Comerciantes e moradores tentam travar alterações ao trânsito no centro histórico

Grupo interpôs uma providência cautelar contra a decisão da autarquia de limitar a circulação dos carros no centro da vila. Na segunda-feira, a Volta do Duche e a Estrada de Monserrate vão passar a ter sentidos únicos e o acesso ao centro histórico passará a ser reservado a veículos autorizados.

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As alterações e limitações ao trânsito no centro da vila arrancam às 22h00 de segunda-feira Miguel Manso

Um grupo de comerciantes e residentes na vila de Sintra apresentou uma providência cautelar para tentar travar as medidas de alteração ao trânsito anunciadas pela autarquia há duas semanas. E que vão limitar a circulação no centro da vila a moradores e comerciantes e criar sentidos únicos na Volta do Duche e na Estrada de Monserrate. A autarquia diz não ter ainda conhecimento dessa acção que foi entregue esta sexta-feira no Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra. 

O problema do trânsito no centro histórico é reconhecido por todos e facilmente observado pelos carros e autocarros turísticos que todos os dias chegam a Sintra. No ano passado, terão passado pela vila mais de três milhões de pessoas. “As pessoas entram, vão para filas intermináveis, não conseguem estacionar, cansam-se e vão embora”, nota uma moradora que acredita que, com estas medidas, “não se está a actuar na raiz do problema”.

“A grande questão aqui é saber se era possível continuar com o trânsito em Sintra como estava. Todos dizem que não”, afirma o presidente câmara de Sintra, Basílio Horta, ao PÚBLICO, deixando uma garantia: “Connosco o trânsito sairá da vila histórica”. 

É para “aumentar a segurança rodoviária e garantir a melhoria das condições de mobilidade pedonal, compatibilizando as condições de todos que visitam Sintra com as rotinas de quem vive e trabalha na zona”, que a autarquia vai alterar, a partir das 22h00 de segunda-feira, alguns sentidos de circulação e limitar o acesso a alguns arruamentos do centro histórico. 

As medidas estão a ser contestadas por um grupo de moradores e comerciantes que consideram terem sido tomadas “em cima do joelho”, sem a autarquia ter ouvido os munícipes. E criticam a “falta de informação clara e o secretismo” em que a decisão foi tomada (foi aprovada na reunião de câmara privada no dia 13 de Março pela maioria socialista, perante a ausência do vereador da CDU), admitindo que não foram “previamente realizados e publicados quaisquer estudos ou pareceres que suportam o [seu] conteúdo”. 

O autarca rejeita as críticas, admitindo que estas medidas serão implementadas “depois de dois anos de estudo e de muita reflexão” e que a autarquia está “completamente aberta a ouvir e a melhorar”.

“Qualquer mudança que se faça normalmente não tem 100% de pessoas de acordo. Mas é uma mudança que é feita a favor de todos, nomeadamente a favor da vila histórica que não podia continuar a ter o trânsito que tinha”, sustenta.

Com estas alterações, a partir de segunda-feira, o acesso, partindo de São Pedro, vai passar a ser feito no sentido descendente, pela Fonte da Sabuga para quem se dirigir para a Estrada da Pena, e pelo Palácio Valenças para quem quiser estacionar na Volta do Duche, que ficará apenas com um sentido, na direcção da câmara.

Os veículos que descerem a Rua Marechal Saldanha (actualmente com sentido ascendente) podem seguir directamente para a Estrada da Pena ou para a Rua Barbosa do Bocage, até junto da Quinta da Regaleira, também com sentido único para a Estrada de Monserrate.

Para quem tiver veículos autorizados, como os moradores, poderá desviar junto à Quinta do Relógio, para o Caminho dos Castanhais, mas os restantes terão de seguir para Monserrate, até à Quinta da Piedade, tendo de percorrer mais de uma dezena de quilómetros para regressar à vila por Galamares.

Na Volta do Duche apenas será possível "sair" da vila, já que as ruas em torno do Palácio Nacional ficarão reservadas para viaturas autorizadas. Quem ali mora e tem carro deverá solicitar, junto da Empresa Municipal de Estacionamento de Sintra (EMES), um dístico de estacionamento. Já quem trabalha no centro de Sintra poderá requerer um passe para as carreiras de ligação aos parques dissuasores na Portela de Sintra, que custará 20 euros. No entanto, “a partir das 20h até às 8h pode haver a entrada de outros carros na vila, o que foi um pedido dos residentes”, clarificou. 

Um projecto antigo

O projecto de mobilidade que será agora implementado não é novo. Já em Junho de 2015, um grupo de moradores e comerciantes tinha feito um abaixo-assinado com mais de mil subscritores contra estas alterações na circulação, argumentando que só após a construção de parques de estacionamento na periferia, se devia ponderar a alteração ao trânsito.

Esse é, aliás, um dos argumentos que é agora recuperado, de que as limitações à circulação serão implementadas antes que sejam criadas alternativas.

“Foi prometido que iriam fazer os parques periféricos e depois é que iriam partir para a alteração dos sentidos”, diz ao PÚBLICO Fernando Cunha, da pastelaria Piriquita, um dos críticos destas mudanças.

“Eu não posso conceber que uma pessoa que more passando a Regaleira tenha de ir a Colares para voltar para Sintra”, continuou, e que, em vez de um, os residentes passem a ter que percorrer dezenas de quilómetros para chegarem à vila.

As críticas estendem-se ainda ao momento em que estas mudanças são feitas, por ser a altura da Páscoa, temendo que as limitações à circulação lhe prejudiquem o negócio. 

António Manuel, morador e proprietário de uma loja de artigos regionais e de um alojamento local no centro histórico, reitera as críticas. “O problema de Sintra não é um problema de circulação, mas é um problema de estacionamento. Sem que sejam criadas infra-estruturas de estacionamento, as coisas não vão mudar”, sublinha, notando que a autarquia fez um parque de estacionamento na zona da estação da Portela com capacidade para 400 carros, mas que “às 9h30 da manhã está completamente cheio.

“Estamos de acordo que se façam as mudanças mas não andem com a carroça à frente dos bois”, sublinha Fernando Cunha, pedindo que se construam primeiro os parques de estacionamento dissuasores e que seja criado um sistema de transportes eléctricos e de bilhética para monumentos.

Basílio Horta, por seu lado, diz que já foram criados mais de mil lugares para os carros desde 2015, e sublinhou que, com esta mudança, não desaparecerão lugares para os carros. Pelo contrário, serão criados 69. 

“Tencionamos continuar a criar parques periféricos. São servidos com carreiras para o centro histórico. Isso está acautelado. A câmara e a Parques de Sintra-Monte da Lua terão os seus próprios veículos a partir de Outubro de 2019 que levarão as pessoas dos parques ao centro histórico e até à Pena”, garantiu.