitar uma viagem de barco de cerca de quatro horas, optámos pela avioneta. A viagem para esta pequena ilha foi uma aventura. Foi o piloto quem nos foi chamar à sala de espera e, carregando a mala, lá fomos para a pista. O piloto abriu o porão da avioneta e colocámos a bagagem, como se fosse num táxi e sem passar qualquer controlo. Cheguei a pensar que a Luísa se fosse recusar a entrar na minúscula avioneta com lugar só para três passageiros. Apenas fomos nós e o piloto. O piloto espanhol, José, ligou a ignição e o motor não funcionou. Não passa nada, disse. Depois de sobrevoarmos algumas das ilhas do arquipélago, o piloto preparou-se para a aterragem numa pista de terra batida e cheia de conchinhas do mar. Antes de aterrar, o piloto fez um voo rasante pela pista de modo a afastar as vacas que teimam em pastar naquele lugar.

No chão e já seguros, esperava-nos Charles, que nos transportou para o pequeno hotel, na outra ponta da ilha, mesmo em frente à praia de Bruce, num extenso areal de mais de oito quilómetros. O caminho do aeroporto é uma estrada completamente esburacada. Ladeada de pequenas tabancas cheias de crianças que, alegremente, correm atrás da carrinha.

O hotel não tinha televisão, wifi, a rede de telefones móveis era muito rudimentar. Sossego absoluto. Finalmente, estávamos em pleno coração dos Bijagós.

O Arquipélago dos Bijagós tem o estatuto de reserva ecológica da Biosfera da UNESCO, desde 1996. Dele fazem parte cerca de 90 ilhas, das quais apenas 17 são habitadas. Algumas ilhas têm uma ocupação sazonal, por exemplo, a ilha de Angurman, para onde se deslocam os camponeses para o cultivo do arroz.

Esta reserva ecológica é o abrigo de um sem-número de aves, nomeadamente, abutres, beija-flor de barriga verde, garajau, garça gigante, pelicanos, flamingos e tantos outros. Também podemos encontrar manatins, tartarugas, lontras-do-cabo, tubarões e na ilha de Orango, hipopótamos (únicos do mundo no meio marinho).

Das 17 ilhas, elegemos quatro que seriam o nosso “poiso” nos próximos dias, Bubaque, Canhabaque, Angurman e Soga.

Bubaque, separada por um estreito canal da ilha de Rubane, é a mais visitada por turistas, também devido ao festival de música que decorre por altura da Páscoa. A cidade é desordenada, o seu porto é decadente, mas bonito. Visitámos a Tabanca (aldeia) de Bruce, que fervilha de vida com crianças que correm para nós. A registar também a simpatia do régulo que nos recebeu. As crianças brincam com bolas que eles próprios fazem recorrendo a tecidos e plásticos, pelo que a bola que levámos foi recebida com alegria.

No dia seguinte, pela manhã, o Charles levou-nos no seu barco à ilha de Canhabaque. A viagem é, por si, um hino à natureza! No trajecto, avistamos pelicanos, flamingos e muitas tartarugas que vinham à superfície respirar e logo desapareciam. O desembarque na praia foi épico. Uma praia deserta, areia branca, sem qualquer turista. Um sossego absoluto. Aproximam-se, a medo, muitas crianças que vivem na tabanca no interior da ilha. Fomos visitar a tabanca Ancanho, bem no interior da ilha. Desde tempos ancestrais, as tabancas mais antigas ficavam longe da praia para dessa forma escaparem aos negociantes de escravos que os perseguiam e apanhavam para os venderem como mão-de-obra escrava para as roças de Cabo Verde e para as explorações de açúcar no Brasil.

De seguida, fomos para a ponta sudeste da ilha, mais deserta ainda, onde fizemos um piquenique. Comemos frango com caldo de chabéu (pequenas sementes das palmeiras) de onde extraem um óleo alaranjado). A chegada a essa praia é digna de um filme da National Geographic. Nela, nem crianças das tabancas vimos. Vimos sim algumas iguanas de tamanho considerável sossegadas ao sol. Rapidamente fugiram, escondendo-se na vegetação densa da ilha. Almoçámos à sombra e debaixo de uma árvore. Apenas ouvíamos o barulho do mar e o chilrear das aves.

No dia seguinte, Angurman, esporadicamente habitada por camponeses da ilha vizinha de Soga, que se deslocam para cultivar o arroz. A chegada à ilha é também inesquecível, com os frondosos embondeiros, conhecidos na Guiné-Bissau como cabaceiras ou Bbaobab. São muito bonitas. Aqui vive, alguns meses do ano, François, no seu pequeno refúgio. Recebe calorosamente as pessoas que pela ilha passam.

Seguimos para Soga, mesmo em frente a Angurman. Nesta ilha há três tabancas e foi para lá que nos dirigimos, pois queria entregar mais uma bola às crianças. Pelo carreiro que nos levava ao interior da ilha, eram muitos os ninhos gigantes de formigas que pareciam autênticos castelos. Ananases cresciam de forma espontânea à beira do caminho.

À chegada, somos de novo abordados por dezenas de crianças, na expectativa de conseguirem um simples doce ou uma caneta. Aqui conheci Martinho, que fala um português perfeito. É um privilegiado, pois estudou e é enfermeiro. Foi ele que nos aconselhou a dar a bola na presença de um responsável por cada tabanca para evitar futuros conflitos. Assim foi: reunidos os representantes de cada tabanca, entreguei a bola. Um deles agradeceu em nome de todos. Confesso que me senti um pouco envergonhado, afinal, estava a oferecer apenas uma bola, facto que até referi ao Martinho, que me respondeu: “Para você pode ser pouco, mas para eles significa muito.”

Se na capital, Bissau, há grandes carências, nas ilhas as pessoas estão abandonadas à sua sorte. Não esqueço aquele miúdo de sete, oito anos que correu na nossa direcção dizendo: “Branco, branco!” e ao mesmo tempo exibia a perna onde era visível um ferimento do diâmetro de uma moeda de dois euros, já com alguma profundidade e infectada. Não tínhamos nada que pudesse ajudar aquela criança. Ficámos incomodados.

No último dia, apanhámos de novo a avioneta que nos levou até Bissau, de onde partimos para Lisboa. Chegava ao fim a nossa passagem pelo arquipélago dos Bijagós. Uma experiência gratificante. Sem dúvida, um lugar onde teremos de voltar.

Helder Taveira e Luísa Matos