Crítica

Bem-vindos à NevesNeveslândia

Um espectáculo brilhantíssimo, absoluta confirmação, caso necessidade ainda houvesse, da singularidade criativa de Ricardo Neves-Neves, aqui numa exemplar parceria com um compositor, Filipe Raposo. Sem dúvida alguma um marco do teatro musical nos palcos portugueses.

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Estelle Valente

A brincar, a brincar, Ricardo Neves-Neves veio-se afirmando nos últimos dez anos, como autor e encenador (além de ser actor), como um dos casos mais sérios do teatro em Portugal. A brincar, a brincar, mas feroz e freneticamente, até ao delírio, cultivando o nonsense, algures entre o que de mais delirante há em Lewis Carroll e a extravagante suposta inocência da Zazie dans le métro de Raymond Queneau, com não despiciendas passagens, enquanto encenador, mas em profunda consonância com a sua personalidade criativa, por Colpi  ou o cabaret de Karl Valentin. Nos seus textos e espectáculos tudo é possível, qual supercalifragilisticexpialidocious da Mary Poppins  que recriou num dos seus textos, Mary Poppins – A Mulher Que Salvou o Mundo.

E há ainda, entre outras, duas características marcantes no seu teatro, uma precisamente o gosto da duplicidade e da parelha, outra a profunda musicalidade. Era como se “estivesse escrito nas estrelas” que um dia faria mesmo um espectáculo musical – e ele aqui está, em co-criação com um compositor, Filipe Raposo.

O título, Banda Sonora, remete logo para cinema. Se porventura, em ignorância de mais informação, fôssemos introduzidos ao espectáculo pela conversa com os autores no programa, podíamos ficar algo inquietos pela menção que Raposo faz a John Williams, Hans Zimmer e Bernard Herrmann – mas a que propósito os superestereotipados Williams e Zimmer ao mesmo nível de Herrmann?! Acontece que na conversa com Gonçalo Frota no Ípsilon da semana passada se falava de outra e actual parelha, a de Tim Burton e Danny Elfman – e sim, é essa que importa reter e que ocorre vendo e ouvindo o concreto espectáculo.

Estamos numa floresta – com a orquestra em fundo –, lugar de perigos como sabemos dos contos infantis. E com meninas, claro, que são três, isto é seis, porque cada uma são duas, rigorosamente idênticas e sempre, sempre, cantando em uníssono. E como os autores bem sabem, os contos infantis também são cruéis. No segmento mais narrativo do espectáculo, Neves-Neves leva mesmo a sua ferocidade criativa a um ponto inédito: a menina é órfã de mãe, que morreu no parto, e a história segue até à morte do pai.

Inédito nos seus espectáculos é o portentoso delírio também visual com grandíssimos trabalhos nos figurinos e na caracterização, devidos respectivamente a Rafaela Mapri e a Cidália Espadinha. Estamos num universo figurativo que nos remete inevitavelmente para o Tim Burton de Eduardo Mãos de Tesoura ou A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, passando, claro está, por Sweeney Todd – e escrevo “claro está” porque, recorde-se, Sweeney Todd ou o Barbeiro Demoníaco de Fleet Street é, antes do mais, um musical do grande Stephen Sondheim – que João Lourenço encenou –, de resto também autor (e também esse adaptado ao cinema) de Into the Woods/Nos Caminhos da Floresta. Não há nesta “NevesNeveslândia” o menor angelismo da Neverland de Peter Pan!

E depois há que dizer que, a todos os títulos, o nível de apuramento formal de Banda Sonora, é notável – não há, por exemplo, a menor descoordenação vocal nas três parelhas.

A fruição é de tal ordem que a única “frustração” é a do espectáculo ser breve (só 1h10'), como se, entrados naquele mundo, não quiséssemos sair. Mas ao menos uma outra co-criação está prometida.

Um imenso bravo!