Editora Deriva chega ao fim

Lançada há 15 anos, a chancela de António Luís Catarino publicou autores como a Nobel austríaca Elfriede Jelinek, mas também ajudou a revelar escritores portugueses como José Ricardo Nunes, Paulo Kellerman ou Filipa Leal.

António Luís Catarino
Foto
António Luís Catarino

A Deriva chegou ao fim esta quinta-feira, após 15 anos de actividade e mais de duas centenas e meia de livros publicados, anunciou o editor António Luís Catarino, que responsabiliza as distribuidoras e as grandes superfícies pela decisão que agora se viu obrigado a tomar.

Criada em 2003 no Porto, a Deriva foi vencida pelo cansaço de "lutar contra tempestades" sem ter sequer perspectivas de "bonanças próximas", diz o editor, lembrando que, para as pequenas editoras, as "diversas austeridades económicas nunca deixaram de existir". 

Um dos principais problemas da Deriva, assume António Luís Catarino, foi a distribuição. "Perto de 60% do custo dos livros vai para as distribuidoras, e o resto vai para as tipografias, que entretanto burocratizaram cada vez mais o acesso às publicações, fazendo com que as pequenas editoras paguem antes da edição dos livros".

As grandes cadeias como a FNAC e a Bertrand são outro problema, diz, porque não criam fundos, o que leva a que um livro tenha, calcula, entre três a quatro meses de vida. "Para uma editora de best sellers, não faz mal", argumenta, mas é dramático para quem publica "long sellers, como livros de história, sociologia, antropologia, ensaio ou poesia".

E as pequenas livrarias também não são solução, porque, apesar de manterem os livros durante mais tempo, enfrentam elas próprias dificuldades de tesouraria, que fazem com que só consigam pagar à editora uma vez por ano, diz ainda António Luís Catarino, sublinhando, contudo, que essas pequenas livrarias de Lisboa, Coimbra e Porto são "as melhores recordações" que leva. 

Catarino, que já anteriormente tinha estado ligado a outras pequenas editoras, como a Centelha e a Fora do Texto, em Coimbra, não vislumbra soluções para este pequeno mercado alternativo, em grande parte, reconhece, por responsabilidade das próprias editoras.

"Nunca vi uma vontade genuína, verdadeira, de se juntarem e fazerem uma alternativa à distribuição, porque são pequenas editoras mas têm uma personalidade muito própria, muito forte, que impede muitas vezes o entendimento entre elas, e isso é uma coisa que me ficou, a dificuldade de entendimento e de arranjarem alternativas sólidas no campo da distribuição, que é o que nos mata".

Entre os autores publicados pela Deriva, contam-se o poeta e ensaísta francês Jean-Claude Pinson, a Nobel austríaca Elfriede Jelinek ou o filósofo e crítico literário russo Mikhail Bakhtin, entre muitos outros.  

No que respeita aos autores portugueses, António Luís Catarino mostra-se orgulhoso de ter dado a conhecer alguns nomes que entretanto se afirmaram no mercado livreiro, como a poetisa Filipa Leal, o contista Paulo Kellerman, ou os poetas e ensaístas José Ricardo Nunes e Ricardo Gil Soeiro.

Sugerir correcção