Entrevista

Linas Linkevicius: “Posso aceitar que me chamem Kremlinófobo, mas não russófobo”

O ministro dos Negócios Estrangeiros lituano diz que a UE deve manter-se unida e continuar a ter uma política consistente face à Rússia.

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Quando liderava o Ministério da Defesa lituano, nos anos de 1990, Linas Linkevicius tinha as portas da NATO e da União Europeia hermeticamente fechadas. Hoje, a integração nas duas instituições dá aos lituanos mais segurança, mas não estão totalmente descansados, diz o agora ministro dos Negócios Estrangeiros, que esteve em Lisboa. A agressividade russa na sua vizinhança levou a Aliança Atlântica a ter uma presença militar nos países bálticos, incluindo quatro caças da Força Aérea portuguesa.

A Lituânia e a Rússia partilham fronteiras e laços económicos e sociais. Que tipo de contactos têm tido os dois países num ambiente de degradação entre as relações entre a UE e Moscovo?
São relações muito restritas e limitadas, mas dado que são nossos vizinhos há relações directas que se mantêm. O número de turistas até tem aumentado, apesar da propaganda russa. Eles gostam, há muita gente que ainda sabe falar russo. As sanções de ambos os lados tiveram um grande impacto para as trocas comerciais, especialmente para a indústria alimentar e os transportes, mas reorientaram-se para outros países. Não posso dizer que estejam contentes com a situação, mas perceberam que era impossível de evitar e basicamente ajustaram-se à situação. Mas, em termos gerais, e pode ser surpreendente, as exportações até aumentaram, em sectores que não estão abrangidos pelas sanções. A nível cultural, há programas fronteiriços da União Europeia em desenvolvimento.

As relações entre vizinhos deveriam ser intensas, e espero que no futuro isso aconteça. Não foi culpa nossa, mas não podemos simplesmente ignorar o que se passa à nossa volta – e eles sabem disso, espero eu. Acredito que eles venham à Lituânia, que tenhamos relações normais com a Rússia, mas não à custa de valores e princípios que devem nortear o nosso relacionamento. É isso que digo durante as discussões com os colegas da União Europeia. Por exemplo, as sanções. Ninguém pode ficar orgulhoso com a linguagem das sanções, não é desta forma que os países devem falar. Mas este é o único recurso que estamos a utilizar para fazer pressão quando ninguém ouve. Digo sempre aos meus colegas que devemos permanecer unidos e ser consistentes, que devemos aprender lições com o passado. Estamos agora a falar da Ucrânia e da Crimeia, mas lembremo-nos da guerra no Cáucaso do Sul, em 2008, em que cerca de 20% do território da Geórgia foi ocupado. Devemos tirar a conclusão de que a Rússia aprendeu com isso que é possível anexar território pagando um preço muito baixo. E nós não aprendemos essa lição.

Acredita que são as sanções que têm impedido a Rússia de fazer novas provocações?
Há quem diga que depois das presidenciais [russas] de Março a estratégia possa mudar, porque a Rússia tem de encontrar uma estratégia para sair das sanções de qualquer forma. Porém, oficialmente eles continuam a desvalorizar as sanções, mas sabemos que isto é algo muito importante, que tem sido doloroso, especialmente para o sector privado. Independentemente do que eles venham a fazer, nós precisamos de ser consistentes. Um ponto muito importante. Quando dizem que criticar o Kremlin é ser russófobo, eu costumo negar isso. Não devemos misturar tudo o que acontece com a Rússia, e não se devia monopolizar a representação da Rússia. É um país muito grande, há pessoas diferentes. Por exemplo, eu sei falar russo, tenho muitos amigos russos. Costumamos organizar fóruns anuais que juntam russos de todo o mundo, onde falamos em russo sobre o futuro da Rússia na Europa, sobre um futuro comum. É difícil chamar-nos de russófobos. Posso aceitar que me chamem Kremlinófobo, mas não russófobo. Gosta da língua e da cultura. Manter canais de comunicação abertos, para mim, significa não tanto relações com dirigentes oficiais, mas com outras camadas: a sociedade civil, jornalistas, a oposição. Sou optimista e acredito que irá chegar uma altura em que as relações serão boas, mas não à custa de valores e princípios.  

O fim da guerra na Ucrânia e a desocupação da Crimeia pela Rússia seriam suficientes para que as relações se normalizassem?
Esses seriam passos muito importantes, mas pensar que estes são os únicos problemas não está correcto. Há muitas vítimas desnecessárias e inocentes, até mesmo enquanto falamos. Mas até agora não temos sequer promessas ou declarações nesse sentido. A Rússia nega sequer que é uma das partes do conflito. Devemos olhar para o quadro inteiro. Eu falei da Geórgia, olhemos para a Síria – onde podem chumbar mais uma resolução. Vemos que a Rússia não é hoje um parceiro, infelizmente. Numa parceria deveríamos tentar alcançar objectivos comuns, compreender os riscos e as ameaças no mundo em conjunto. Se não conseguimos fazer isso, então não há parceria. Se eles acham que vão regressar à mesa das grandes potências através da força militar, estão errados. Deveriam voltar como parceiros. Aí todos se irão respeitar e esperar mudanças no mundo.

A sensibilidade de um português a quatro mil quilómetros de Moscovo será diferente da sensibilidade de um lituano, que tem um exclave russo mesmo ao lado, face à potencial ameaça da Rússia. Como tem sido alcançado o aparente consenso na UE em relação às sanções, por exemplo?
É algo muito pragmático. Posso dar a minha experiência pessoal. Quando fui nomeado ministro da Defesa, em 1993, as nossas forças militares tiveram que ser reconstruídas do zero e não tínhamos qualquer promessa de vir a integrar a NATO ou a UE. Foi-me dito pessoalmente: ‘Esqueçam, nunca vão ser membros da NATO’. Precisávamos de encontrar uma forma de dizer que partilhávamos ameaças e preocupações com os nossos futuros aliados. Foi por isso que fomos o primeiro país báltico a participar em missões de manutenção de paz na antiga Jugoslávia. Não era perto da Lituânia, mas enviámos soldados para situações perigosas. Foi uma decisão muito importante, mas foi tomada de forma deliberada, sabendo que era importante para os nossos parceiros. Hoje estou aqui para agradecer aos nossos aliados portugueses pela contribuição para a nossa defesa. É uma grande demonstração de solidariedade. E estou aqui para dizer que também nós partilhamos as vossas preocupações. África, por exemplo, é uma região muito longe da Lituânia, mas recentemente visitei o Mali, onde temos mais de 40 militares em duas missões. Se perguntar a alguém em Vilnius sobre isto, não é que se oponham, mas não é dos primeiros assuntos que as pessoas discutam. É o mesmo com a migração. Não estamos na rota dos refugiados, mas os lituanos, mesmo tendo algumas reservas, percebem que temos de ter um papel neste problema. Devo dizer que isto é aceite por todo o espectro político.

De que forma uma medida de dissuasão tradicional, como a presença militar da NATO no leste, pode conter uma ameaça híbrida como representa hoje a Rússia?
As ameaças híbridas estão a actuar enquanto falamos, aqui e noutros sítios. Um batalhão da NATO não pode fazer nada quanto a isso, é verdade. Mas pode indicar resiliência de uma forma convencional. Na se trata de um contingente muito grande, mas é multinacional, e isso é um sinal político muito forte. É um sinal muito importante. O que dizemos à Rússia é que não vamos competir, não vamos fazer aumentar a tensão, mas eles não devem duvidar de que iremos fazer tudo o que for necessário para proteger o nosso território e as nossas populações. As ameaças híbridas são algo de diferente, mas que também devem ser valorizadas. E devem ser abordadas de forma conjunta pela UE e pela NATO. O centro de excelência para ameaças híbridas é em Helsínquia, mas fiquei contente por perceber que valorizam uma cooperação estreita com a NATO. É assim que se deve fazer. Por acidente, ou provavelmente não, os países bálticos têm os centros de excelência da NATO que lidam directamente com estas ameaças (comunicações estratégicas na Letónia, ciber na Estónia e segurança energética na Lituânia). Lembro-me de quando era embaixador na NATO, antes de 2006, quando tentava convencer os meus colegas de que a NATO deveria lidar com a segurança energética e ninguém percebia porquê.

Precisamos de ajustar o nosso pensamento às mudanças na realidade, mas sem descartar os meios convencionais. Há menos de dez anos, quando discutíamos a necessidade de combater a propaganda externa, os meus colegas não percebiam do que se tratava. Eu dizia-lhes que tínhamos que tornar a nossa informação mais assertiva e mais transparente. Do outro lado tínhamos um sistema que recebia milhões e milhões de dólares, enquanto nós apenas tínhamos algumas acções esporádicas. A informação tornou-se numa arma e a mentira não é um ponto de vista alternativo. Quando se mente está a fazer-se lavagem cerebral, e isso torna a informação numa arma. Os soldados não abandonam uma batalha necessariamente, mas as pessoas votam de forma muito estranha em eleições e referendos, guiados sobretudo pelas emoções e não pelos factos.

Não acredita que as regras democráticas da liberdade de imprensa são suficientes para combater a propaganda?
Devem, claro, mas não é suficiente. Um referendo é um instrumento muito bom, que permite às pessoas participarem directamente nas decisões. Mas se as pessoas não estão informadas, então podem tomar decisões muito erradas. Não quero criticar os britânicos – foi uma decisão deles – mas muitos dos que votaram a favor do “Brexit” parecem agora estar surpreendidos com o que vai acontecer. Se o Governo acha que o assunto é importante, deveria aproximar-se das pessoas, devia explicar o que está a fazer, o que está em causa. É verdade que temos instituições democráticas e liberdade de imprensa, mas está ocupada com algo diferente, que não é informação. Os instrumentos democráticos irão funcionar se forem activos, mas se forem passivos então irão falhar.

Os lituanos sentem-se mais seguros agora que o país está perfeitamente integrado na NATO e na EU?
A minha presunção é a de que as pessoas estão mais confiantes, mas ao mesmo tempo não estão relaxadas. Mantêm-se atentas ao que se passa na vizinhança próxima e por isso não estão relaxadas. Precisamos destas demonstrações de solidariedade.

Recentemente, o Governo lituano afirmou que a Rússia estacionou mísseis balísticos com capacidade nuclear em Kaliningrado. Qual deveria ser a resposta da NATO?
Os russos costumam perceber as mensagens claras. Se forem, eles tiram as suas conclusões e irão agir em conformidade. Se não forem, se forem mensagens contidas ou flexíveis, não significa que venham a responder de forma semelhante. Eles entendem-na como um sinal de fraqueza. Se não se tomarem medidas, então eles continuam. O problema dos mísseis não é apenas nosso. Eles podem atingir Berlim. Dizem que é uma resposta à NATO, mas a NATO tem uns milhares de soldados nos países bálticos, e isso não parece que seja excessivo, quando há centenas de milhares de soldados russos na região ocidental ou exercícios que testam cenários agressivos. Não há comparação. Apesar disso, devemos mostrar que encaramos isto com seriedade. Temos muitas lacunas nas nossas capacidades militares. Os países bálticos não têm uma força aérea, por exemplo, e graças aos nossos aliados temos policiamento do espaço aéreo. Mas não é uma defesa aérea e temos de a ter. Se recuarmos, então eles irão ver esse recuo como um novo normal.

A Lituânia é um dos poucos países que cumpre o limiar mínimo de 2% do PIB em gastos de defesa previsto pela NATO. Acha que esta forma de medir as contribuições justas ou seria favorável a um sistema que incluísse outros factores de ponderação?
Cada vez discutimos mais as questões de eficiência, de como usamos estes recursos. Também temos discutido a estrutura do orçamento. Se se gastar 2% do PIB em defesa, mas 70% disso for gasto em pessoal, então na verdade está-se apenas a queimar dinheiro. Pode ficar-se chateado com o Presidente Trump e com a forma como a questão foi colocada, mas a verdade é que os americanos não podem contribuir com 70% do orçamento da NATO. Porque devem ser eles a fazer isso?

O pacto europeu de defesa comum assinado recentemente foi suficientemente ambicioso ou a Lituânia gostaria de ter ido mais além?
Encaro-o como uma forma de acumular recursos e preencher lacunas nas capacidades de defesa. Por exemplo, nós estamos encarregues da área da ciberdefesa e isso pode ser coordenado com a NATO, apesar de estar integrado na política europeia. Não acho que deva caminhar no sentido de uma estrutura autónoma, mas sim complementar da NATO. Houve muita a gente a dizer, após as eleições nos EUA, que a América se ia afastar da NATO e portanto deveríamos estabelecer uma defesa própria. É algo de muito errado. Deve-se preservar as relações euro-atlânticas, os seus recursos. Agora é óbvio que este é o caminho certo. Não nos podemos esquecer que a NATO é o pilar de segurança mais importante para todos os europeus, sejam membros da aliança ou não.