Da empregada de limpeza ao presidente: o desporto chegou ao trabalho

Nos corredores do edifício da autarquia, no jardim, no mercado. Os trabalhadores municipais de São João da Madeira têm 30 minutos de dispensa semanal para fazer exercício. No local de trabalho. A ideia do vereador Pedro Silva quer fazer escola

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Joana Gonçalves
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Cumprem a pontualidade como se picassem o ponto à entrada no trabalho. Estão, em rigor, no seu posto e em horas de serviço. Mas não em registo profissional. São 9h45 de uma quinta-feira e enquanto os vendedores do mercado municipal de São João da Madeira vão vendendo os seus produtos, meia dúzia de trabalhadores camarários reúnem-se junto ao gabinete do encarregado do espaço. “Vamos à caminhada?”, pergunta Valdemar Vaz, voz de desafio sorridente. E logo as pernas dos “alunos” se mexem em sinal de concordância. Percorrem o mercado, escadas acima, escadas abaixo, e à medida que o percurso se faz a turma vai-se avolumando.

— Ó dona Rosa, venha!

— Eu ia de boa vontade! Mas não posso deixar a banca.

António, trabalhador do mercado, vai anunciando a aula como se apregoasse fruta, legumes, um produto qualquer. E um ou outro arrisca abandonar a bancada para se juntar à iniciativa desenhada pelo vereador do desporto e juventude, Pedro Silva: um projecto de sessões informais de exercício físico para trabalhadores municipais.

Laura Ribeiro não se deixa vencer pelos “graves problemas nos joelhos”. Tem 66 anos, “pelo menos 35” como vendedora de roupa no mercado, e não perde uma aula apesar da dificuldade em caminhar. Tantas horas passa no trabalho, muitas vezes de pé, que os finais do dia são quase sempre um anseio de descanso: “Quando saio, já não tenho força para ir para outro sítio fazer ginástica.” Por isso, as aulas vieram como uma dádiva divina: “É logo outra alegria e o pouquinho que é já ajuda”, comenta satisfeita, para logo admitir o orgulho aumentado de mãe: “O vereador é meu filho.”

São 30 minutos de desporto por semana, em alguns casos divididos em duas aulas. E de um projecto-piloto no Fórum Municipal, ainda burilado com receio de pouca adesão, a onda cresceu e foi apanhada por trabalhadores de vários sectores: os do mercado, os dos armazéns, os jardineiros. Em breve, também os da Casa da Criatividade e da incubadora Oliva Creative Factory terão o mesmo direito.

O plano surgiu numa das primeiras reuniões da equipa socialista que assumiu os destinos do mais pequeno concelho do país em Outubro. Jorge Sequeira, agora presidente, tinha assumido “uma visão de futuro” como slogan de campanha. E para Pedro Silva, com a pasta do desporto e juventude, isso não era possível sem “cuidar do presente”. Com o desafio de levar para dentro da câmara o seu conhecimento, propôs fazer para os 290 trabalhadores municipais aquilo que praticava profissionalmente com a sua empresa. Mas de forma gratuita. “Queríamos começar de dentro para fora, dar o exemplo. Isto é serviço público.”

É o próprio vereador quem assume, desde final de Janeiro, as aulas às segundas e quartas-feiras no Fórum Municipal, o edifício onde funcionam vários serviços da câmara e onde tem o seu gabinete. O relógio está a bater as nove horas da manhã e um grupo de trabalhadores reúne-se num corredor do segundo piso. Há quem se renda à roupa desportiva, quem assuma o traje de trabalho, há saias e saltos altos. “Não dispenso o bâton”, comenta com uma energia invejável Isabel Xará. A engenheira civil, fiscalizadora de obras na câmara há 25 anos, anda entusiasmada com a iniciativa. Já antecipa os dias de Primavera para se dedicar a caminhadas no jardim vizinho do local de trabalho. E ainda que não seja muito dada ao desporto não hesitou em abraçar o plano.

São apenas 15 minutos. “Mas chegam para aliviar o stress” e são fonte de “felicidade”. Isabel Xará jura que tem notado os colegas menos cabisbaixos no elevador. É que se antes muitos não se conheciam e trocavam um bom dia tímido, “sem olhar nos olhos”, quando se cruzavam, agora o vínculo aconteceu. “Criou-se uma ligação entre departamentos”, analisa.

Pedro Silva, 43 anos, não quer trabalhar apenas a musculatura. O LaboSer — palavra que brinca as palavras labor [trabalho] e ser — não responde à recomendação mundial de saúde de praticar 150 minutos de exercício moderado por semana. Mas é um incentivo, um sinal. E vai para lá do desporto. “As sessões juntam toda a gente no mesmo patamar, do presidente à funcionária da limpeza” e, dessa forma, “aumentam a proximidade entre trabalhadores”. Foi o caso de dois colegas que não se falavam há algum tempo e que numa das aulas se viram a pôr os desentendimentos de lado: “Comentou-se que parecia uma sessão do Perdoa-me”, conta divertido o vereador, licenciado em Educação Física, mestre em saúde e doutor na área do envelhecimento.

Além desta promoção dos relacionamentos e do exercício, o programa delineado quer tocar em diversas áreas. Em breve, a nutricionista da câmara leccionará um workshop, provavelmente centrado na dieta mediterrânica, classificada pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Em curso está já uma espécie de campanha antipreguiça, com autocolantes à porta dos elevadores em modo de apelo: “Entre pisos, evite o elevador”, lê-se. “Queremos combater o tempo sentado e o sedentarismo, explicar como é importante interromper o tempo de trabalho a cada 30 ou 45 minutos.”

Nos Estados Unidos da América, geografia inspiradora para Pedro Silva no que à promoção da saúde no trabalho diz respeito, há vários exemplos de iniciativas do género: “O uso das escadas, por exemplo, é muito promovido. Até se fazem exposições entre pisos, para incentivar as pessoas a passar por lá”, comenta. Por cá, não há muitas práticas a imitar. “Em termos públicos, há um projecto interessante na Câmara de Águeda. Mais não conheço.”

Desporto ainda é negligenciado

As “escolhas mais saudáveis” podem ser desencadeadas por “pequenos catalisadores”. E ir fazendo escola. “A vida é muito mais do que trabalho”, sublinha Pedro Silva, como quem justifica a importância de cuidarmos de nós. Em Portugal, “o desporto ainda é muito negligenciado” e a “actividade física no local de trabalho é praticamente inexistente”, lamenta. “É obrigatório fazer uma consulta por ano. E pouco mais. Fomentar a saúde não é isto, o bem-estar é multidimensional.”

Pedro debruça-se na semântica para mostrar aquilo que é cultura enraizada por cá: “Temos um Ministério da Saúde que é, na verdade, um Ministério da Doença. A verdadeira saúde é negligenciada”, diagnostica. No seu gabinete na autarquia, uma série de frases em inglês afixadas nas paredes explicam a aposta no LaboSer. Uma delas é para o autarca um verdadeiro mantra: “Não existe desenvolvimento profissional sem desenvolvimento pessoal.” Ou, por outras palavras: daquele programa querem fazer-se melhores trabalhadores.

José Valente, 63 anos, fica para trás quando, depois de alguns minutos de exercícios feitos num círculo e entre sorrisos rasgados, um grupo de 30 jardineiros inicia em passo acelerado uma série de voltas ao quarteirão, colete amarelo vestido. “Há uns anos tive um acidente e não posso fazer esse tipo de esforços”, explica. Trabalhou vários anos na secção de águas e saneamento da câmara e há cerca de oito meses foi para a jardinagem. Corta relva, limpa estradas, planta. “Isto é bom para desenferrujar”, comenta, “só havia de ser mais vezes”.

A aula ao ar livre com início às 8h30 termina 15 minutos depois. Rapidamente as três dezenas de trabalhadores se distribuem pelas quatro carrinhas e dois carros: o dia de trabalho vai começar. “Mais do que educação física, é activação do corpo”, diz Valdemar Vaz, que divide a orientação das aulas com Pedro Silva. “Há quem tenha limitações físicas e explico sempre que não há problema. Cada um faz o que pode. O importante é estar no grupo e fazer pequenas actividades.” E mesmo num agregado com um trabalho duro, como o dos jardineiros, aqueles 30 minutos semanais “fazem a diferença”. Palavra de António Coelho, coordenador destes trabalhadores.

Quando terminou o seu doutoramento, há quase dez anos, Pedro Silva foi ao Ministério da Saúde e à Direcção-Geral da Saúde apresentar a ideia subjacente àquilo que tinha estudado: a aplicação dos acelerómetros na promoção do desporto. Os aparelhos eram na altura “uma novidade” naquela área e ele ambicionava pôr em funcionamento um projecto que propunha monitorizar a actividade física das crianças: enquanto não cumpriam os 60 minutos de exercício diário recomendado, não tinham direito a usar o computador Magalhães (ou o smartphone ou tablet). A crise sentia-se forte em Portugal e o argumento financeiro deixou o plano na gaveta.

Com a sensação de que o assunto tinha pernas para andar, Pedro Silva arriscou, em 2013, criar a Exerlife: uma startup que presta serviços de consultoria para a saúde pública e individual, incentivando a adopção de estilos de vida mais saudáveis, representa equipamentos desportivos e desenvolve tecnologia relacionada com desporto e saúde.

Adaptando a ideia pensada para os mais novos aos idosos, Pedro Silva já deu nas vistas ao ser seleccionado para uma bolsa do Banco de Inovação Social da Santa Casa da Misericórdia, em Lisboa, com a qual fez um projecto experimental em Loulé. E já testou um piloto em São João da Madeira com uma turma de 4.º ano. Sem exercício, não havia tecnologia.

Como empresário, tentou por diversas vezes fazer negócio com a autarquia onde agora é vereador. “Nunca foi possível. Agora, ironicamente, faço-o pro bono”, diz a pôr os pontos nos is no que a conflitos de interesses diz respeito. No futuro, Pedro Silva quer ainda apostar no desenvolvimento de uma aplicação móvel do LaboSer. Por essa via podem ser feitos desafios aos trabalhadores, combinar encontros informais, caminhadas, aulas. E monitorizar o exercício físico. “O plano nacional da actividade física está neste momento focado em centros de saúde e farmácias. Gostava que estivesse também em autarquias e juntas de freguesia”, aponta.

Com o grupo aumentado, depois da caminhada inicial de sedução de novos “alunos” para a aula no mercado municipal, os exercícios fazem-se no passadiço do primeiro piso, com o cacarejar dos galos como música de fundo e vistas para bancadas de frutas e legumes, talhos e flores. Do rés-do-chão olha-se para o alto, do segundo piso, um grupo de quatro mulheres acercadas do beiral comentam a aula sorridentes. Ali ao lado, uma vendedora vai acompanhando os movimentos sem coragem de se juntar ao grupo apesar das provocações galhofeiras de alguns clientes.

— Ó Juventude, não faz a aula?

Juventude Azevedo é o nome invulgar da mulher que um dia foi dactilógrafa mas se rendeu ao mercado para ajudar a mãe nas contas quando a ASAE apertou o cerco e tirava horas de sono à vendedora, pouco dada a matemáticas e papéis. “Não posso deixar a banca sozinha, com o dinheiro. E não posso perder clientes. O negócio já vai mal assim...”, justifica Juventude deixando a devida vénia à ideia. Vera Marques, veterinária da autarquia há 14 anos, não dispensa aqueles 30 minutos uma vez por semana. O “espírito de convívio”, diz, é coisa que se notou aumentada desde que a iniciativa ganhou forma. Mas os ganhos maiores apresenta-os numa trilogia perfeita: “Melhora-se a postura, ganha-se consciência das nossas limitações e trabalha-se melhor”, aponta, para logo deixar um apelo misturado de conselho: “Era bom que as empresas pensassem sobre isto.”