Torne-se perito Crítica

O tempo passou pelos Franz Ferdinand

Os Franz Ferdinand começaram outra vez, mas o tempo não deixou de passar por eles. Apesar de alguns momentos de inspiração, nota-se.

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Há aqui, no fundo, um desejo de recuperar a vitalidade e o fervor da primeira vez. Porque é realmente uma primeira vez: depois de Right Words, Right Thoughts, Right Action, o último álbum de originais (2013), e de FFS, gravado em colaboração com os Sparks (2015), os Franz Ferdinand perderam o seu guitarrista fundador, Nick McCarthy, e andaram um par de anos na sombra a tentar perceber o que poderiam ser e se eram ainda alguma coisa. Com Julian Corrie, músico sedeado na Glasgow natal da banda, no lugar de McCarthy, mostram em Always Ascending o resultado da introspecção. Sim, os Franz Ferdinand são uma banda. São, aliás, a mesma banda, a banda híper-consciente das arquitecturas pop, a do rock e pós-punk em balanço de pista de dança, a das observações sociais do vocalista, guitarrista e compositor Alex Kapranos, criador personagens que se movem entre o tédio e o desejo de agitação, normalmente frustrado, que vagueiam entre ruminações no quarto e hedonismo no clube cool da cidade. A chegada de Julian Corrie não alterou substancialmente nada disto.

Há neste regresso, portanto, o desejo de recomeçar a história. De repente estamos todos novamente em 2004, o ano do homónimo álbum de estreia, quando Darts of pleasure, Take me out ou This fire se transformaram em inspirada e bem-vinda banda-sonora da época. Assim o indicia o ataque do tema-título que abre o álbum, que explode em groove mecânico e guitarra em rebuliço depois da introdução baladeira ao piano, só para enganar. Mas claro que não estamos 2004 e, de resto, os Franz Ferdinand não cometeriam o erro de tentar recriar, ponto por ponto, o álbum original catorze anos depois — pretendem, antes, capturar a urgência e efervescência daquela primeira apresentação.

Passeiam-se aqui rapazes preguiçosos na sua pose blasé (Lazy boy edit view, baixo a pulsar, sintetizador a rodopiar, refrão a apontar aos céus pop), há solitários inadaptados a encontrar outros solitários inadaptados e a fazer a festa (Finally, com o seu órgão vintage a tremeluzir, é a versão garage-rock dos Franz Ferdinand), há uma canção de amor com formulação inesperada (“the academy award for good times goes to you”), The academy award, que ouvimos como actualização de Eleanor put your boots on, canção de You Could Have So Much Better, o segundo álbum dos Franz Ferdinand — por actualização, entenda-se uma base acústica que, agora, surge iluminada por néon 80s e piano de ascendência Stranglers (e é isso, de resto, que marca a diferença nestes velhos-novos Franz Ferdinand: o acentuar do papel que os sintetizadores assumem entre as guitarras chocalhando febrilmente e a vontade de caminharem mais decididos para a pista de dança vestindo a melhor roupa dos anos 1980 que sacaram do armário.

O problema é que a sequência do álbum contradiz o seu título. O arranque engana: estamos em 2004 e o 2004 dos Franz Ferdinand parece impecável em 2018. Só que não: à medida que avançamos, desfaz-se a ilusão. Esvai-se o entusiasmo em arpejo de sintetizador e embatemos de frente com realidade quando a guitarra picada de Huck and Jim corre o mais rápido que pode para forçar entrada num estádio perto de si — tudo grandiloquência vazia, banalidade forçada. Os Franz Ferdinand começaram outra vez, mas o tempo não deixou de passar por eles. Apesar de alguns momentos de inspiração, nota-se.

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