A morte de um imigrante gerou uma guerra no centro de Madrid

O bairro de Lavapiés, na capital espanhola, foi palco de motins após a morte de um senegalês, que pode ter tido a ver, ou não, com a acção da polícia. Paira a desconfiança.

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Manifestação em Madrid, com cartaz com o rosto do imigrante morto,Manifestação em Madrid, com cartaz com o rosto do imigrante morto Sergio Perez/REUTERS,Sergio Perez/REUTERS
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Confrontos da polícia com manifestantes em Lavapiés,Confrontos da polícia com manifestantes em Lavapiés JAVIER LIZON/EPA,JAVIER LIZON/EPA
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Bancos e moibiliário urbano foram alvo de destruição LUCA PIERGIOVANNI/EPA
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Memorial em nome de Mame Mbaye LUCA PIERGIOVANNI/EPA
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Bicicletas destruídas LUCA PIERGIOVANNI/EPA

O imigrante senegalês sem documentos, Mame Mbaye, de 35 anos e há 13 a viver em Madrid, morreu de ataque de coração na quinta-feira, no meio de uma operação da polícia no bairro de Lavapiés, no centro da capital espanhola. Podia ou não estar a ser perseguido pela polícia – não é claro. Mas a sua morte desencadeou três dias de protestos violentos que deixaram um rasto de destruição, algumas detenções, mais de duas dezenas de feridos, um aparato policial que muitos afirmam só terem presenciado na época da ditadura franquista.

Sábado, a acalmia regressou ao bairro de Lavapiés. A manhã chegou sem a presença dos helicópteros da polícia a sobrevoarem o bairro, palco de inúmeros confrontos desde o princípio da noite de quinta-feira até ao final da tarde do dia seguinte. No entanto, tanto naquela zona como nos bairros vizinhos eram ainda visíveis dezenas de viaturas da Unidade de Polícia de Prevenção e Reacção. A segurança de pessoas e estabelecimentos continua a ser a principal prioridade e, de acordo com informações de diversos polícias contactados, não se exclui a possibilidade de ocorrerem novos apedrejamentos a viaturas, fogos postos em edifícios e mobiliário urbano, saques a bancos.

A maior marca é a da incerteza. Os madrilenos estão divididos. Enquanto uns defendem mais e melhores medidas para promover a integração de milhares de imigrantes clandestinos, sobretudo africanos, outros reclamam pulso forte contra as diversas comunidades estrangeiras, a quem acusam de estar por trás pelo aumento da criminalidade.

March 16, 2018/ Mbaye era un compañero del Sindicato, juntos hemos denunciado las agresiones y la persecución policial durante años ante la impasividad del Ayuntamiento. Ahora nuestro compañero está muerto">

A morte de Mame Mbaye, um vendedor de rua, terá sido a gota que fez transbordar a paciência de milhares de pessoas, oriundas de cerca de 80 países, que residem em Lavapiés. “Perseguiram-no de mota desde o Sol [Porta do Sol] e causaram-lhe o ataque de coração”, contou uma jovem africana, recordando que são frequentes naquele bairro as intervenções musculadas da polícia.

“Sim, há tráfico de droga e pessoas que roubam. Mas não são todos. A polícia não pode tratar todos do mesmo modo”, disse ainda, comentando a reacção popular que culminou com o arranque de inúmeros troços de empedrado e a destruição de alguns estabelecimentos comerciais.

“Os prejuízos não são apenas os dos vidros partidos ou das portas fechadas durante um ou dois dias. O bairro volta a ficar mal visto e os comerciantes podem ficar sem clientes durante meses. A culpa é das autoridades, que acolhem todos mas que não criam emprego”, explicou o dono de um restaurante de Lavapiés, onde se estima que quase metade dos residentes seja de origem africana e asiática.

“Se não têm trabalho, não podem ficar para roubar e destruir. Têm de regressar aos seus países e deixar viver os que trabalham em Espanha”, clamava um sul-americano, na sexta-feira, frente aos destroços da sua mota, destruída horas antes.

A contestação aos políticos e entidades oficiais ficou, de resto, expressa na reacção popular contra o embaixador do Senegal em Espanha, o qual tentou serenar os ânimos de uma multidão que na sexta-feira se concentrou na Praça Nelson Mandela, em Lavapiés, mas que acabou por fugir da fúria popular e acoitar-se num restaurante de onde viria a ser resgatado pela polícia.

A versão policial acerca da morte de Mame Mbaye é diferente. A Polícia Municipal nega ter efectuado qualquer perseguição e afirma que os seus agentes, ao aperceberem-se que havia uma pessoa em dificuldades, tentaram reanimá-la. Esta alegada tentativa terá, no entanto, sido mal interpretada por diversos emigrantes, gerando-se quase de imediato uma onda de contestação que envolveu, entre muitos outros, alguns espanhóis, membros de grupos e associações que lutam pela reabilitação de Lavapiés e a integração social dos seus residentes estrangeiros.

Todos os seis detidos nas refregas de sexta-feira, são de nacionalidade espanhola. Uns serão pró-imigrantes e outros contra. Todos terão estado envolvidos nos apedrejamentos à polícia e aos estabelecimentos.