O Tremor levantou voo da ilha de São Miguel

Nas últimas quatro edições o festival Tremor já tinha ganho asas. Mas à quinta edição levantou mesmo voo e rumou até à ilha de Santa Maria, para um concerto no coreto com os Boogarins.

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Foi preciso caminhar na floresta durante cerca de uma hora para chegar aos Tír na Gnod DR
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A suíça Aisha Devi fez-se acompanhar por imagens de Emile Barrett CARLOS BRUM MELO
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Os Paisiel na cave do Arquipélago CARLOS BRUM MELO
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Os Boogarins actuaram no coreto de Vila do Porto, ilha de Santa Maria DR

Hora de almoço, esta sexta-feira, na pequena localidade de Vila do Porto, ilha de Santa Maria, Açores. No largo central da localidade, cerca de dez operários estão encostados à parede tingida de branco pelos raios de sol. À sua frente, um grupo de miúdos na hora do recreio da escola mantém-se surpreendentemente quieto, tal como umas quantas senhoras mais idosas, invariavelmente vestidas de negro, sentadas em bancos públicos. Misturados com todos eles, cerca de 60 pessoas, mais relaxadas, sentadas no chão, ou dançando, algumas vindas do estrangeiro, outras de vários pontos do país.

No coreto, em que todos os olhares incidiam, estavam os Boogarins, o quarteto rock brasileiro que nos últimos anos tem corrido mundo, propondo uma música tão intensa quanto cósmica e de balanço rítmico sonhador. O mesmo é dizer que Vila do Porto foi atingida esta sexta-feira por um raio psicadélico chamado Tremor, o festival que há cinco anos tem vindo a crescer de forma segura, congregando música e experiências na natureza, dando a conhecer os Açores a quem vem de fora e trazendo o mundo a quem vive nas ilhas. Foi uma ocasião também especial para o próprio evento. Pela primeira vez o Tremor saiu de São Miguel. Desde terça-feira, quando teve início, já se tinha feito ouvir nas piscinas de água quente do Parque Terra Nostra com Tó Trips e João Doce, ou nas Termas da Ferraria com o brasileiro O Gringo Sou Eu, mas na sexta-feira ganhou asas e voou.

Uma das marcas identitárias do festival são os acontecimentos-surpresa diários que envolvem sempre um concerto num local exótico, para o qual são convocadas cerca de 50 pessoas que nunca sabem ao que vão. A operação de sexta-feira envolvia acordar às 4h30 da madrugada. Existia a percepção que a coisa talvez envolvesse uma viagem, mas ninguém o sabia ao certo. A ida de autocarro até ao aeroporto desvaneceu as dúvidas. Santa Maria era o destino. Numa congregação de esforços com o Governo Regional, visitaram-se pontos de interesse da ilha, conheceram-se agentes culturais locais, ouviram-se sons da natureza no Poço da Pedreira, assistiu-se ao concerto-surpresa dos Boogarins e partilharam-se experiências.

“Foi bom poder tocar num ambiente diferente, e ao mesmo tempo é um desafio, porque nos confrontamos com pessoas e situações novas”, dizia-nos o vocalista e guitarrista dos Boogarins, Dinho. Já Susana Gonçalves, de Leiria, apesar de cansada – tinha optado por fazer directa – se regozijava com o facto de o festival continuar a surpreender: “É a minha terceira vez no Tremor e não existe nada igual. É verdade outros festivais organizam surpresas, mas aqui a grande vantagem é este ecossistema natural que é difícil de encontrar em qualquer outra parte do mundo.”

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No dia anterior, quinta-feira, isso pôde ser constatado num outro acontecimento-surpresa. A única coisa que se sabia era que se iria percorrer um trilho, sendo solicitado que não fossem tiradas fotos ou se conversasse no percurso para que a fruição fosse total. A música, dos Tír na Gnod (Paddy Shine e Marlene Ribeiro), era para ser ouvida em auscultadores. E assim foi. Durante quase uma hora, imersas na floresta, ladeadas por árvores gigantes, precipícios e ribeiras, andando em silêncio por passadiços e terrenos húmidos, com música ambientalista nos ouvidos, cerca de 70 pessoas acabaram no local conhecido como Salto do Cabrito. Aí, junto a uma queda de água, os Tír na Gnod esperavam os caminhantes para uma performance de saudação à natureza, com os seus sons cósmicos, a acção teatral do irlandês Paddy Shine e a disposição das pessoas pelo espaço a criarem uma fascinante atmosfera ritualista.

Mas nem só de acções destas vive o Tremor. No espaço do Ateneu Comercial de Ponta Delgada, na noite de quinta-feira, foi possível ouvir os americanos Sheer Mag, descarga de rock & roll com atitude e nostalgia pelos anos 1970 a que falta alguma dose de nervo e inventividade. A magnífica sala, totalmente lotada, uma espécie de salão de baile aprimorado com grande requinte, não se queixou e fez a festa acontecer.

Mais experimental foi a noite de sexta-feira, com o Tremor a deixar Ponta Delgada para ir até à Ribeira Grande, aproveitando o facto de estar aí situado um dos melhores equipamentos culturais dos Açores, o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas. Foi aí, na cave, que um público numeroso pôde assistir à sessão de virtuosismo de José Valente, manipulando umas vezes, tocando no sentido mais clássico noutras, a sua viola de arco; ou à sessão de poderio musical evidenciada pelo baterista João Pais Filipe (HHY & The Macumbas) e pelo saxofonista alemão Julius Gabriel, ou seja, os Paisiel. Entre o jazz, o rock, ritmos mecânicos e improvisos catárticos, propuseram uma fantástica digressão sonora, tão arrojada quanto hipnótica.

Enquanto isso uma fila de pessoas aglomerava-se à porta de uma outra sala, para assistir à performance da suíça Aisha Devi – com imagens de Emile Barrett –, que, como era esperado, propôs uma pop electrónica desconstruída até à quase abstracção, com os climas negros a dominarem.

O Tremor termina este sábado, com inúmeros espaços de Ponta Delgada a receberem nomes como Liima, The Parkinsons, Baby Dee, Dead Combo, Ermo, Boogarins ou Lone Taxidermist, numa noite em que o Tremor promete voltar a levantar voo, mas desta vez apenas de forma metafórica.

O PÚBLICO viajou com o apoio da Azores Airlines, da Visitazores e do Neat Hotel Avenida