Editorial

O que é que aconteceu aos socialistas europeus?

A esquerda europeia ficou a meio de uma ponte com as transformações nas economias e nos Estados da última década.

A queda do Partido Democrático italiano é só mais uma peça de um puzzle que se desfaz, a da queda dos socialistas europeus. A lista do último ano já vai longa: na Holanda, passou de 25% para 6%; em França, de 30% para 7%; e na República Checa, de 20% para 7%. Agora junte o que aconteceu nos últimos anos, noutras paragens: na Grécia, uma queda de 30 pontos; na Alemanha, de 20; em Espanha, de 12. 

Estes dados são tão impressionantes que se tornaram terreno fértil para muitos cientistas políticos. Mas o que é que aconteceu aos socialistas europeus? A crise seria a resposta mais fácil — e inevitavelmente teve um contributo para a queda de todo o centro político. Mas não é o único factor. A verdade é que a esquerda europeia ficou a meio de uma ponte com as transformações nas economias e nos Estados da última década. Primeiro com a liberalização do comércio internacional, depois com o aprofundamento da integração europeia; entretanto, com a digitalização, as relações de trabalho mudaram muito, as sociedades também — enquanto o poder do Estado se reduzia a um ritmo muito superior ao das propostas dos partidos.

Os desafios que o novo quadro global coloca aos políticos tornaram-se subitamente mais difíceis para a esquerda moderada, porque essa “transnacionalização” deixou quem tem menos recursos e menos qualificações num mundo fechado, acentuando a noção de desigualdade, sem que os governos ou os partidos moderados tenham novos instrumentos para os proteger, defender ou estimular. 

Ponham em cima deste cenário uma crise económica e uma vaga de imigração e podem ver o que aconteceu em muitas das últimas eleições, Europa fora, onde só sobrevivem (em graus diversos) os optimistas do centro-direita ou partidos dos extremos. Essa é a razão do sucesso dos políticos proteccionistas, antieuropeus, anti-imigração — porque estão desligados de valores que ainda marcam a civilização europeia, tal como a conhecemos hoje.

Em Portugal, o discurso antieuropeu não pegou ainda, e não há no país um problema de imigrantes. Por isso, o PS português parece um sobrevivente. Mas, convém dizer, sujeito a teste nas próximas legislativas. Porque os 32% de António Costa em 2015 só lhe garantiram o lugar em São Bento graças à aliança que fez com os partidos à sua esquerda. E porque, programaticamente, o PS ainda terá de fazer uma escolha para 2019: virar mais à esquerda, começando uma ruptura ideológica que em 2015 não teve de assumir; ou posicionar-se como optimista face à nova economia, retomando um velho capítulo na política nacional — e afastando-se dos seus parceiros que são naturalmente antieuropeus. Talvez, se a economia ainda ajudar daqui a ano e meio, a escolha não seja difícil. Mas será sempre um desafio.