Afinal, Zuckerberg sabe pedir desculpa

O líder do Facebook pediu desculpa. E admitiu que está à espera de legislação que ajude a controlar a acção da sua plataforma.

O fundador da maior rede social do mundo raramente dá entrevistas, mas a situação de crise impeliu-o a ir à televisão
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O fundador da maior rede social do mundo raramente dá entrevistas, mas a situação de crise impeliu-o a ir à televisão CNN

Demorou mais de dois anos, mas chegou o pedido de desculpas:  I’m  really  sorry” – que é como quem diz “Peço muita desculpa”.

A frase completa do presidente-executivo (CEO) do Facebook é: “Esta foi uma enorme falha de confiança e peço muita desculpa pela sua ocorrência. Temos a responsabilidade de proteger os dados das pessoas.” E surge dois anos depois de a empresa americana ter tomado conhecimento das falhas de segurança e só porque os meios de comunicação revelaram o escândalo que envolve a empresa Cambridge Analytica.

O líder do Facebook tomou a rara decisão de aceitar ser entrevistado por um meio de comunicação e surgiu na CNN com uma entrevista gravada com a jornalista Laurie Segall – que acompanha estes temas há dez anos.

Na entrevista, que passou esta madrugada naquele canal norte-americano, Zuckerberg aceitou explicar o que se passou entre o Facebook e a empresa Cambridge Analytica: “Foi claramente um erro confiar neles, mas vamos tomar medidas para que o erro não volte a acontecer.” E explicou as primeiras medidas nesse sentido: “Não sabemos o que vamos encontrar, mas vamos rever milhares de aplicações – vai ser um processo intensivo.”

Numa entrevista muito virada para o seu mercado original, visando acalmar os receios de investidores nas bolsas norte-americanas, Zuckerberg pareceu estar mais preocupado com a descida na bolsa do que com as investigações a decorrer no Congresso norte-americano e na Câmara dos Comuns britânica. Disse aliás que está disponível para testemunhar pessoalmente, “se for a coisa certa a fazer”.

Mas nem esta entrevista deverá acalmar os ânimos dos legisladores mais agitados: Zuckerberg não explicou porque não alertou os utilizadores aquando da falha de segurança (a empresa teve conhecimento em 2015, através do jornal inglês Guardian), nem o que vai fazer em termos concretos para evitar mais problemas como este no futuro.

Deu apenas um claro sinal de confiança na sua equipa, ao afirmar: “Isto não é assim tão difícil. Há muito trabalho duro para fazer, mas vamos tornar mais difícil a Estados como a Rússia a interferência nos processos eleitorais americanos.”

E quando lhe foi perguntado qual a sua opinião sobre a regulação, disse: “Não tenho a certeza sobre se não devemos ser regulados, adorava ver regulamentação sobre transparência na publicidade.” A Comissária europeia da Concorrência, Margrethe Vestager, deverá ter uma manhã feliz de quinta-feira graças a esta frase.

Mas esta quarta-feira foi um dia atarefado para o líder do Facebook, que não gosta de dar entrevistas: falou para a CNN, para o New York Times e para a Wired.

Ao diário norte-americano disse não estar muito preocupado com a campanha em curso para que os utilizadores abandonem o Facebook (#DeleteFacebook), visto que “não há sinais de um número relevante de utilizadores estar a abandonar a plataforma”.

Mais grave é que tenha mais uma vez desvalorizado a questão das notícias falsas, ao afirmar que quem faz isso são empresas de spam – não reconhecendo que a manipulação eleitoral poderá também ter origem neste processo. E quando foi confrontado com o papel que a plataforma terá tido na manipulação de eleições, em várias partes do mundo, não admitiu culpa, preferindo recorrer aos chavões sobre “os novos desafios” e “os muitos erros cometidos ao longo dos anos”.

Já à revista Wired, Zuckerberg reconheceu que neste momento não pode confirmar que os dados obtidos na plataforma não terão também chegado aos operacionais russos para as suas acções a favor de Donald Trump. A conversa foi mais técnica e detalhada no que toca à utilização dos dados dos utilizadores por parte do Facebook, mas terá sido também a mais reveladora sobre o estado da alma do fundador da mais poderosa ferramenta de comunicação global: “Temos uma responsabilidade séria. Quero garantir que levamos isto tudo de forma grave. Estou agradecido aos jornalistas que nos criticam e que nos dão lições importantes sobre aquilo que precisamos de fazer, porque precisamos de acertar o passo. Isto é importante.”

Na quarta-feira, Mark Zuckerberg tinha finalmente esboçado a primeira reacção a toda a polémica: num post colocado na sua rede social, reconheceu erros mas não pediu desculpa, ao mesmo tempo que considerou o sucedido uma “falha de confiança”. E como as acções na bolsa continuaram a cair depois disso, optou por esta abertura dramática aos meios de comunicação social. Agora as bolsas dirão se foi o suficiente.