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Megafone

Por detrás do meu ecrã posso tudo

Se não podemos viajar para outro país sem nos identificarmos, porque podemos viajar através da nossa terceira mão sem que ninguém nos impute responsabilidades pelos crimes cometidos?

Conta a lenda dos tempos modernos que, por detrás do ecrã de um smartphone e demais dispositivos "inteligentes", eu posso tudo.

Esta nossa terceira mão para o mundo permite-nos fazer tudo aquilo que a nossa identidade na sociedade civil nos limita com a justiça dos homens, como insultar, injuriar, levantar falsos testemunhos, perseguir, ameaçar, assumir uma identidade falsa ou, inclusive, assumir a identidade do vizinho ou de outra pessoa qualquer.

Podemos viajar nas redes sociais sendo outra pessoa qualquer, podemos inclusive marcar encontros com terceiros no qual o nosso propósito é cometer um crime, esse sim chamado civil, contra essa pessoa tal como violar, roubar.

Imagina-te a abrir a janela de tua casa pela manhã e serem-te dirigidos alguns mimos, tais como "Mas o que é esta m****", " Tens areia no lugar de miolos", "Não sabes escrever" ou "Deviam bater-te".

Agora, abre a caixa de comentários nas redes sociais, ou neste mesmo jornal. Não necessitas sequer de ir mais longe.

Poderás ler este e "mimos" bem piores, e sobretudo mais imaginativos do que os que aqui cito, de um ser humano contra outro ser humano, em que muitas vezes é alguém que nem conhece.

Ser humano esse feito de carne e osso, pai, mãe e filho de alguém. O agressor, por sua vez, só pode ser de uma estirpe humanóide especial. Uma estirpe robótica escondida atrás de uma capa digital, cobarde, e que na maioria das vezes utiliza um perfil falso ou como nome a citação de uma identidade cómica extraterrestre sem nome próprio.

Os senhores que andam preocupados em legislar sobre a protecção de dados — esse negócio bilionário dos tempos modernos que promete conhecer-nos melhor do que cada um se conhece a si mesmo através de algoritmos — deveriam também preocupar-se com a atribuição de uma identidade digital através do cartão do cidadão para todos os cidadãos mundiais.

E não falemos em falta de privacidade. Afinal, quantas coisas não nos são permitidas fazer sem identificação civil?

Se não podemos viajar para outro país sem nos identificarmos, porque podemos viajar através da nossa terceira mão sem que ninguém nos impute responsabilidades pelos crimes cometidos?

Sabemos perfeitamente que existe a tentativa da manipulação da opinião pública através da máfia dos comentários pejorativos nas redes sociais e nos media, quer seja de índole política ou de ódio.

Sabemos, inclusive, que existem pessoas que auferem ganhos próprios com esta prática e até que muitos grupos espalham a mensagem dos seus propósitos desta forma.

Mas também sabemos que muitas destas situações escondem apenas uma face, cujo propósito não consigo sequer entender.

Como qualquer pessoa que faz bullying na espuma dos dias da vida real, parece-me que o bullying virtual esconde alguém extremamente inseguro, descontente com a sua vida, infeliz e cobarde, que utiliza como terapia vomitar estas verborreias através, na maioria das vezes, do anonimato.

A vida é difícil e desafiante e muitas vezes o mundo não parece ser aquele no qual gostaríamos de viver, mas deixa-me apontar uma evidência: é para isso mesmo que vivemos.

Para sofrer e aprender, para amar, para partilhar, para rir, para incentivar o que nos é próximo, para cair as vezes que foram precisas. Porque, no final, vamos ter que nos levantar.

Se gostamos de nos achar responsáveis pelos nossos sucessos, porque culpamos os outros pelas nossas falhas? E é ao falar em vida que, atrás do ecrã, podemos mesmo tudo.

Podemos, da noite para o dia, avisar o nosso(a) namorado(a), por mensagem, que não o queremos ver mais e bloquear todas as formas de contacto que tínhamos em rede, avisando que a linha do mundo real e do virtual fica por ali mesmo, um fenómeno perverso que tem sido muito recorrente no seio dos millenialls e que pode deixar marcas e traumas na outra pessoa por mais ligeira que possa parecer esta acção. No entanto, facilmente perde o cunho ligeiro se a espelharmos em nós mesmos.

Por detrás de um ecrã não podemos tudo porque, tal como na vida de carne e osso, a nossa liberdade termina quando começa a do outro. Devemos dar sempre a cara pelas nossas acções, quer sejam na esfera física ou na esfera virtual.

Não permitamos que um ecrã nos roube a nossa humanidade, aquilo que faz de nós especiais e únicos, num mundo que ainda pertence a todos nós.