São as Breeders sem mistério e isso é bom

All Nerve devolve-nos a formação clássica das Breeders. Mais de duas décadas depois, nada mudou. E ainda bem. "Não houve qualquer evolução. Crescimento, zero!", ironiza Kim Deal.

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Tudo nas Breeders está no lugar de onde nunca deveria ter saído: as irmãs Kim e Kelley Deal, o baixo de Josephine Wiggs, e até a bateria de Jim McPherson, que um dia desapareceu por razões que já ninguém recorda Marisa Gesualdi

Faltava uma semana para a chegada do novo álbum das Breeders, ícones do rock dito alternativo dos anos 1990 – “somos uma banda de rock barulhento, é isso que somos”, corrigirá a nossa entrevistada. All Nerve é o primeiro disco gravado pela formação clássica da banda desde 1993, ano em que conhecemos Last Splash e, nele, Cannonball, No aloha, ou Divine hammer, canções com doçura na voz e catarse sónica nas guitarras, música onde a luz e a escuridão se alternam entre lampejos de surf-rock, de punk, de folk-rock e Led Zeppelin a faiscar entre zumbidos Sonic Youth. Last Splash foi há muito tempo. Tornou as Breeders estrelas rock e fez de Kim Deal, até então reconhecida como baixista dos Pixies, uma “front woman” de pleno direito, inspirador ícone feminino a juntar, nesses anos, a Kim Gordon, dos Sonic Youth, ou a Tanya Donelly, dos Throwing Muses (que também fez parte da história das Breeders). 

Estamos, portanto, a uma semana do lançamento de All Nerve quando Kim Deal atende o telefone. O que nos diz é incrivelmente anti estrela rock e, portanto, perfeitamente adequado ao que conhecemos dela. Kim Deal está a apanhar sol perto da praia. “Tiro umas férias com o meu pai todos os anos. Ele é reformado, portanto, estamos na Florida”, o estado americano que é um paraíso para americanos em busca de descanso depois de uma vida de trabalho – ou para estrelas rock arredias da norma, que acompanham os pais numas bem-vindas férias.

“Por vezes desejei ser mais misteriosa ou ter construído uma persona”, confessará Kim Deal a meio da entrevista com o Ípsilon. “Talvez tivesse sido melhor para mim, mas de onde venho, de uma pequena cidade no Ohio, tão perto dos Apalaches, quem extravasa e perde a cabeça em palco são os pregadores. Os músicos de bluegrass não fazem isso, não se mexem enquanto os seus dedos se movem à velocidade do relâmpago. Não sorriem e não franzem a testa. Estão simplesmente ali a tocar os seus rendilhados incríveis com ar sério.”

Kim Deal não tem em si o espalhafato do circo rock’n’roll, não sabe que é isso de construir uma persona artística. “Não sei como o fazer, pareceria uma idiota”, ri. Em Dayton, Ohio, tinha o exemplo inspirador dos músicos de bluegrass, e tinha outros exemplos – os que lhe mostraram o que nunca quereria ser.

Se o mundo do rock é, tendencialmente, um território masculino onde a misoginia é fértil, o Midwest americano dos anos 1980 era ainda mais. Kim e a irmã gémea, Kelley, apaixonadas pelo punk e pelo rock’n’roll, não tinham vida fácil. Nenhuma banda as aceitava porque os rapazes não achavam “cool” ter miúdas a tocar em palco. Aquilo que elas viam, porém, era revelador. “Vestiam spandex, apareciam de patins no palco e não tocavam com raparigas porque diziam que eram durões. A verdade é que só ouviam Rush, Rainbow, Black Oak Arkansas ou Sammy Hagar e faziam música muito má. Eu via-os e só pensava, ‘meu Deus, estes tipos são uns falhados tão grandes’”. Acontece que, entretanto, Kim Deal viajou.

“Mudei-me para costa, para Boston, e vi as Throwing Muses. Vi que havia raparigas em bandas, que havia gays em bandas, que havia negros em bandas. Foi uma revelação.” Na viagem, carregou consigo Dayton, onde hoje vive novamente e onde foi gravado All Nerve, e encontrou espaço para a sua criatividade respirar.

Os Pixies, projecto paralelo

“Gostava que fosse permitido à Kim gravar mais canções para os Pixies, porque Gigantic é a melhor canção dos Pixies e foi ela que a compôs”, disse Kurt Cobain em 1992, citação tornada famosa retirada de uma entrevista à Melody Maker. O vocalista e guitarrista dos Nirvana afirmou-o quando os Pixies ainda viviam a sua primeira vida e quando as Breeders já haviam editado o seu álbum de estreia, Pod. A sua génese está precisamente no defendido por Cobain. Confinada por Black Francis a um papel secundário nos Pixies, Kim Deal começou a reunir composições suas durante a digressão europeia de Surfer Rosa, álbum de estreia da banda de Debaser. No final, ficou em aberto a possibilidade de, no futuro, Deal trabalhar com Tanya Donelly, guitarrista da banda que acompanhou os Pixies em digressão, as Throwing Muses. Em 1990 surgia Pod, álbum de estreia das Breeders, onde encontramos Glorious ou essa magistral versão de Happiness is a warm gun, dos Beatles.

Os Pixies hão-de desaparecer – hiato anunciado oficialmente em 1993 –, as Breeders transformam-se. Mantém-se a baixista inglesa Josephine Wiggs e Tanya Donelly afasta-se para formar as magníficas Belly. Kim Deal lembra-se da irmã gémea Kelley, que trabalhava na Dayton natal numa empresa informática, dá-lhe tempo para aprender os rudimentos da guitarra, e recruta um rapaz da terra, Jim McPherson, para a bateria. Em 1993, nasce um clássico, Last Splash, e as Breeders deixam de ser a banda paralela da baixista dos Pixies. Só o eram, de resto, para quem via de fora. “Quando as pessoas falavam dos Breeders como algo provisório, eu respondia, ‘não, na verdade, isto é ela. Os Pixies é que são um projecto paralelo'”, explicava a irmã Kelley à Rolling Stone, em 1994. É esta formação, são estas Breeders que agora regressam com All Nerve. E é, no melhor dos sentidos, como se nada tivesse mudado.

Entra-se em All Nerve por Nervous Mary, com as guitarras ruidosas em contraste com as melodias luminosas das vozes, e continuamos pelo clássico jogo de tensão, contenção-explosão, de Wait in the car. Avançamos com o movimento serpenteante de MegaGoth e sua voz que sussurra ameaçadora como a de vilão em thriller, e embrenhamo-nos no maravilhoso conto sinistro, feito balada crepuscular – country-rock procurando ascensão em torpor sónico – que é Walking with a killer: “I bled on the headlights as they hit the street/ and on the way home, he kissed me/ I’m walking with a killer/ And I’m gonna need that ride”. Entramos e saímos de All Nerve com a sensação de que o tempo não passou por aqui. Mas também de que, caso raro nestas situações, isso não significa que nos imobilizemos a sonhar com o passado. Vitalidade inalterada e sangue quente a correr nas veias, eis as Breeders em 2018. Única diferença, Kim e Kelley estão hoje sóbrias: já não tocam há anos no álcool e nas outras drogas que, no passado, alimentavam a celebrizada atitude de espalha-brasas. Nesse sentido, Dayton faz bem a Kim Deal. “Se alguma vez me mudasse para Nova Iorque, acabaria a drogar-me num canto qualquer. O meu nível de maturidade emocional é zero. Não posso viver numa grande cidade”, diz com desassombro. All Nerve, então.

“Quando começámos a trabalhar nisto, pensei no que estaria a tornar o som semelhante [ao do passado]”, explica Kim Deal. “Depois reparei que o Jim estava a utilizar a mesma bateria, que eu tenho a mesma guitarra e que estávamos todos a usar os mesmos amplificadores”, conta. “Talvez seja isso. Não houve qualquer evolução. Crescimento, zero! Estamos a fazer tudo exactamente da mesma maneira”, ri. Houve vida para as Breeders depois de Last Splash. Editaram Title TK, em 2002, e Mountain Battles, em 2008, com Mando Lopez, hoje na banda de Morrissey, e Jose Medeles a ocuparem o lugar de Josephine Wiggs e Jim McPherson. Mas All Nerve ouve-se como se fosse, com propriedade, o sucessor dele.

Tudo começou quando Kelley, em 2012, recordou à irmã que, no ano seguinte, Last Splash comemorava 20 anos de vida. “Não achas que nos devíamos juntar e dar uns concertos?”, perguntou a Kim. Estavam ambas em casa dos pais, para onde Kim se mudara dez anos antes para acompanhar a mãe, que sofre de Alzheimer. “Parece divertido. Mas tens de ser tu a ligar ao Jim.” Kim Deal não falava com o baterista desde um dia no distante ano de 1997. Tocavam nos The Amps, banda nascida após o primeiro fim das Breeders. Numa noite particularmente tumultuosa, Kim e Jim têm uma zanga monumental. “Quando regressei a casa, a bateria já não estava na cave. Pensei no que lhe teria dito. Andávamos a beber e essas coisas e não me lembrava de nada. E claro que nunca ligámos um ao outro para saber.”

Kelley ligou a Jim, Jim aceitou entusiasmado. Josephine, que já retomara o seu lugar no final da digressão de Mountain Battles, também não demorou a juntar-se. Em 2013, depois de Kim Deal abandonar oficialmente os regressados Pixies, percorreram o mundo, incluindo uma passagem pelo Nos Primavera Sound, a tocar Last Splash – regressarão este ano ao Porto, ao mesmo festival, dia 8 de Junho. Acabou 2013 e continuaram a ser contactadas para mais concertos. Já não lhes pediam que tocassem o álbum de há 20 anos. Queriam apenas que tocassem. Então, Kim Deal pegou em Walking with a killer, a banda acompanhou-a e, recorda Kim Deal, “soou tão bonita e tão deslumbrante" que tiveram de a gravar. A essa canção seguiu-se outra, e outra, e outra: “mas afinal de quantas mais precisamos para ter um álbum?”, perguntaram entre si, por fim. Não precisavam de mais nenhuma. Já tinham um disco.

Ah, e quanto à tal zanga que quase levou à ruptura definitiva entre Kim Deal e Jim McPherson? Podemos por fim desvendar o mistério? “Ainda não sabemos o que se passou”, exclama Deal. “Foi certamente qualquer coisa que eu disse, mas ele acha que pode ter sido qualquer coisa que ele disse. Nenhum de nós se lembra.” Bem, o que lá vai, lá vai. Interessa que a bateria de McPherson está agora no mesmo sítio de onde nunca devia ter saído. Uma cave em Dayton, Ohio, onde as Breeders continuam a ser as Breeders de sempre. E ainda bem.

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Marisa Gesualdi