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Megafone

Um aluno estrangeiro só na faculdade

Apesar dos anos passados desde então, ainda hoje chegam notícias de como as universidades pecam no acolhimento aos alunos estrangeiros. Apesar dos anos passados, continuamos a perder, a fechar as portas e as mentes a quem de lá fora vem

Parece que ainda o vejo, só, no meio do anfiteatro, vazio, ele vazio e o anfiteatro também, o professor tinha acabado de o apresentar, Franz Joseph, aluno de intercâmbio, gostava que o acolhessem e dessem as boas-vindas à nossa faculdade.

E, em 3, 2, 1, toda a gente zarpou.

Ficámos só eu e o Franz Joseph, ele sem perceber nada, mas a perceber, e eu sem querer perceber, incrédulo, e a perceber também.

A perceber como o professor não sabia falar inglês, ou tinha vergonha de falar em inglês, e os meus colegas, as minhas colegas, os nossos colegas sem saber falar inglês, ou com vergonha também, pelo menos a julgar pelos risinhos e sussurros infantis entre olhares de lado a fugir corredor fora.

João, disse eu com a mão estendida, Franz, Franz Joseph. "Like the emperor", respondeu, e eu, "What emperor?", e assim começou uma bela amizade.

Franz Joseph, austríaco, de Viena, um metro e oitenta de juventude e energia, um metro e oitenta de alegria loira como o sol, gostava de comer, gostava de viver e sorver a vida de uma vez só enquanto me falava de Viena e eu o levava ao Bairro e, à noite, à Linha e à praia, e o Joseph se apaixonava por todas as “raparigos bonitas” do nosso país, e eu também.

Intrépido e empreendedor, não sentia saudades da sua terra natal, não como nós, ao invés olhando em frente, a querer andar em frente, a fazer e aprender, montar uma empresa, investigar, descobrir e partilhar, sem medo, todo ele curiosidade.

Obviamente, o Joseph não sabia português mas, estou convencido, tivesse eu caído de pára-quedas em Viena e os cursos de alemão estariam ao meu dispor, a troco de nada, a troco de tudo e esta gratidão para sempre. Chama-se a isto acolher, é o mínimo, e alguém para nos explicar as aulas, por favor, os trabalhos e os exames que nunca hão-de ser em inglês, só português para quem pode, e não para quem quer, e em alemão nem em sonhos.

O Joseph não teve um apoio, um contacto, um telefonema, alguém da faculdade a bater à porta a perguntar se está tudo bem, e isto ao longo dos três meses de Erasmus, tendo eu de fazer as vezes de intérprete entre idas à secretaria, exames, papelada, o bilhete de avião de regresso.

Sim, para o Joseph, Portugal fez muito bem de país de terceiro mundo, pelo menos no que toca às aulas, à papelada, à burocracia. Já tudo o resto, tudo o resto foi a aventura da qual andava à procura porque aqui o parvo se predispôs a trabalhar de graça para a faculdade. E de bom grado faria tudo outra vez.

Ainda hoje mantemos o contacto, eu em Inglaterra, o Joseph um pouco por todo o mundo, da última vez que soube dele por terras de Vera Cruz.

Quem ficou a perder? A faculdade, por um lado, mais a má reputação criada, os meus colegas, por outro, com um amigo a menos nesta vida tão curta e a experiência por viver, e de caminho o país, afinal tão pouco acolhedor, onde cada um por si e todos por ninguém é a palavra de ordem.

Apesar dos anos passados desde então, ainda hoje chegam notícias de como as universidades pecam no acolhimento aos alunos estrangeiros. Apesar dos anos passados, continuamos a perder, a fechar as portas e as mentes a quem de lá fora vem. Assim, é difícil sair de nós mesmos, encarquilhados no torpor desta ignorância e ainda contentes por tanto, orgulhosos da nossa estupidez e tão sós como se ainda vivêssemos no canto da Europa. Nunca de lá saímos, não me parece que queiramos sair.