Mexia sobre futuro: “Os accionistas já decidiram o que querem”

O presidente da EDP, que vai ser reconduzido num quinto mandato, diz que a sua continuidade na empresa, mesmo que seja acusado no caso dos CMEC, é um tema dos accionistas, cujas decisões são "soberanas".

Foto
Medidas de natureza política custaram 192 milhões à EDP em 2017 Rui Gaudêncio

A pergunta era se António Mexia, caso viesse a ser acusado no processo de investigação aos contratos da EDP, em que é arguido, tencionava deixar o cargo. A resposta, disse o gestor, não lhe cabe a ele, mas sim aos accionistas da empresa. “As empresas são dos seus accionistas, são eles que decidem o que querem” e, “aparentemente, já decidiram aquilo que querem”, disse Mexia, que foi proposto pelos investidores de referência da empresa, com a China Three Gorges à cabeça, para um quinto mandato na liderança da companhia, onde está desde 2006.

O líder executivo da EDP, que se prepara para ser reconduzido na assembleia-geral marcada para o início de Abril e pagar um dividendo de 19 cêntimos por acção, não deixou passar a conferência de imprensa de apresentação de contas sem fazer auto-avaliação - neste ano em que o lucro subiu 16%, para 1113 milhões de euros (embora tenha caído 8%, para 845 milhões, se expurgados efeitos como mais-valias na venda de activos de distribuição de gás) e em que a dívida líquida atingiu o valor mais baixo em dez anos.

No final de Dezembro, a dívida líquida da EDP estava nos 13.900 milhões de euros (a descida de dois mil milhões de euros face a 2016 foi potenciada com a venda da rede de distribuição de gás em Espanha, por 2500 milhões de euros). Não só o rácio de endividamento baixou (de quatro vezes o EBITDA para 3,7 vezes) como a empresa passou a ter de suportar menores custos com juros, porque o custo médio da dívida baixou 30 pontos, para 4,1%, em 2017.

Recordando a trajectória que a EDP fez desde 2008, quando a dívida também estava nos 13.900 milhões (tendo chegado a atingir 18.200 milhões em 2012), Mexia lançou a pergunta para o ar: “O que teria sido da companhia” sem a estratégia de internacionalização e a aposta nas renováveis? De lá para cá, o lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações (EBITDA) cresceu 17% (em 2017 melhorou 6%, atingindo 3990 milhões). Porém, frisou o gestor, se não tivesse havido investimento nas renováveis e no Brasil, a empresa não estaria em condições de suportar o cenário actual: a queda de mais de 40% do EBITDA das actividades de produção e comercialização na Península Ibérica. “É bom sempre pôr as coisas numa perspectiva histórica”, afirmou o presidente da EDP.

As contas de 2017 reflectiram o bom desempenho da EDP Renováveis, que representa mais de um terço do EBITDA do grupo. A empresa de energias limpas terminou o ano com lucros de 276 milhões de euros (mais 390% face a 2016) e um resultado operacional bruto de 1370 milhões de euros (mais 17%). O Brasil também ajuda a explicar a evolução do lucro, pois o EBITDA subiu 14%, para 620 milhões de euros.

Os resultados internacionais (que já pesam quase dois terços no total) ajudaram a compensar a queda de 4% no negócio de redes na Península Ibérica, para 95 milhões (a venda da Naturgas representou uma fatia de 83 milhões de euros a menos). Quanto à produção e comercialização de energia em Espanha e Portugal, a seca pressionou a produção hídrica de electricidade e cortou 300 milhões de euros aos EBITDA desta área de negócio, que afundou 42%, para 580 milhões.

Recados ao Governo

Nas contas de 2017 a EDP contabilizou uma imparidade de 105 milhões de euros relativa à central a carvão de Sines. Porquê? Porque as medidas fiscais introduzidas este ano pelo Governo vão retirar rentabilidade à central e, por isso, até podem fazer com que ela feche “bastante antes” da data prevista, disse António Mexia.

“Devido a medidas que apareceram, o valor que temos nos livros [para Sines] é inferior ao valor que achamos que vai produzir”, adiantou o administrador financeiro da empresa, Nuno Alves, explicando o reconhecimento da imparidade nas contas. O mesmo se passa em Espanha, onde a alteração de pressupostos regulatórios obrigou a EDP a rever as expectativas de ganhos na produção eléctrica a partir do carvão e a reconhecer uma perda de 92 milhões.

Sobre Sines, Mexia sublinhou que a EDP está “profundamente empenhada” na descarbonização, mas salientou que “é absolutamente fundamental gerir o modelo de transição”. Os países “têm de pensar” como é que o vão fazer e, no caso de Sines, o futuro “depende da evolução da questão fiscal”. Será isso que irá ditar se a maior central eléctrica do país se mantém em operação, como previsto, até 2015.

É que apesar de Sines estar no “top 3 das centrais a carvão mais eficientes da Península Ibérica”, as novas medidas introduzidas pelo Orçamento do Estado, nomeadamente o fim da isenção do ISP sobre o carvão para produzir electricidade e o adicional do carbono, podem “levar ao seu encerramento bastante antes do que estava previsto”, porque deixará de ser competitiva face às espanholas.

Nesse cenário, haverá certamente um “pequeno aumento do preço grossista da electricidade” (porque a produção passa a ser assegurada por centrais a carvão mais caras e menos eficientes), as importações de energia a Espanha vão subir e até pode haver riscos do ponto de vista da segurança do abastecimento e do equilíbrio da rede, adiantou o gestor.

A central de Sines é o maior centro electroprodutor do país e tem sido fundamental no actual cenário de baixa produção hídrica (por causa da seca). Era também a central da EDP com o contrato de receitas garantidas (CMEC) mais elevado (e mais dispendioso para os consumidores), mas este instrumento terminou no ano passado, pelo que a venda da energia que ali é produzida passou a estar exposta aos riscos de mercado.

O Orçamento do Estado deste ano introduziu uma nova taxa sobre o carvão para produção eléctrica que vai ser de aplicação gradual e entrar em vigor por completo em 2025. Segundo contas divulgadas anteriormente pela EDP, este ano a medida custará cerca de dez milhões às centrais da EDP e da Endesa.

Mas essa é apenas uma das medidas de origem política que tem impacto nas contas da EDP. O presidente da eléctrica adiantou que o bolo total dos “custos regulatórios” (que também inclui a tarifa social e a taxa da energia) em Portugal pesaram 192 milhões de euros nos resultados.