Opinião

O teatro é grego, o espectáculo é romano

O teatro, sendo um serviço público geral e universal, merecia hoje estar a celebrar o seu dia com outra liberdade de perspectivas e existência real.

Não sei se há razões para celebrar este Dia Mundial do Teatro. Nem se haverá razões para celebrar um dia nacional do teatro. Talvez existam razões para celebrar um dia local do teatro: temos a construção do nosso edifício teatral em perspectiva — trata-se de uma casa para um programa e uma equipa, não de uma casa sem sujeito de projecto e com funções apenas de distribuição, sem razão de ser criativa, essencial, equipa, uma fábrica de sonhos. O facto de não haver razões globais nem razões nacionais — o estado do mundo é mau, o estado do nosso teatro miserável — tornam a celebração mais significativa como luta: festa e luta coincidem.

Haverá razões para celebrar o teatro, a sua vida? Sim, na perspectiva de sempre: vou ao teatro ver a vida para melhor a entender e poder observar-me a mim e aos outros, em cena, movendo-me entre as “muitas maneiras de enganos” de que se compõe. O teatro é um antídoto esclarecido para a vida imposta pelo mercado, uma escola acerca do todo e do tudo, para todos. E de nível superior universal, sendo teatro. Isso pressupõe que a democracia seja avançada como projecto de governação, culta, que nela o debate acerca dos seus destinos e os modos da sua governação sejam qualificados, não o caos entrópico em que submergimos — podíamos e podemos ajudar a isso. Nem com um periscópio com uma lupa Hubble, iluminada, racional, nos safamos pelo modo como o mundo e o país caminham, a quantidade de lixo informativo, publicitário, “cultural”, a negatividade dos acontecimentos reais, sufoca todos e preenche os canais de comunicação.

No meio dessa ideologia do mercado que tudo caotiza assistimos a uma espécie de tentativa de extinção das artes da presença corporal e sua substituição por lógicas de entretenimento permanentes que provocam adição. O controlo social passa por um esquema de capilaridade comunicativa que não desliga. Cada cidadão tem uma trela que o liga a um centro de rosto maquinal e desconhecido. Ainda agora soubemos do desvio de 50 milhões de perfis do Facebook ao serviço da eleição de um psicopata. O que aconteceu. Celebrar um Dia Mundial do Teatro é ter a consciência disso e praticar um teatro que democratize a vida, que abra as portas da imaginação a outro futuro neste em que estamos a viver e contra as suas inigualdades e iniquidades constantes. Isso significa muitas formas de teatro, já que somos a única arte de uma inter e transdisciplinaridade íntegras desde a fundação. Sim, estamos ligados a uma origem, a uma origem política e teatral. De que nos orgulhamos. Somos mais antigos que todas as igrejas e surgimos da festa ritual. Somos desde sempre uma igreja laica querendo espalhar uma alegria emancipada, não dependente de visões particulares nem de clubes. Estamos nesse sentido irmanados com a filosofia. O teatro é um outro da política e uma forma de pensar escrita em cena através dos corpos dos actores numa interacção narrativa num espaço preciso — esse complexo de produção de sentido produz pensamento. E isso, sendo um prazer possível, como rir e chorar são acções e reacções vitais, não agrada a quem vê a vida como controlo e como estatística, como modelo social dependente apenas de uma unilateralidade económica justificada por uma narrativa dogmática e única: o autoritarismo de tipo austeritário continua para muitos aspectos da vida em sociedade, o modelo europeu é cada vez menos europeu e mais ultraliberal. O dinheiro é um meio, não é um fim. É essa a sua importância, não devemos fetichizá-lo, sacralizá-lo num altar, as estatísticas não são o sumo ideológico de nenhuma redenção possível, nem isso existe.

Isso implica conceber uma democracia cultural. O que não temos. O teatro, sendo um serviço público geral e universal, merecia hoje estar a celebrar o seu dia com outra liberdade de perspectivas e existência real. Para isso teria de estar entrosado com uma democracia culta e adulta como se diz aí num ecrã. Mas não, somos de facto, à excepção das grandes estruturas — deveriam existir muitas mais, médias e grandes, outras, cobrindo o território e as suas demografias assimétricas —, favelizados, marginalizados e a nossa arte é esmagada nas suas potencialidades. O teatro é grego, o espectáculo é romano.