Crítica

Uma interpretação dos Gurrelieder plena de sentido dramático

A interpretação dos Gurrelieder na sala Suggia, obra prima do romantismo germânico tardio, foi um dos momentos altos do ano Áustria na Casa da Música.

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Alexandre Delmar
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Composta no início do século XX, numa linguagem marcadamente influenciada pela música de Richard Wagner e de Gustav Mahler, Gurrelieder é uma das obras primas do romantismo tardio germânico e o cume da primeira fase criativa de Arnold Schönberg. A sua apresentação na Casa da Música representou um dos pontos altos da programação do ano Áustria, possibilitando escutar uma obra pouco executada em Portugal pelo facto de exigir um vasto contingente instrumental e vocal, mas também pelos desafios técnicos que apresenta.

A versão reduzida de Erwin Stein, apesar de ser menos rica que a partitura original de Schönberg, é extremamente eficaz e resulta numa maior transparência das linhas contrapontísticas, continuando a proporcionar uma massa sonora considerável que conta com mais de cem instrumentistas.

O concerto contou com um bom elenco de cantores, liderado pelo tenor Robert Dean Smith no papel de Waldemar e por Magdalena Anna Hofmann no papel de Tove. Nas oito canções de Waldemar, que atravessam as três partes da obra, o experiente Robert Dean Smith soube interpretar com mestria os diferentes estados emocionais e psicológicos do Rei Waldemar, aliando aos seus reconhecidos recursos vocais uma notável capacidade expressiva.

A sua interpretação brotou da inquestionável compreensão dos estados de alma do Rei, partindo do arrebatamento amoroso, passando pela impetuosa revolta contra Deus e culminando com a inevitável danação. Igual capacidade expressiva e compreensão dramática revelou Magdalena Anna Hofmann que proporcionou momentos de elevada qualidade interpretativa, embora nem sempre tenha conseguido manter o equilíbrio vocal no registo agudo.

Na interpretação da Pomba do Bosque, Christina Daletska anunciou a morte de Tove com forte intensidade dramática, apesar da sua versátil voz não se ter adequado totalmente a um personagem que exige um registo grave com maior volume e projeção sonora. O barítono André Baleiro proporcionou uma boa interpretação do camponês Bauer, tendo demonstrado uma excelente presença em palco e uma boa capacidade de projeção vocal, contribuindo positivamente para a caracterização do ambiente macabro da terceira parte da obra.

Os desempenhos de Jeff Martin e de Salome Kammer foram igualmente convincentes. O tenor realizou uma boa interpretação do bobo Klaus numa canção de grande amplitude vocal, enquanto a soprano executou o melodrama final de forma eloquente fazendo um bom uso do sprechstimme (execução vocal situada entre o canto e a fala). A forma como os cantores entraram e saíram do palco revelou um savoir faire cénico que contribuiu para sublinhar a acção inerente ao poema narrativo.

A orquestra teve uma boa performance, marcada pelo equilíbrio, tanto nos tutti como nas secções de menor densidade orquestral, incluindo as diversas passagens de natureza camerística. É digna de destaque a excelente sonoridade das cordas, o bom desempenho dos naipes de sopros (nomeadamente o ‘coro’ de trompas e o ‘coro’ de trombones e tuba), assim como a qualidade com que foram executados os diversos solos solicitados pela partitura.

Merece igualmente um elogio a junção do coro da Casa da Música com o coro da Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo do Porto, que proporcionou uma excelente experiência profissional aos jovens estudantes de música. No entanto as pouco mais de cinquenta vozes masculinas foram insuficientes para fazer jus ao carácter macabro e enérgico dos Homens de Waldemar, mas também para enfrentar os desafios de uma partitura vocalmente exigente – Schönberg solicita três coros masculinos subdivididos em quatro vozes, perfazendo um total de 12 partes! Este desequilíbrio poderia ter sido colmatado com um maior número de Baixos e Tenores, mas também através de uma diferente disposição do coro no espaço, seguindo porventura a prática performativa do século XIX, na qual os coros estavam mais próximos do público.

A liderar os mais de 200 músicos que estiveram no palco da sala Suggia esteve o experiente maestro Stefan Blunier, profundo conhecedor da obra de Schönberg. A sua direcção foi segura e plena de sentido dramático, demonstrando um envolvimento com os músicos que foi patente não só na forma como tirou da orquestra a sonoridade e a expressividade desejadas, mas também no modo como contribuiu para uma boa articulação entre as vozes solistas e os instrumentos.

Apesar das imperfeições mencionadas o concerto foi indubitavelmente um dos momentos altos do ano Áustria na Casa da Música, destacando-se a boa performance dos cantores solistas, da orquestra e do coro misto, assim como o forte sentido dramático da interpretação.