Para Sócrates, abandonar o TGV "é ideia reaccionária" e "falta de ambição"

Antigo governante foi convidado por estudantes de Economia de Coimbra para uma conferêcia sobre o projecto europeu depois da crise inyernacional.

Sócrates falou durante cerca de 90 minutos sobre temas da política económica e construção europeia
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Sócrates falou durante cerca de 90 minutos sobre temas da política económica e construção europeia LUSA/PAULO CUNHA

O ex-primeiro ministro José Sócrates considerou nesta quarta-feira que o abandono do projecto da ligação de alta velocidade ferroviária (TGV) a Espanha e à Europa é uma "ideia reaccionária" e revela "resignação e falta de ambição". "A ideia de que o país não tem aqui um trabalho a fazer para se ligar à rede de alta velocidade europeia, a ideia de que a rede de alta velocidade em bitola europeia vai parar em Badajoz, com o país propositadamente atrasado e por uma decisão política que nos condena ao atraso, é das ideias mais reaccionárias que eu tenho visto no nosso país", afirmou José Sócrates, durante uma conferência na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC).

"E quando digo reaccionária é mesmo isso, é porque não permite um pouco mais de ambição, é a ideia de resignação, [do] sim, devemos aceitar tudo isto e não devemos escolher ninguém que tenha um pouco mais de visão para a modernização e para o crescimento económico português", criticou o antigo primeiro-ministro, que foi acusado pela justiça portuguesa, no âmbito da Operação Marquês, de 31 crimes e de acumular 24 milhões de euros na Suíça.

Dirigindo-se à plateia de mais de 300 alunos universitários, no período de perguntas e respostas de uma conferência sob o tema O projecto europeu depois da crise económica, promovida pelo núcleo de estudantes da FEUC, José Sócrates lembrou que há 20 ou 30 anos a duração de uma viagem de comboio entre Lisboa e Porto era de cerca de três horas e agora a mesma viagem demora duas horas e cinquenta minutos. "E o que estão a dizer-vos é que nos próximos 30 anos, porque não se faz nada para isso, se vai demorar duas horas e cinquenta", anotou. Defendeu ainda que Portugal e Europa "há muito precisam de um projecto de desenvolvimento, um projecto de modernização, um projecto de crescimento económico".

No final da sessão, confrontado pela Lusa sobre a questão do abandono do projecto do TGV e a referida falta de ambição dos decisores políticos, Sócrates reafirmou que Portugal "precisa de um projecto de desenvolvimento" que já teve, nomeadamente quando foi primeiro-ministro entre 2005 e 2011.

"Esse projecto de desenvolvimento foi posto em causa por uma visão política que atribuía a esse investimento, a essa ambição, a essa modernização, primeiro, a ideia de desperdício e que isso era dinheiro deitado fora", sustentou José Sócrates. "Isso é um erro, eu nunca partilhei desse ponto de vista. Acho que o país precisa de recuperar essa vontade, essa ambição, de investimento em algumas áreas críticas, como se fez no passado", declarou.

Apontou, o investimento na ciência, ensino superior, educação e recuperação das escolas, energias alternativas e modernização de infra-estruturas, na linha daquilo que disse durante a conferência, em que lembrou a actuação dos governos que liderou e o projecto de desenvolvimento que possuía para o país.

"Pode soar a auto-elogio mas das últimas vezes que ouviram falar de um projecto de modernização foi quando havia um Governo — e eu liderei esse Governo — que apostava nas energias renováveis, construção de barragens, modernização e reconstrução das escolas públicas portuguesas, quando apostámos em mais ciência e mais investimento para a ciência, nas tecnologias de informação, isso era um projecto de desenvolvimento", argumentou. Sócrates deixou o Governo depois de perder as eleições de 2011 e de ter pedido assistência internacional para evitar a bancarrota.

“Recuperação aconteceu porque Governo abandonou austeridade”

O ex-primeiro-ministro disse ainda que a recuperação económica do país aconteceu porque o Governo abandonou a austeridade, recusando a ideia de que o crescimento se deve ao período de ajustamento. "O que é mais lamentável é verificar em Portugal que aqueles [o Governo PSD/CDS-PP] que aplicaram uma receita desastrosa e fizeram tudo para que essa receita fosse aplicada aqui no nosso país de acordo com uma ideologia dominante na Europa, venham dizer que as coisas estão melhores agora porque essa receita existiu", afirmou.

"Não, não é isso que aconteceu, essa história está mal contada", frisou o antigo primeiro-ministro, referindo que Portugal "começou a recuperar por abandonar uma política catastrófica, a política de austeridade".

Para ilustrar a política de austeridade, Sócrates usou a imagem de "alguém que está num buraco e para sair do buraco, escava, afundando-se cada vez mais". "O que este novo Governo que temos fez foi deixar de escavar, isto é, abandonou a austeridade. A recuperação económica portuguesa não está a acontecer porque houve austeridade, a recuperação económica está a acontecer porque se abandonou a austeridade", reforçou o ex-primeiro ministro.