Hoje o Pedro é um bosque

A forma como Pedro viveu e as decisões que tomou sobre o fim de vida ajudaram a mulher, Verónica, a saber o que fazer após a perda. E vai-se cumprir aquilo que ele queria: amigos e família plantam-lhe um bosque na Mata do Buçaco.

Foto
Miguel Manso

Verónica Silva, 31 anos, sempre soube o que queria para si. Ser cremada. Cinzas espalhadas num campo de girassóis, para que sempre que vissem aquela flor se lembrassem dela. O marido, Pedro, fugia a estas conversas. Ele sabia o que não queria: um funeral religioso, flores, choro.

Pedro Figueira, jovem professor de Multimédia na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, sabia que a cabeça aguentava o cancro. Mas tinha medo que o corpo não tivesse a mesma resistência. Não podia controlar quando ficava em aplasia - quando os valores de glóbulos vermelhos, brancos e plaquetas baixavam excepcionalmente, arrastando consigo a energia, a capacidade de protecção e reparação do corpo - após um ciclo de quimioterapia. Nem controlava quando a doença voltava.

Ficou doente em 2008. Tinha 22 anos e um diagnóstico de leucemia linfoblástica aguda com mutação genética do cromossoma Filadélfia. Fez transplante de medula óssea. E só quando teve alta, já depois dos 25 anos, soube aquelas que eram as suas hipóteses de sobrevivência à partida: 10 a 20%. O Pedro viveu oito anos sem a doença. 

Um dia, em 2016, preparam-se para ir a um casamento. Verónica, produtora de conteúdos de multimédia, está pronta. O Pedro calça as meias com a calma suficiente para olhar para os pés. Vê petéquias – pequenos pontos vermelhos. E nesse dia, 31 de Dezembro, chega um novo diagnóstico: a doença voltou. O Pedro fica internado e Verónica começa aquilo a que chama "Aguenta-te: ensaio fotográfico para a cura". Ninguém esperava que tivessem que estar ali outra vez.

Nos seus últimos dias, já em Dezembro de 2017, Pedro tem dificuldades em comunicar, mas faz sempre o gesto com os dedos a rodar sobre si mesmos, símbolo de "Estou a dar a volta". E vira-se para a mulher, firmando os braços: "Com calma e sem stress."

Será também esse o lema, daqui a uma semana, na Mata do Buçaco onde se vai plantar um bosque com o nome dele (ia acontecer neste sábado, mas a chuva tem-lhes trocado as voltas). "Seja quando for, vamos estar a respirar ar puro, a levar com sol ou chuva na cara", diz Verónica. Pedro fazia anos este sábado.

Falar da morte

O último ano é passado entre entradas e saídas do hospital. E é numa dessas recaídas que Pedro decide que quer doar o corpo à ciência. "Mas nunca nos informamos sobre como é que isso funcionava, porque achávamos que não ia ser necessário", conta Verónica. Além disso há "o problema" daquela ser uma solução para o corpo, que não contempla uma despedida. O Pedro não a quer. "Tinha medo de causar dor nos outros."

A terceira recaída acontece em Novembro e ataca o sistema nervoso central. Ambos percebem que a batalha é agora mais agressiva. "É tudo ainda mais a sério."

Já no hospital, Pedro cede a uma ideia de despedida e concretiza-a:

- Sempre me fez muita confusão que as pessoas gastem dinheiro para que se arranquem flores. Eu preferia que amigos e familiares se juntassem e plantassem árvores. E gostava muito que contactasses a Mata do Buçaco.

- Ah, claro, isto é uma coisa mesmo à Pedro. Pôr-me em trabalhos... Mas queres uma coisa clandestina?

- Não, tens mesmo que organizar uma acção oficial.

- Ó Pedro, mas as árvores só se plantam até à Primavera…

- Se for no Verão, podem fazer uma limpeza das matas. Juntem-se. Vai ser terapêutico. Podem contar coisas minhas, partilhar histórias. Quero que celebrem a minha vida.

Pedro quer que seja tudo como deve ser, com calma e sem stress.

E Verónica não pede mais pormenores. Ela não ia precisar. Ainda havia tempo.

“Virar árvore”

Quando aconteceu foi tudo muito rápido. Verónica tinha saído à noite no fim da hora de visita. Ligaram-lhe do hospital às duas da manhã. Era 14 de Dezembro, ele tinha 31 anos e não houve tempo.

"Contei aos meus pais e aos pais dele que o Pedro morreu. A minha mãe passou a noite toda a tentar ver como é que se doava o corpo à ciência e percebeu que não era possível. É uma coisa que se tem que fazer em vida."

Para o velório, os amigos e a família ocuparam a sala “muito limpa, muito leve” de um centro funerário em Cascais. A música de que ele gostava tocava ao fundo. As pessoas conversavam e três foram à frente falar de Pedro. Depois a tuna da Escola Superior de Comunicação Social, onde ambos estudaram e onde ele foi professor, tocou a sua música preferida. "Foi tudo muito bonito, com muita gente."

Uma cerimónia tradicional seria muito pesada, fria, tal como ele não queria. "Isso já é tudo tão complicado, já dói tanto, e se podemos aligeirar um bocadinho, porque não escolhemos isso?"

Verónica diz que "devíamos ter jardins, plantarmos árvores pelas pessoas, em vez de as enterrarmos no cemitério e depois pormos pedra."

Ela decidiu que Pedro seria cremado, sabendo que ele não queria ir para o cemitério. Afinal foram as decisões que ele tomou que a ajudaram a saber o que fazer após a perda. Descobriu urnas biodegradáveis e "é onde ele está." Um dia irá enterrá-la e “há-de virar árvore."

Ser um bosque

Foi uma das primeiras coisas de que Verónica se lembrou no dia do velório:

- Lima, o Pedro tinha uma ideia peregrina, és tu que me vais ajudar a tratar de tudo.

Ele, Filipe Lima, amigo de ambos, estava pronto.

Contactou a associação Plantar uma Árvore, com quem já tinha tido uma experiência através da empresa onde é director de Marketing. Sabia que organizavam plantações a pedido de grupos. "Eles ensinam todo o processo. Desbravamos o mato, preparamos o solo para acolher uma árvore, o que só é feito nos primeiros meses do ano, quando há fertilidade”, conta.

São eles que fazem a ponte com a Fundação Mata do Buçaco e que seleccionaram as árvores autóctones a plantar. O grupo de amigos e famílias que se formou entretanto vai cobrir parte dos custos. São quase 70 pessoas que se vão juntar para criar aquilo a que chamaram Um Bosque pelo Pedro.

A Verónica sorri com o número. "Em qualquer lado, havia pessoas que o conheciam. Era um cidadão muito activo, metia-se em tudo. O Pedro era mesmo especial."

Isso nota-se no tamanho que o movimento ganhou. Ao comunicar a morte do Pedro na página de Facebook que ele tinha – "Calma nos Blastos", que começara por ser um blogue – a Verónica revelou o desejo dele. "E as pessoas começaram a plantar. De forma organizada ou não. Pessoas que eu não conheço mandaram-me fotos daquilo que plantaram." Um azevinho na Serra da Estrela, um carvalho em Monsanto, uma ginkgo biloba no liceu no qual Pedro estudou, sobreiros e figueiras na terra dos tios e primos, um medronheiro em casa de uma amiga.

Verónica também começou a participar em plantações organizadas pelo município de Lisboa e associações ambientalistas. "Isto é suposto ficar para a vida. Eu hei-de plantar todas as árvores que conseguir."

Empresas que ajudam a despedir-se

Quando o estado de saúde de Pedro piorou, havia quem entrasse pelo quarto, dizendo à mulher que ia ficar tudo bem. "Mesmo que nem os médicos pudessem ter essa certeza." No dia do velório perguntavam-lhe como estavam as coisas.

Destes e doutros contactos, a Verónica tirou uma conclusão: "Os portugueses não sabem que mais vale não dizer nada. A sociedade não está preparada para lidar com a perda. E muito menos para lidar com uma viúva de 31 anos."

O facto de não sabermos o que dizer ou fazer perante a morte foi também uma constatação feita por Tânia Dinis, ao longo da sua experiência enquanto psicoterapeuta. Deparou-se com funerais "com muita dor, que nada tinham a ver com a pessoa que partiu".

Com o objectivo de permitir "um momento de paragem e homenagem", criou no final de 2009 a empresa Arena do Tempo que, entre outros serviços, organiza cerimónias de despedida. Há algumas empresas destas, em Portugal, que se propõem a mudar o paradigma do funeral e procuram recriar redes de apoio em momentos difíceis.

Tudo é variável. Desde o local ao momento em que acontece. A Arena do Tempo, em contacto com a agência funerária, pode organizar uma despedida no velório, ou no funeral, ou noutro momento simbólico - um aniversário, por exemplo. Tânia Dinis e as colegas, também formadas em psicologia, procuram que familiares ou amigos mais próximos reflictam e falem sobre a pessoa que perderam. 

Dá um exemplo: "No dia do velório ou do funeral, porque não há um momento em que se partilham as histórias daquela pessoa? Isto gera um sentimento de apoio". Histórias que podem não ser lidas. Tânia recorda uma cerimónia onde a filha, bailarina, dançou em homenagem ao pai. 

Esta é também uma tentativa de desacelerar o ritmo de vida e recuperar redes de apoio perdidas, em especial em grandes centros urbanos. "Antigamente havia o apoio da vizinhança, o apoio religioso ou a proximidade de comunidades que permitiam outro tipo de conforto. Hoje parece que somos obrigados a fazer o processo muito a correr", sublinha Tânia Dinis.

Cerimónia tranquila

Quer-se que a despedida seja uma cerimónia tranquila. Sendo momentos de tristeza, Tânia acredita que "não precisam de ser descontrolados", nem tão pouco ignorados. "Aquilo que tentamos com as cerimónias é que se dê aos momentos a dignidade que eles merecem, sabendo que isso ajuda a que quem fica faça um luto mais positivo", defende.

O mesmo objectivo é partilhado por Andreia Barros Mascarenhas, cuja empresa de coaching e desenvolvimento humano Anjos de Evolução, lança neste Verão a organização de cerimónias de despedida. Guardou a ideia quatro anos à espera que surgisse a procura deste tipo de serviço no mercado nacional. E acredita que agora é o momento: "As pessoas, principalmente os mais jovens, procuram alternativas ao funeral violento e frio a que estão habituados."

Concretamente quer tornar mais confortáveis os espaços de velório: com mantas, almofadas, alguém que possa servir um chá e bolachas, dar apoio, se necessário - para tal haverá "celebrantes de despedida" formados. E organizar homenagens, seja através de fotografias, vídeos, discursos. 

A proposta é mudar o paradigma do funeral: "É dizer que sim, a pessoa partiu, mas podemos fazer-lhe uma despedida com amor, não tanto com dor."

Devolver à terra

Antes, Verónica e Pedro ponderavam sair da cidade. Ela queria plantar batatas-doces, ele queria fazer permacultura. A intenção era "mesmo ir para uma terra", porque eles só tinham Lisboa, onde tinham nascido.

"Queríamos viver mais com menos. Ele já tinha um projecto com um amigo de vídeo, infografia e ilustração para ensinar as pessoas a fazer permacultura. E tinha começado a trabalhar com o meu primo, médico, para conteúdos informativos e campanhas sobre a doação de medula. Para ter doadores conscientes. Eu imaginava que um dia ele ia ser ou presidente da junta ou presidente de alguma coisa. Acabou por não ser. Mas tornou-se noutra coisa boa. Podia acabar num caixão fechado, mas em vez disso vai ser um bosque que não acaba. E eu vou acabar o meu ensaio aí, com as árvores."