Entre o conflito e a indefinição, ele tenta resistir

Há dúvida e desassossego, mas também há um corpo vigilante que está aqui, agora, para marcar o seu lugar — e o aqui pode ser uma cidade gentrificada. Magma — No Limite da Selvajaria é o novo solo de Flávio Rodrigues, em cena até sábado no Teatro Carlos Alberto.

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Lábios carmim, calças tingidas, botifarras pretas, colete crivado de alfinetes com um lobo nas costas. Flávio Rodrigues está vestido a rigor, semblante austero, pronto para a guerra. Mas uma guerra a sós, entre ele e aquilo que se passa na sua cabeça. Magma — No Limite da Selvajaria é o manual do desassossego do coreógrafo e bailarino portuense, um solo que se estreia hoje no Teatro Carlos Alberto, no Porto, e que fica em cena até sábado.

Desde 2006 que Flávio Rodrigues, 34 anos, vai fazendo os seus projectos de modo independente, entre trabalhos como intérprete para coreógrafos como Né Barros, Joclécio Azevedo ou Tânia Carvalho. Com Magma, apresenta-se pela primeira vez num teatro nacional em nome próprio — e o melhor que esta co-produção com o Teatro Nacional São João lhe trouxe foi tempo. Tempo para criar, tempo para pensar. “Normalmente faço um projecto por ano e sinto sempre que tenho pouco tempo para eles. Com o Magma estive em ensaios durante oito meses, concentrado só nisto. Até deixei de dar aulas”, explica o bailarino, também professor no Balleteatro. O ponto de partida para este novo solo foi uma pesquisa sobre o conceito de violência. Recolheu imagens, improvisou em estúdio, leu Hannah Arendt e Clarice Lispector. “Mas em tanto tempo fui-me perdendo na temática”, diz.

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“Houve um livro fundamental para mim, o Sobre a Violência, da Hannah Arendt. Às tantas, depois de o ter lido, pensei: ‘ok, a questão da violência é importante para o projecto, mas eu sinto que o que se está a passar em estúdio é sobre o estar aqui, hoje e agora. Acho que este solo é uma consequência de eu estar aqui, neste sítio.” Ou seja, no Porto, numa cidade engolida cada vez mais pela gentrificação e consequente inflação das rendas, mas, ainda assim, deslumbrada com o turismo massificado e desenfreado. “Eu já não tenho uma opinião muito clara sobre o que se passa no Porto neste momento. Claro que continuo chateado com a gentrificação, com o facto de as pessoas terem de sair das suas casas na Baixa para que se criem mais hotéis e apartamentos turísticos, mas acho que estou numa fase de processar tudo isto... Isso também me trouxe para a peça”, enquadra Flávio Rodrigues.

Se em AIM, o seu solo de 2016, havia uma temperatura sombria e “uma zanga muito forte” por ver pessoas “a terem de ir embora da Baixa”, em Magma há um adiamento da raiva e “alguma esperança”. Mas a vontade de resistir continua. “Há uma voz activa que é constantemente abafada ou camuflada. Há um corpo em resistência, mas que de alguma forma é calado e posto à margem. Se calhar é nesse estado em que estou agora. Eu moro na Baixa, estou prestes a ser expulso. Não sei o que vai acontecer, por isso é que o cenário é tão branco, tão neste estado de dúvida.”

Apesar destas forças antagónicas e do estado de conflito interior, de indefinição, o corpo de Flávio é um corpo vigilante: as acções em palco são contidas, geométricas e concêntricas, algumas delas em loop, procurando mapear aquele espaço e permanecer nele. Não range os dentes, mas há gritos de comando para ele próprio, a lembrar que não pode sucumbir (e até o vemos num fato de padrão tropa, dos pés à cabeça).

Isso está intimamente ligado às duas longas caminhadas que o criador fez recentemente e que serviram também de orientação para este solo. “Fiz a Costa Vicentina toda a pé e fui de Ponte de Lima até Santiago de Compostela. Há muita coisa que passou pela minha cabeça nessas caminhadas que foram essenciais para isto. Estava muito presente o meu corpo a resistir e nesta peça há uma ideia de um corpo sempre atento. Tudo é medido milimetricamente, tudo acontece naquele espaço e não noutro”, assinala. “Há um corpo que resiste em estar ali, mesmo que ele esteja sempre a lutar contra uma tentativa de o camuflarem.” Essa imagem parece cumprir-se no final, quando Flávio deixa a sua sombra desenhada no chão. “O meu corpo continua lá, mesmo que destroçado.”

Reciclagem punk

Tal como nos seus trabalhos anteriores, em Magma o bailarino recorre a vários objectos para ir ensaiando uma dramaturgia. Mas uma dramaturgia abstracta, já que ele prefere “perder-se nos projectos com abordagens mais poéticas”. Daí denominar este solo de “poema sonoro, cénico e coreográfico”, em que a banda sonora pode ser vista como o elo de ligação: uma colagem de sons-detrito em combustão lenta, quase lava, como que tornando inteligível a palavra que intitula a peça, “magma”. “Também optei por tingir os tecidos que uso como se fossem bandeiras — a ideia de marcar território e de abanar para pedir ajuda — porque se relaciona com este magma, uma matéria muito quente, vulcânica”, nota o criador.

Tanto estes tecidos como quase todos os materiais utilizados na peça foram reaproveitados. “O imaginário punk é muito forte aqui. Quando era miúdo era um puto punk do Porto e quis recuperar as roupas que vestia, bem como a ideia de não comprar coisas, de reciclar. O mapa colorido gigante, por exemplo, é uma espécie de patchwork feito com restos de papéis de embrulho do Natal e pacotes de bolachas Oreo.” Mesmo o texto que surge a certa altura na peça é uma remistura de poemas soltos que Flávio foi escrevendo, sobre violência, amor, resistência, medo ou alterações climáticas. “É um bocado apocalíptico, mas não tem uma narrativa.”

Mais uma vez, joga-se com a abstracção, com a indefinição. “Não damos espaço para a não-definição, tem de haver rótulos para tudo”, considera o criador. “As pessoas não me deixam ter um discurso perdido, por exemplo, porque se souber tudo direitinho consigo vender melhor a minha peça. Isso também é uma forma de violência.” Nesse sentido, Flávio não faz questão de usar como estratégia de marketing o facto de estar pela primeira vez num teatro nacional com um projecto próprio. “Não é um passo nem para a frente nem para trás na minha carreira. É mais uma coisa que aconteceu.”

E aconteceu ser aqui, no Teatro Carlos Alberto, que Flávio Rodrigues quis travar uma guerra entre ele e aquilo que se passa na sua cabeça. “Eu termino a olhar para o público. Apesar de esta peça ser o reflexo do meu estado de conflito, acho que há uma força. Ninguém me vai calar.”