Crítica

A cozinha tradicional merece uma mesa assim bem posta

À cozinha regional com qualidade e critério, o restaurante associa a oferta diária de peixes e mariscos frescos, num ambiente cuidado e confortável.

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Nelson Garrido

Rústica é a broa de milho, os rojões, bolinhos e pataniscas de bacalhau, os arrozes caldosos com legumes que acompanham o peixe frito ou os robustos assados de cabrito que o forno proporciona aos fins-de-semana. Sim, há comidas rústicas e saborosas neste restaurante, mas a rusticidade fica-se pelos tachos, pelos ingredientes do campo, frescos e naturais, que dão vida aos afinados sabores de velhas receitas da cozinha tradicional.

Com base numa rica cozinha rústica e tradicional, o Rústico tem também uma outra face, aquela que se oferece ao primeiro contacto. A de um restaurante de estética moderna, com serviço cuidado, confortável e convidativo.

Reza a apresentação que “aposta na qualidade dos ingredientes para servir o que de melhor a cozinha tradicional portuguesa tem para oferecer” e que “marca pela diferença, com uma decoração requintada e descontraída que resulta num espaço confortável e aconchegante”. E não andará, de facto, longe da verdade. 

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Nelson Garrido

Outra vertente dessa espécie de dupla personalidade é a que combina os pratos de carne da tradição com a oferta diária de peixes e mariscos frescos.

A meio caminho entre Esposende e Barcelos — e de muito fácil acesso a partir da A28 —, está, assim, também com um pé na costa atlântica e outro no interior minhoto.

À margem da estrada e num plano um pouco mais elevado, o edifício construído para a função beneficia de generoso espaço para estacionamento e ampla fachada envidraçada, a proporcionar brilho e luminosidade interior. Brilho que é ainda potenciado pela decoração de estilo moderno e depurado, em tons claros de cinza e branco, e ainda a cuidada iluminação dirigida sobre as mesas. Baixela igualmente cuidada, serviço de copos apropriados, toalhas e guardanapos de algodão branco.

Enquadradas pela saleta de recepção e entrada, uma sala para cada lado e dispostas em conceito simétrico, apenas com a diferença de que uma delas acolhe também o balcão e a zona de acesso à cozinha. Ao todo, à volta de uma centena de lugares, que, sendo confortáveis e desafogados, poderiam nalgum recanto proporcionar ainda maior privacidade.

A par dos peixes e mariscos, segundo a oferta diária da lota, há ainda um empadão de robalo “especialidade da casa”, polvo e bacalhaus, enquanto nas carnes os rojões à minhota, posta e naco de vitela, feijoadas ou assados fazem as honras diárias. Por esta época também se serve a lampreia e também as cabidelas de frango podem ser encomendadas, já que os assados de forno, cabrito e/ou vitela estão em regra reservados para as ementas de fim-de-semana.

Sugestão de entradas diversificada, das quais se provaram pataniscas (3,75€), pimentinhos grelhados (3€), cogumelos salteados (4,50€) e um apaladado pratinho de feijoada com tripas (6€). Tudo com aprovação e grande satisfação, com destaque para as pataniscas em bolinhas (tipo sonho), muito bem executadas, fofas, crocantes e escorridas. Destaque ainda mais saliente para as saborosas fatias de broa, rústica, escura, de crosta dura e crocante. Sabor a fermento e cereal da autêntica broa de aldeia como já só muito raramente se pode encontrar.

A mesma característica de afinado sabor rústico nos filetes de polvo (16€), com um polme crocante de farinha de milho, impecavelmente fritos e escorridos. Acompanharam com arroz caldoso com legumes e pimento, de bago carolino, sabor e goma a preceito, e convenientemente servido numa caçarola de barro que manteve a temperatura. Impecável!

Emblemáticos duma cozinha tradicional criteriosa e respeitadora são os rojões à minhota (22€), servidos segundo a tradição regional e em dose mais que generosa. Carnes a desfiar que se envolvem na própria gordura, tripinhas enfarinhadas bem fritas e crocantes, bucho, sangue cozido — que aqui é salteado com cebola na frigideira — e ainda as batatinhas louras. Sim, há boa cozinha e respeito pela tradição!

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Para fecho provou-se ainda a posta de vitela (16,80€), dois belos nacos de barrosã grelhados a preceito que acompanharam com batata a murro, mas que a volúpia deixada pelos rojões já não permitiu saborear na plenitude.

Sobremesas de confecção caseira igualmente aprimorada, tendo ficado na memória o pudim de ovos, a torta de maçã e, sobretudo, uma extraordinária tarte de cenoura.

Referência particular para o cuidado com a apresentação e serviço, em louças adequadas que promovem a elegância mas sempre sem desvirtuar a essência da cozinha rústica e respeitando as características dos cozinhados.

Carta de vinhos alargada, sobretudo centrada nos Verdes da região, no Douro e no Alentejo e praticamente sem outras referências. A especificidade — e qualidade — da cozinha justifica também alguns vinhos mais especiais, que podiam enriquecer ainda mais a experiência gastronómica.

Com serviço atento e atencioso, cozinha de sabores rústicos, ambiente urbano e confortável, a experiência gastronómica promete ser sempre compensadora e deixa vontade de voltar.