Entrevista

“Angustiamo-nos diariamente com realidades cada vez mais dramáticas”

O presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, Luís Campos, comenta o problema com que médicos e hospitais se depararam com os internamentos sociais.

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"Perante esta realidade só não temos uma opção, que é não fazermos nada. Porque se assim for o colapso da rede hospitalar do SNS vai ser inevitável e rápido", assegura Luís Campos. Joana Goncalves

A segunda edição do Barómetro dos Internamentos Sociais identificou, a 19 de Fevereiro, 960 pessoas internadas por motivos sociais. Metade delas estavam internadas em serviço de medicina interna. O tema tem sido um dos focos de preocupação da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), como explica o presidente, Luís Campos. “Perante esta realidade só não temos uma opção, que é não fazermos nada”, assume, relatando a angústia com que se deparam no dia-a-dia.

PÚBLICO -
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Luís Campos

Como é que esta realidade afecta os serviços de medicina interna?
Os serviços de medicina estão transformados em centros de resolução dos problemas sociais dos doentes. Angustiamo-nos diariamente com realidades sociológicas cada vez mais dramáticas, como idosos que ficam dependentes e não têm família, idosos maltratados em casa ou em lares, pais abandonados pelos filhos, pensões miseráveis que sustentam famílias, casas para onde não temos coragem de reenviar os nossos doentes, famílias que acham que o Estado tem a obrigação de resolver todos os problemas. Esbarramos diariamente na incapacidade das famílias, na falta de resposta dos Cuidados Continuados, dos Cuidados Paliativos, da Segurança Social, da Misericórdia, do Ministério Público.

Este é um dos piores exemplos de desperdício no sistema de saúde, porque nos ocupa o tempo em que devíamos estar a tratar dos nossos doentes, porque nos obriga a utilizar camas fora dos nossos serviços, suspendendo a actividade programada; porque estamos a utilizar camas em hospitais de agudos que custam muito dinheiro com doentes que estariam melhor noutras instalações a custar muito menos; porque expõe o défice de planeamento no Serviço Nacional de Saúde (SNS), a incongruência de alguma legislação e a incapacidade dos hospitais de tomarem decisões básicas em termos de gestão.

Esta é uma realidade que tende a agravar-se?
Há 40 anos tínhamos cerca de um milhão de idosos e actualmente temos mais de dois milhões. Mas as projecções demográficas apontam para que Portugal tenha, em 2050, uma percentagem de idosos superior a 35%, tornando-se o terceiro país da OCDE com mais idosos, depois do Japão e Espanha. O número de anos de vida saudável depois dos 65 é de 6,2 anos, inferior à média da OCDE (9,4) e muito inferior à Suécia (16,3), e a percentagem da população idosa com algum tipo de incapacidade é de 45,5%, muito superior aos 32,7% de média nos países da OCDE. Os nossos hospitais foram invadidos por uma população predominantemente idosa – a idade média dos doentes internados nos serviços de medicina é de 76 anos –, muitos com algum grau de incapacidade e multimorbilidades. Se pensarmos em tudo isto, podemos facilmente concluir que este problema se vai agravar e que este agravamento vai ser rápido e dramático.

Como é que a SPMI está a acompanhar esta situação? Que propostas têm para reduzir este problema?
A SPMI interveio no desenho deste inquérito e temos falado com frequência deste problema. No entanto, estamos conscientes da sua elevada complexidade e, como tal, as respostas também são complexas e diversas. Globalmente, posso dizer que temos de investir mais em cuidados de longo termo e integrar a saúde com a assistência social. Em Portugal a percentagem da população idosa que recebe cuidados de longo termo é de 2,1/1000, um sexto da média dos países da OCDE. Somos o país da OCDE com menos camas de longo termo e o segundo em que é atribuída menos verba aos cuidados de longa duração (3%), sendo a média da OCDE de 14%. Além disso, existe falta de equidade entre regiões, como, por exemplo, no número de camas de cuidados continuados ou paliativos, com uma penalização da região de Lisboa e Vale do Tejo.
Por outro lado, é cada vez mais difícil separar os problemas de saúde dos problemas sociais. Temos de pensar os dois sectores em conjunto, como já aconteceu no nosso país e como está acontecer em alguns países, com a Escócia ou a Irlanda.

Que outras medidas são necessárias?
É ainda necessário mudar legislação, criar uma via rápida para estes doentes no Ministério Público, devolver aos médicos o poder de decidir colocar os doentes nos sítios mais adequados para a sua condição; criar redes locais e regionais que integrem os vários níveis de cuidados e mobilizem os recursos das comunidades, permitir que os hospitais tenham unidades de retaguarda onde possam colocar estes doentes.
Há muito para fazer, mas não há soluções milagrosas. Perante esta realidade só não temos uma opção, que é não fazermos nada  – porque, se assim for, o colapso da rede hospitalar do SNS vai ser inevitável e rápido.
A Sociedade Portuguesa de Medicina Interna está profundamente preocupada com este problema e vai promover um debate público em Maio. Mas este não é um problema da medicina interna. É um problema de toda a sociedade, que cresce dia a dia perante os nossos olhos.