Reportagem

A maquilhagem pode ajudar a disfarçar a doença e promove a auto-estima

No Hospital Pedro Hispano, no Dia da Mulher, os armazéns Marques Soares decidiram ajudar as mulheres a sentirem-se mais bonitas.

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Os armazéns Marques Soares resolveram celebrar o Dia da Mulher no hospital Pedro Hispano paulo pimenta
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Ao longo da manhã, profissionais maquilharam doentes paulo pimenta
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O objectivo desta iniciativa foi ajudar a promover a auto-estima paulo pimenta
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A enfermeira chefe do hospital de dia, Paula Peixoto, reconhece a importância desta iniciativa paulo pimenta
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Rosa David tira uma fotografia com a maquilhadora paulo pimenta

Celina Vale tem 46 anos, estaciona o seu "Ferrari", como chama ao carrinho com a medicação intravenosa que está a fazer no Hospital Pedro Hispano, e senta-se. “Este mimo de nos maquilharem é muito importante para a nossa auto-estima", declara. Celina seguia pelos corredores hospitalares quando foi surpreendida pela acção de maquilhagem e conselhos das colaboradoras dos Armazéns Marques Soares, uma promoção para assinalar o Dia Internacional da Mulher, junto daquelas que ali recebem tratamento oncológico.

Aos 18 anos, Celina teve cancro nos ovários. “Os efeitos secundários da quimioterapia, como a queda do cabelo e a pele ficar muito seca, deitam-nos abaixo”, relata. Hoje, aos 46 anos, continua a fazer tratamentos “a tumores benignos” que entretanto surgiram. “Estava a contar com uma manhã inteira de seca e afinal surgiu esta surpresa que ajuda a passar o tempo”, congratula-se.

É uma das primeiras doentes a ser maquilhada por Helena Assucena, consultora da Marques Soares, que lhe vai colocando o creme de dia. Segue-se “uma maquilhagem muito ao de leve, sem exageros”, explica a profissional que não resiste à comoção de estar a trabalhar com doentes oncológicas. “Passamos a vida a queixar-nos de tudo e olhe para estas mulheres lutadoras”, aponta, emocionada, mas feliz por estar a proporcionar-lhes um momento agradável.

Mas Celina Vale desdramatiza e vai dizendo que “o cancro não é morte, não é um bicho-de-sete-cabeças”. Ainda se lembra de, aos 18 anos, não sair “à rua pálida e sem estar arranjada”, apesar da depressão que teve quando descobriu a doença. Um toque de maquilhagem no rosto, rímel nas pestanas, sombra nos olhos e batom nos lábios era o seu ritual, importante para a sua auto-estima, lembra. Ainda guarda a peruca que usou, quando lhe caiu o cabelo todo. “A vantagem é que nem precisava de ir ao cabeleiro”, brinca, entre risos, recordando que algumas pessoas a olhavam com pena e outras afastavam-se com receio de contágio. “Ainda bem que os tempos são outros e as mentalidades mudaram muito”, desabafa. Não quis saber o que os outros pensavam. Combateu a depressão e preocupou-se como, aliás, sempre o faz, com a sua aparência.

"Nem pareço eu! Chiquérrima!"

Também Rosa David, 54 anos, aproveitou a iniciativa para ocupar as horas que tinha de esperar pelos resultados das análises que fez ao início da manhã. Não estava a contar com a surpresa quando chegou ao hospital para o tratamento bimestral que faz para o linfoma no rim. No final, olha para o espelho e nem quer acreditar no que vê: “Nem pareço eu! Chiquérrima! Muito obrigada! Subiram-me o ego!”, agradece. A consultora Luísa Almeida responde: “O gosto é todo nosso! Vocês são umas lutadoras!” e oferece-lhe uma flor.

Emocionada, Rosa David quer tirar uma fotografia com a maquilhadora para ficar com uma recordação daquele momento. Antes de adoecer não tinha por hábito pintar-se, mas depois começou a comprar mais cosméticos para melhorar a auto-estima. "A cabeça, às vezes, não anda muito bem e vamos abaixo. Já fiz radioterapia, mas agora estou a fazer outro tratamento”. 

Chegou depois a vez de Conceição Viana, 53 anos, que, não tarda nada, vai ter uma sessão de quimioterapia. Fá-la de três em três semanas. Enquanto espera que a chamem, Conceição entrega-se às mãos da maquilhadora. “Dizem que tenho boa cara apesar da doença, porque me preocupo muito com a minha aparência: gosto de me maquilhar, de me vestir bem e sempre tudo direitinho a condizer”, conta. Não sai à rua se não estiver bem vestida e o resultado é o desejado, as pessoas comentam: “Está toda bonita! Nem parece que está doente.”

A enfermeira chefe do hospital de dia, Paula Peixoto, reconhece a importância desta iniciativa para a auto-estima e bem-estar das doentes oncológicas que ali vão fazer o tratamento. “Sensibiliza-as para a necessidade de investirem nelas próprias, serem proactivas e terem outras estratégias para conseguir viver melhor estes momentos difíceis”, conclui.