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Cacharolete

Vou tentar concentrar-me na tarefa que me foi pedida de tentar salvar deste mar de uso indevido, desatenção, desprezo ou esquecimento algumas palavras da língua portuguesa

Não gosto de multidões, organizadas ou desorganizadas, e especialmente destas últimas. Coerentemente, não gosto de ajuntamentos, concentrações, comícios, manifestações, jantares para angariação de fundos, excursões, arraiais, romarias, festas populares, marchas, chás-dançantes, discotecas, pubs, concertos de rock ao ar livre, ralis, gincanas, novenas, quermesses, verbenas, irmandades, confrarias, cortejos, procissões, inaugurações, filas de espera, saldos (exceptuo as feiras de velharias e os leilões de antiguidades, desde que com uma amplitude de espaço bastante para que se possam nele diluir os doidos que lá vão). Tudo isso faz de mim um péssimo candidato a sofrer com um sorriso nos lábios a real pastilha de um cacharolete. E, no entanto, aqui me vêem a dirigir-me, lesto, à casa do dr. Molete, afivelando no rosto, pelo caminho, a máscara combinada da curiosidade, do entusiasmo e da gratidão.

Esta reviravolta espiritual, devo-a a um livro que me acompanha no bolso do casaco para me extrair de secas várias em que me acontece tropeçar. Muito interessante e actual, é uma compilação de cartas do autor a amigos que acolhiam bem a sua erudição e sentido de observação naturalista e ornitológica, incluindo conclusões variadas sobre furões, musaranhos, ratos e homens. Foi aí, em The Natural History and Antiquities of Selborne, do clérigo Gilbert White, publicado em 1788-9, que encontrei esta passagem que me catequizou para o instinto gregário dos animais:

“Mesmo uma grande disparidade de espécie ou de tamanho nem sempre impede o estabelecimento de contactos sociais ou de um espírito de companheirismo mútuo. Porque uma pessoa muito inteligente e observadora me garantiu que, no início da sua vida adulta, tendo apenas um cavalo, lhe aconteceu também ser dono de apenas uma solitária galinha. Estes dois animais incongruentes passavam muito do seu tempo juntos numa horta isolada, onde não avistavam nenhuma outra criatura a não ser um ao outro. A pouco e pouco, um apreço evidente passou a existir entre estes dois animais sequestrados. A ave de capoeira aproximava-se do quadrúpede denotando complacência, roçando ao de leve pelas suas pernas; enquanto o cavalo olhava para baixo com satisfação e se movia com o maior dos cuidados e das circunspecções, não fosse tropeçar na sua diminuta companheira. Deste modo, pela prática de bons ofícios mútuos, cada um deles parecia consolar as horas vagas do outro: pelo que Milton, quando pôs o sentimento seguinte na boca de Adão, parece ter estado um tudo-nada enganado:

‘Muito menos pode a ave com a fera, ou o peixe com a ave de capoeira Conversar assim tão bem, nem com o boi o macaco’”

Assim, de uma penada, tive eu uma lição sobre a lei da atracção universal – e não me refiro à astrofísica – e o eterno Milton, mesmo que da lei da morte se tenha libertado, não se livrou da embaçadela de, com O Paraíso Perdido e tudo, ter mostrado conhecer menos o mundo do que o singelo clérigo de Selborne.

Passemos daqui ao meu anfitrião, o dr. Molete (rima com sete). Ou, melhor, ao seu nome de família, pois dele pouco sei. Molete (do francês pain mollet) é um dos nomes que, numa parte do Norte de Portugal, se dão aos pãezinhos de trigo mais corriqueiros das padarias, que, noutras regiões, podem ser pão-bijou, carcaça, papo-seco, pão-francês e, antigamente, apenas trigo, por oposição à mais barata e mais grosseira broa de milho ou de centeio.

Atestando a confusão que se gera por, com uma língua comum, chamarmos nomes diferentes às mesmas coisas, lembro uma pequena história passada com a minha avó paterna, brasileira do Rio de Janeiro, que se viu, de repente, por casamento, no interior português, e a quem uma empregada da casa fez a seguinte pergunta, ao despedir-se à noitinha, para voltar na manhã seguinte: “Ó minha senhora, quantos moletes quer para amanhã?...” Muito intrigada, a minha avó devolveu a pergunta: “Moleques?... Mas para que queria eu moleques?...” E agora tenho de explicar aos leitores que o não sabem que moleques (do quimbundo mu’leke) são, no Brasil, crianças, miúdos, cachopos, catraios, ganapos, garotos, rapazes, pivetes.

Resolvidos estes problemas, vamos a outro: o que é um cacharolete? Simplesmente, muito simplesmente, a palavra portuguesa que Deus nos deu para não termos de tomar de empréstimo o inglês cocktail. A quem não gostar, pergunto: é melhor um rabo de galo do que um cacharolete, só porque é em inglês? Bem sei que quando é em inglês o cérebro das pessoas congela e o senso comum vai de férias, mas façamos um pequeno esforço no caminho de volta à sanidade mental: dizer “fui convidado para um rabo de galo” é apenas estúpido, ao passo que dizer “fui convidado para um cacharolete” é todo um mundo de possibilidades que se abre, pois ninguém faz ideia do que seja. É como ir a uma Disneylândia ao domicílio. E é para lá que eu vou.

A casa do dr. Molete é digna de descrições aturadas, mas que me coíbo de fazer, por imaginar que os leitores não me as aturariam, pelo adiamento intolerável que causariam ao que mais lhes interessa, que são as rendilhadas engrenagens que, rodando sobre si mesmas em torno de bem lubrificados eixos apoiados em competentes chumaceiras, constituem as intricadas inter-relações humanas.

Um entusiástico abraço do anfitrião, que largou o casal com quem falava para me receber, convenceu-me do acerto da minha decisão e da razão preclara do padre Gilbert White.

“Bem-vindo, meu amigo, bem-vindo. É uma honra recebê-lo na minha humilde cabana. O que toma?” Assim surpreendido, só me lembrei de dizer: “Uma água mineral sem microplásticos, por favor...”

“Água mineral? Nunca! Nunca na casa dos Mendes da Silva! Tenho aqui um vinho do Porto caseiro das minhas terras do Douro que é de estalo!...”

“Mas então o sr. não é o dr. Molete?”, perguntei, alarmado, temendo ter-me enganado na residência (a verdade é que eu nunca tinha encontrado o dr. Molete).

A minha pergunta não pareceu ter sido muito feliz. As tais engrenagens humanas pararam tão instantaneamente como um diferencial de automóvel gripado. Os homens olharam para as biqueiras dos sapatos (excepto aqueles a quem a proeminência abdominal lhes cortava a linha de visão) e as senhoras olharam para as carteiras como se se tivessem esquecido de lhes retirar as etiquetas do preço (excepto as que repararam que não tinham tirado as etiquetas, que olhavam para o tecto). O dr. Molete – ou lá o que era... — era todo olhos para mim, olhos e faces rutilantes, sugerindo uma iminente apoplexia.

“Não existe nesta casa tal personagem! Tal como o meu pai, que era tabelião, sou Vasconcelos Mendes da Silva!”, vociferou, em tom de leitura dramatizada.

“Peço desculpa a V. Ex.ª, mas fui, por certo, mal informado, quem sabe se velhacamente...”, trucilei.

“Quem o intermediou?”, perguntou. Dei-lhe um nome. “Ah! Tudo se explica! Esse caluniador, esse plagiador, esse ás da contrafacção etílica, esse papa-hóstias!...”

Achei mais prudente concordar com tudo, mesmo o que não tinha sido dado como provado em juízo. Felizmente, aquele acesso verborreico tinha exercido acção medicinal e emoliente sobre um catarro duro que ameaçava asfixiar o impoluto dono da casa que me acolhia. Tudo se explicou. E voltou tudo à primeira forma. Afinal, eu tinha sido agente (não sou actor... ainda...) involuntário de uma velhacaria que tinha fonte numa das partes de uma história antiga de bulhas por direitos de água de rega, o que dá sempre material para anedotas hilariantes para citadino ouvir, mas que dá mortes nas áreas rurais, não por lá serem especialmente burros, mas por lá perceberem melhor que, sem água, a terra não dá o pão que até os citadinos comem.

Reatou-se o movimento das rodas dentadas daquele microcosmo. Rapidamente voltaram à velocidade de cruzeiro. E que mundo fascinante era aquele! Que girândola de sensações, que trampolim de ambições, que sublimidade na casa do nosso próprio ego, que filão inesgotável de possibilidades! Num momento, era apresentado a um empresário, no outro a um membro da aristocracia cascalense.

Ao fim de algum tempo, já me abordavam personagens que um dia antes – que digo?, uma hora antes – julgaria saídas de um romance de Erskine Caldwell, de um manual prático de marketing, de uma autobiografia de um milionário, de uma comédia de costumes, de um filme português da década de 40, de uma universidade portuguesa da década de 2010, de uma peça de Ionesco, de um programa de autoCAD.

Fiquei a saber que tinha sido ali que, há uns anos, dois jovens amigos vindos do interior com a intenção de abrir uma empresa de comercialização de combustíveis para progredir na vida tinham sido persuadidos, por simples força de argumentação, a trocar essa ideia por se inscreverem num dos partidos “do arco da governação” (pura poesia) e a tomarem-no de assalto por dentro, o que só está ao alcance dos espíritos combativos, persistentes e “focados” (daqueles tipos que mordem e não largam, mesmo que seja uma canela em movimento), o que abriria – e abriu – horizontes empresariais muito mais vastos.

Não havia dúvidas de que aquela sala era o melhor ambiente possível para lançar um negócio. Era melhor do que o “empresa na hora” porque fornecia um “pacote” bastante completo das “valências” que era preciso dominar, como, por exemplo, a melhor forma de arranjar financiamento, como abrir uma conta “off shore” para pagar a comissão ao político pela cunha ao amigo que manda num banco que concede o empréstimo, como conseguir uma sentença favorável em tribunal, até a melhor loja para comprar as malas pretas de modelo diplomático com que os mensageiros especializados e motoristas particulares faziam circular os pagamentos em notas de 500 euros, tomando parte naquele belissimamente coreografado carrossel mágico que todos os dias contribui para tornar mais pitoresca a vida pitoresca de Lisboa que os turistas tão bem conhecem e tanto procuram. E ainda dizem que o tecido industrial português é pequeno e atrasado. Senhores, é preciso saber do que falam! E para saber é preciso conhecer estes areópagos de empreendedorismo transbordante e efervescente a que só se tem acesso por convite. Acho que era aquilo a que chamam uma “incubadora de empresas”. Sim senhor, muito me contam!... Confesso que não consegui conter um certo frémito ancestral que senti que vinha do início da nacionalidade...

Nem tudo foram rosas, é certo. Uma senhora um pouco entrada nos anos mas bastante robusta pareceu engraçar comigo e queria, em todo o modo, que eu passasse pela morada que me entregou em papel perfumado, sob o pretexto de ter lá umas persianas que precisavam de ser arranjadas e não haver em território nacional pessoal especializado em número, qualidade e, especialmente, em cumprimento de datas acordadas que lhe resolvessem o problema. Ainda hoje não sei que ponta possa eu ter deixado de fora para que visse em mim uma perícia técnica na área da ocultação doméstica de vistas ou da criação de penumbras, mas, mais uma vez, vi confirmada aquela velha regra segundo a qual não tenho dificuldade em encantar elementos do sexo feminino com idades compreendidas entre os zero e os dez anos e entre os 60 e os 110 anos. O diabo sempre residiu no segmento que medeia entre aqueles dois, mas continuo a trabalhar numa forma sofisticada de exorcismo...

Maior provação à paciência foi a aparição repetida de um indivíduo que era a circunspecção em pessoa, não fosse uma pequena mania para se acercar de alguém – e, no caso mais grave, de mim – e, pondo-se ao lado, como se nos acompanhasse no exame mais atento de um quadro, uma jarra, um candelabro de prata, começar, sem intróito nem incentivo – juro! – começar a declamar o que começava por parecer um composição poética, digamos, vanguardista, pela falta de nexo, mas que, a seu tempo, se revelava como uma avaliação comparativa exaustiva das características técnicas mais intersticiais dos modelos de automóveis mais competitivos, insistindo no rendimento obtido por versões a gasolina, a diesel, a electricidade e híbridos. Ouvi falar em velocidades dos zero aos cem, em potência medida em cavalos, em computadores de bordo, em torque, em binário, em GPS, em faróis de xénon (que, além de um gás raro, é uma das poucas palavras portuguesas terminadas em “n”), em semieixos trapezoidais, em caixas de velocidades automáticas, em pneus de baixo perfil, em assentos de couro aquecidos, filtros de partículas, óleos sintéticos, valvolinas, panelas de escape, sensores lambda, catalisadores, diferenciais, satélites e planetários. Ele até sabia o que era o “bendix” do motor de arranque!

Que pena um evento destes ter um fim… Felizmente, tinha um castelo maravilhoso e uma família maravilhosa para onde voltar. Pelo caminho, vi uma estrela-cadente que era, por certo, um amigo que perdi. Lá onde estiver, sei que vai continuar a ler-me, mas que falta me farão os seus comentários...

Correio premente

De Cipriano Robinson, lugar da Catraia, freguesia de Cachopo, concelho de Tavira: “Há uma argumentação em Portugal que eu nunca compreendi, a não ser por aquela velha mania de qualquer um se meter a governar a casa dos outros com toda a facilidade (quando não sabem governar a sua): ‘Quem tem um carro destes pode bem pagar um imposto de circulação de 300 euros por ano’; ‘quem tem uma casa dessas pode ter um empregada diária ou duas, um jardineiro que nunca deixe as plantas crescer até aos limites da aldeia e pagar 3000 euros por ano de IMI’. Ora, é claro que não é assim. Uma pessoa pode passar a vida a juntar selos postais ou cupões de desconto ou as moedas com que chega a casa para comprar um carro ou uma casa e sentir-se livre, mas não pode porque, quando juntou finalmente a quantia, não tem dinheiro para fazer a escritura e muito menos para pagar ao Estado todos os anos, até ao fim da sua vida natural, o equivalente a uma renda pela sua própria casa. Foi para ter casa própria e não pagar um imposto muito alto que construí eu mesmo uma casa na árvore, onde vivo desde 1958. Mas agora não consigo pregar olho porque me aparece todo o género de gente debaixo da minha árvore, que até tem um canteirinho de pedrinhas que fiz à volta, a insistir que eu tenho de deitar a minha árvore abaixo porque ela está a menos de dois metros da minha casa e que vai ser uma grande desgraça e que o Costa disse que tínhamos que fazer alguma coisa e por que é que eu não faço alguma coisa porque eles estão todos aflitos e o Governo ainda mais, para ficar bem nos números, quando se compararem os incêndios PS com os incêndios PSD. Todos os dias de manhã, bem cedo, em vez de aproveitar a calmaria da minha casa, tenho de despejar baldes de água fria para espantar dali os fulanos que se juntam à beira do tronco da minha árvore com machados, motosserras, tesouras de jardinagem, tesouras de poda, ancinhos e limas das unhas – alguns até organizados em claques da GNR, dos bombeiros, das Finanças e da junta de freguesia – e ameaçando-me com multas e coimas a dobrar para ajudar à recapitalização dos bancos em falência técnica. E chamam-me nomes. E eu não aguento as dores nos ossos, por despejar tantos baldes de água. E agora tenho mais gente do Ministério do Ambiente à minha porta a dizer para eu poupar água porque estamos em seca extrema. É isto a democracia?...”

É isto.